domingo, 21 de junho de 2015


MARESIA E MEMÓRIA

por Neilton Limeira F. de Lima*



 
 Neilton Lima/Foto: Divulgação




A lembrança de certa imagem não é senão a saudade de um certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas, são fugitivos, ai de nós!, como os anos.
Marcel Proust

O esquecimento é a memória que adormeceu.
Carlos Nejar

I
Quantos sonhos há na teia do esquecer?! Direi, nesse breve espaço branco em que me encontro, e que começo a traçar rastros, muitos, sonhos: paisagens surgindo. Dessas sombras das faces que me circundavam, geografias nas retinas, momentos que os anos, carcomidos pelo Senhor Tempo, imaginariamente novamente se realizam. E no dizer do poeta Carlos Nejar:

O processo das imagens é o processo da memória. Os criadores recontam a infância, inevitavelmente. Com outros e variados vocábulos. E ao relatá-la, são cronistas mágicos do inconstante mundo. Memoriar é desinventar. Pôr o avesso do universo no avesso das palavras. Com suas metamorfoses e arribações.

Assim, trarei, navegante dos verbos e versos, reminiscências e viagens memoriais.

II
Escolhida a página, nesse diário de bordo dividido em 38 capítulos, retrato em palavras as férias que um menino distante, e internamente guardado, habitou. Ele, o menino em mim, filho das Águas Belas ao encontro dos Recifes em seu peito. Das águas do Rio Ipanema o desaguar na Praia de Boa Viagem, seu primeiro alumbramento. Sentir, como Caeiro, o prazer primário do contato visual e tátil da água (para sempre presente nesse (ser)tanejo) invadindo a íris, a pele, o oceano do encantamento. De mãos dadas com a família: o pai, a mãe, o irmão, sementes plantadas durante o transcorrer do quinto capítulo, pois antes, quadrado branco sobre fundo branco, o que reinava era uma nublada e abstrata lembrança órfã, ele segue. Recorrendo ao poeta Nejar:

O alegórico é o espelho, em que nossas rudes palavras nos miram, entretecidas. Não saímos de nós mesmos. E não fugimos de mergulhar, anfíbios. Como se estivéssemos diante da mesma árvore da infância.


Muitos são os frutos, as imagens, as dores... mas deixaremos, eu e você, leitor, as lágrimas para as chuvas, ensolaremos este texto.

III
Dentre os sonhos que a memória aviva, há os vividos na Ilha de Itamaracá, a partir do décimo capítulo, onde a criança solidificou descobertas: o raro valor da amizade, a jovial saudade, o deleite das brincadeiras, os amores matinais, as peraltices, enfim, a felicidade que, em palavras, limitadas em suas essências não pode simbolizá-la. Na casa aconchegante e pequena, o verão de 86 e os anos que se seguiram. Ah... a espera gostosamente aflita pelos amigos e amigas: Lelê, Bolinha, Lion, Lula, Gordo, os irmãos Baquil, Martinha, Tatiane, Katarina, Juliana, entre tantos, que viriam passar o janeiro (um mês inteiro de histórias para curtir, ainda que depois reduzidas em uma redação, puxa! dariam para um romance!). Agora, queridos amigos, vocês estão tranquilamente guardados e vivos nos traços de mão direita e, claro, no pulsar do meu lado esquerdo.

Prossigamos leitor. Barco à vela no memorial, mar vislumbro os jogos de futebol (fizesse sol ou chuva), as „brigas com a Turma do Diplomata (os meninos da outra rua, que vinham nos desafiar no jogo e paquerar nossas meninas), as corridas de bicicleta no morro, as casas desertas invadidas, as lâmpadas quebradas dos postes, o muro pulado do Iate Clube (banhos de piscina e totó de graça), as idas ao Forte Orange (roubar azeitonas pretas), isto no decorrer do dia, pois à noite: o pega-ladrão, o esconde-esconde, as meninas... ah ...as meninas (pera, uva ou maça), a Sorveteria, a Praça do Pilar, tornavam o corpo embriagado de horizontes.

Nesse recordar sempre infinito, impossível não anunciar ao leitor as caminhadas no areal, quando a maré baixava, os mergulhos nos currais, nós todos maravilhados de visões marinhas, peixes, algas, conchas, moreias; as idas para a Ilha do amor, no tempo em que o medo era um de nós „dar com a língua nos dentes, contando tais aventuras aos irmãos mais velhos ou aos pais. Nossos pais...

IV
E aqui, essa criança encerra seu breve memorar de náufrago, in memoriam da figura paterna, luz dos seus passos, e da mãe, a madureza do fruto; no irmão presente a mão forte em seu ombro. Neles, a marca perpétua das experiências, páginas a serem continuamente preenchidas de paz e êxtase que a Vida, se bem vivida, propicia. No dizer do poeta Nejar: “A imaginação é o acréscimo do sonho ao real. Até o real absorver totalmente o sonho. E, se às vezes, têm as mesmas asas, o voo é diverso”. Isto posto, navegamos e resgatamos, eu e você, leitor, os sonhos na teia do esquecer, eternizados de saudade, deleitados de maresia e memória.


 *Neilton Limeira F. de Lima é mestre em Teoria da Literatura (UFPE, 2007). Licenciado em Inglês / Português pelo Curso de Letras (UFPE, 2003). Professor de Língua Portuguesa e Literaturas, atualmente na FUNESO, Professor das Graduações em Letras, Pedagogia e Enfermagem; e das Pós-Graduações em Letras; na FOCCA, onde Coordena o Curso de Letras; na FACOL, convidado nas Pós-Graduações; Membro e Coordenador de Eventos da UBE. Poeta e ensaísta. Tem textos publicados em Antologias: Mutirão de Poesia, RS (1997), Nova Geração da Poesia Brasileira, RJ (2002); Staccato, PE (2005); Áfricas de África, PE (2005), Revista Café com Letras, PE (2006), Em Pessoa PE (2007), Revista Scientia Una PE (2009; 2010; 2014), Falo com Flauta & Poesia (prefácio para Selma Ratis, PE (2012); Poesia Pernambucana Hoje volume 1 Vital Correia de Araújo. (2013). (Revisão ortográfica); Um Jeito Diferente de Filosofar. Martinho Queiroz. (2014) (Revisão ortográfica). Além de poemas e ensaios ainda inéditos. e-mail: netunoneil@gmail.com







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