domingo, 19 de julho de 2015


ENTREVISTA COM MARIA DE LOURDES HORTAS*


“Os blogs literários são um fenômeno relativamente novo, mas de suma importância, não só na  divulgação da literatura, mas como forma de  democratizá-la, tornando-a  mais  acessível ao grande público”.


Maria de Lourdes Hortas
Foto: Divulgação



A poetisa luso-brasileira Maria de Lourdes Hortas nasceu em São Vicente da Beira, Beira Baixa, Portugal. Com 10 anos, acompanhada da sua família, veio para o Recife, onde reside até hoje. É também escritora, ensaísta e artista plástica. 

Conquistou vários prêmios literários, entre eles: Prêmio Fernando Chinaglia, da UBE-RJ, com o romance Diário das Chuvas (1981); Prêmio Mauro Mota, da FUNDARPE/Governo de Pernambuco, com o livro de poesia Outro Corpo (1988); Prêmio Jorge de Lima, da Academia Mineira de Letras, com o livro de poesia Fonte de Pássaros (2001); Prêmio José Cabaça, da UBE-RJ, com o romance Caixa de Retratos (2004); entre outros.

Publicou 10 livros de poesia, entre eles Fio de Lã, Outro Corpo, Dança das Heras, Fonte de Pássaros e Rumor de Vento. Como ficcionista publicou: Adeus Aldeia (1990); Diário das Chuvas (1995); Caixa de Retratos (2003). Organizou as antologias Palavra de Mulher (1979) e Poetas Portugueses Contemporâneos (1985). Foi coordenadora das Galerias de Arte BeloBelo, em Recife e em Braga (Portugal). Há cerca de 11 anos enveredou pelas artes plásticas.

Integrou o Conselho Editorial do jornal literário "Cultura & Tempo" (1981/1983) e da revista "Pirata Edições" (1983/1984), com participação também na coordenação do Movimento das Edições Pirata (1980/1986), do Recife; participou de várias gestões como diretora cultural do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, onde, atualmente, mais uma vez, exerce o cargo e dirige a revista "Encontro". Na web edita o blog literário Poesia de Maria de Lourdes Hortas .


DCP – Outubro de 1950 marcou uma cisão em sua vida, saiu de uma pequena aldeia de Portugal, atravessou o Atlântico e desembarcou numa cidade que se abria para o desenvolvimento. Até onde resiste em sua poesia esse tempo português?

MLH - Esse corte na minha vida foi sem dúvida o que me direcionou  para  escrever. Logo nos primeiros tempos do colégio no Recife, nas redações  das aulas de português,  eu dava um jeito de escrever sobre as minhas lembranças, reconstruindo o universo perdido da infância. Por volta dos doze anos comecei a me trancar no quarto para escrever. Eram fragmentos de versos, cançõezinhas que eu inventava, em papéis soltos. Depois rasgava tudo e jogava os fragmentos  pela janela que dava para um terreno baldio. Ficava assistindo o borboletear das minhas palavras, levadas pelo vento, e me sentia feliz. Mais tarde li um poema de Pessoa, onde ele dizia: Da janela do meu quarto digo adeus aos meus versos que partem para o mundo…


DCP – Posto que a poesia se rebela contra a razão, para a transfiguração de uma realidade que foge do simbólico! – A poesia em sua essência é puramente feminina?

MLH - Investigar se a poesia em sua essência é puramente feminina parece-me tão desnecessário quanto procurar saber qual o sexo dos anjos. A grande literatura de todos os tempos e geografias,  aquela que sobrevive a modismos  e  maneirismos, é aquela que transporta em si a essência  do ser humano, seja homem, ou mulher. No meu entender, não existe literatura feminina, ou masculina. Existem  textos e poemas bem ou mal escritos quer por homens, quer por mulheres. Ocorre, no entanto, que a mulher pode falar melhor do que lhe é pertinente, da sua condição feminina como um todo. Mas essa já é outra questão...


DCP – O verde aldeão, a paz do campo e o tempo que passa se arrastando. Quanto ainda esta referência te alimenta para escrever?

