domingo, 14 de junho de 2015


ENTREVISTA COM WELLINGTON DE MELO

“Costumo dizer que tenho cinco clones e que cada um desempenha papéis diferentes. Agora, quem responde esta entrevista, por exemplo, é o Wellington 5. O Wellington 1 deve estar escrevendo seu novo romance, À sombra do pai. Wellington 2 está cuidando do jantar. Os outros não passaram a agenda”.



Wellington de Melo/Foto: Divulgação





O DCP traz esta semana uma entrevista inédita com Wellington de Melo que é poeta, romancista, professor e tradutor. Nasceu na cidade do Recife. Publicou diversos livros de poesia e o mais recente romance Estrangeiro no labirinto foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom. Ocupa desde 2011 o cargo de Coordenador de Literatura da Secretaria de Cultura de Pernambuco. É editor do selo Mariposa Cartonera.


DCP – Poeta, romancista, editor e gestor de literatura. O que mais pesa no cotidiano de Wellington de Melo?

WM - Costumo dizer que tenho cinco clones e que cada um desempenha papéis diferentes. Agora, quem responde esta entrevista, por exemplo, é o Wellington 5. O Wellington 1 deve estar escrevendo seu novo romance, À sombra do pai. Wellington 2 está cuidando do jantar. Os outros não passaram a agenda. No final das contas, quando você faz o que gosta, sempre arranja tempo. É uma questão de prioridades. Como tenho sorte de fazer tudo o que gosto, nada pesa.


DCP – Por que a escolha do estilo “cartonero” para suas produções, o mercado formal não interessa?

WM - Publiquei um livro no formato, O caçador de mariposas, e fiz versões customizadas de outros dois livros (O diálogo das coisas e Desvirtual provisório), mas também já publiquei em formatos tradicionais. Meu livro mais recente (o romance Estrangeiro no labirinto) saiu pela Confraria do Vento. Na verdade, acredito que o autor deve ter liberdade de escolher como fazer circular seu trabalho. Atualmente, o movimento cartonero tem me interessado bastante pela autonomia que possibilita e pelo trabalho colaborativo em rede que pressupõe. Nesse sentido, supera em muito a experiência de uma publicação tradicional. Uma coisa que cada vez mais tenho colocado em questão é o modelo tradicional de distribuição, que a meu ver está fadado à extinção em alguns anos. Mas isso daria uma longa conversa.


DCP – Como você analisa as políticas do Estado em relação à produção de literatura na atualidade?

WM - É um pouco complicado falar de minha posição, pois seria advogar em causa própria, já que ocupo a pasta do setor na Secretaria de Cultura. De qualquer forma, creio que avançamos muito nos últimos anos, isso é perceptível. Foram criados dois eventos internacionais de literatura (Clisertão – Congresso Internacional do Livro, Leitura e Literatura no Sertão e FIP – Festival Internacional de Poesia do Recife), um prêmio literário estadual, um espaço exclusivo para literatura no FIG (a Praça da Palavra) além de um aumento significativo dos investimentos para o setor. Ampliou-se o diálogo com a sociedade e o processo de cogestão, além do trabalho constante para a construção de políticas públicas sólidas para a literatura. Mas ainda há muito o que ser feito.


DCP – Com o romance: Estrangeiro no Labirinto, você foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom no ano 2014. Com o livro de poemas: O Caçador de Mariposas, você exerce uma poética de rara beleza formal e estética, provando ter alcançado um amadurecimento como poeta. O fiel da balança penderá para que lado, prosa ou poesia?

WM - Os gêneros servem ao autor e não o contrário. Escolho o gênero em função do que quero dizer e não a partir de uma preferência pessoal. Talvez um dia queira dizer algo através de um texto dramático, então escreverei uma peça ou um roteiro para cinema, o que seja. Então isso de ficção ou poesia não me interessa muito. Aliás, creio que a poesia é muito mais uma essência, algo que permeia toda a produção artística, do que um gênero. Se escrevo um texto em ficção, a poesia deve estar lá.


DCP – A cidade do Recife foi palco para grandes poetas e de muitos movimentos literários, como você ver hoje o movimento poético em nossa cidade?

WM - Recife sempre teve uma grande efervescência cultural na literatura e uma tendência na criação de grupos e coletivos de poetas. Isso, de alguma forma, se preserva. Mas acho que há menos espírito coletivo de construção de um “movimento” e mais uma profusão de grupos com seus interesses e projetos próprios, o que não é necessariamente um problema. No final, o que interessa para a produção literária é o trabalho solitário diante do papel mais do que a algaravia.


DCP – Livro impresso ou e-books, como você vê o mercado editorial a partir da revolução digital?

WM - Não há por que escolher um dos dois. Os hábitos de leitura estão mudando e é prematuro dizer quanto as novas gerações assimilarão as novas tecnologias. Mas acho que os e-readers ainda conviverão muito tempo com o formato de papel, principalmente para a leitura de fruição. No caso da leitura técnica, acho que a migração será mais natural, mas creio que a leitura do texto literário, que envolve aspectos sensoriais com mais intensidade, essa deve migrar de forma mais lenta e gradual, na medida em que as novas gerações assimilem as novas tecnologias, como aconteceu com o CD e depois com o iPod e similares. 


DCP – Qual a importância dos blogs literários para a literatura na atualidade?

WM - Os blogs e portais literários desempenham um papel importante na legitimação da obra literária e ocupam um espaço cada vez menos ocupado pela mídia tradicional, a despeito dos excelentes – mas poucos – suplementos literários do país. A tendência, a meu ver, é que aumente a quantidade de blogs, mas que sejam cada vez mais segmentados. Há blogs especializados em best sellers internacionais, outros voltados para literatura infanto juvenil, outros focados para a produção local etc. Cada um deles vai conquistando seu espaço e seus leitores paulatinamente. Mas acho que é um nicho cuja sustentabilidade é muito difícil fora do trabalho militante ou dos editais públicos, o que é uma pena. Espero que se possa encontrar novos modelos de negócio que viabilizem essas iniciativas para além das verbas públicas. Esse é um desafio que pertence aos leitores e aos escritores, igualmente.



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