MLH - Essas referências estão sempre presentes em mim e por vezes necessito delas, na poesia e na vida. Entretanto,  quando a poesia me chama,  abstraio-me do tempo e do espaço. Então o  que importa é a urgência da escrita. E, se “o verde aldeão” aparecer, eu o deixo entrar.


DCP – Literatura é inspiração ou transpiração?

MLH - Esses dois ingredientes são quase sempre necessários para que aconteça a química da poesia. Não creio em poesia por encomenda, ou como jogo de palavras. No meu processo de escrita há sempre algo que detona o poema: um sentimento, um som, uma palavra, uma lembrança… Isso seria a inspiração. Depois vem o segundo momento,  a tão decantada transpiração. Enfim: poesia é Arte e, como tal, tem os seus bastidores, a sua oficina. Raramente o poema vem pronto. Mas pode acontecer. Por exemplo, uma vez sonhei com um poema:  acordei, anotei-o  e ficou exatamente como o li no meu sonho.


DCP – O que representou para você o movimento das Edições Pirata?

MLH - No Recife  dos anos oitenta, a Pirata  surgiu com grande força, movimento alternativo de literatura, que se comunicou com os demais movimentos de igual teor, que então aconteciam por toda a parte em nosso país. O movimento das Edições Pirata teve importância, peso e significado  no contexto sociopolítico da  sua época. Esse período, para quem dele participou, é inesquecível.  Havia sonho,  seiva  e esperança. Quanto a mim, posso dizer que a Pirata me abriu caminhos e alargou horizontes.


DCP – As Edições Pirata foi carregada de poetisas, várias delas participaram de modo efetivo para a realização das edições dos livros. Como você vê hoje a poesia feminina no Recife?

MLH - O Recife é um celeiro de boa poesia, escrita por homens e mulheres. Muitos nomes se destacam e extrapolam os limites geográficos. O número de  poetisas é grande. Poderia citar algumas de minha preferência e afinidade, mas já que estamos falando das Edições  Pirata, lembro, com admiração e saudade, aquela que foi a grande musa do movimento:  Celina de Holanda.


DCP – Como você vê hoje a literatura no estado?

MLH - Lamento a ausência dos antigos suplementos literários nos Jornais do Recife, que semanalmente nos mantinham informados da vida cultural da cidade. Também lamento a extinção de  lugares onde poetas e escritores se encontravam como acontecia, por exemplo, nos anos 80 e 90, na Livro Sete. Lembro com saudade os bate-papos sobre literatura, convívio de escritores em suas casas ou em bares, como o Savoy, por exemplo, e tantos outros. Não estou filiada a nenhuma das várias  Academias Literárias de Pernambuco, onde certamente muitos eventos ocorrem, por isso fica difícil fazer uma avaliação. Mas parece-me que hoje,  quer no Recife, quer no resto do país, quer aquém, quer além-mar,  não há grande efervescência na  Literatura. Aliás,  nas visitas que faço ás livrarias, posso constatar isso: há muito espaço para livros de autoajuda, e pouco ou nenhum  espaço para a Poesia.

DCP – Qual a importância dos blogs literários para a literatura hoje?

MLH - Os blogs literários são um fenômeno relativamente novo, mas de suma importância, não só na  divulgação da literatura, mas como forma de  democratizá-la, tornando-a  mais  acessível ao grande público. Por outro lado, são  um excelente suporte para os autores. Neles, qualquer candidato a poeta ou escritor, pode publicar seus textos e poemas sem precisar de editor, ou do favor de que alguém lhe arrume um cantinho numa página de um obscuro jornal… Através dos blogs e sites de poesia, entre a  avalanches de textos,  encontramos  poetas que, por vezes, nos surpreendem pela qualidade do que escrevem.  Fico feliz quando isso ocorre, sobretudo quando se trata de  jovens poetas: isso me dá a certeza de que, sob a  aparência  morna das  cinzas, a chama da poesia permanece acesa.


*Entrevista publicada em 22/02/2015



Um comentário:

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima