domingo, 24 de maio de 2015


CONTO DO DOMINGO

Concede-me o prazer desta dança? (conto) de Frederico Spencer


Geraldo Regaço, nome artístico que usava para brilhar nas noites, fosse nos shows que fazia ou pelos bares que frequentava, trabalhava feito louco na busca frenética para firmar seu nome no mercado. Ele era cantor de uma banda de música brega - sofrência nos dias atuais - tipo de música escolhida a dedo para atender aos apelos do mercado fonográfico. Vivia intensamente as noites do Recife. Já era conhecido praticamente em todos os bairros que visitava. Passava as noites em claro trabalhando exaustivamente, noites essas regadas a muitas doses de rum com Coca-Cola e também, claro, porque ninguém é de ferro, nos braços angustiados de algumas fãs carentes, quais suas canções, que nessas horas, eram cantadas ao pé do ouvido.

Darlene Costa, mais conhecida por Dadá, era uma mulher compenetrada, visto que, havia concluído um curso superior sem perder nenhuma cadeira e, na colação de grau foi homenageada como uma das alunas mais brilhantes. Procurou, assim que se formou, um concurso público para garantir a sua estabilidade na vida. No primeiro que fez - pimba! Calma, não é isso que estão pensando - passou em primeiro lugar, foi uma festa para sua família. Família esta que mesmo sendo muito religiosa, gostava de uma festinha regada a muita cerveja. Já contando com o salário que ia receber da repartição pública e, para complementar a festa que havia começado em casa, foram à Praça do Arsenal de Guerra. Lá estava ocorrendo um festival de seresta. Pronto, este seria um grande final de noite, sacramentando as comemorações do futuro provimento do cargo.

Chegando antes de começar o espetáculo, a família se apossou de três mesas se aprontando para deliciar-se daquela noite onde haveria a apresentação de vários nomes, uns consagrados, outros não. O que mais importava no momento era que muitos desses cantores cantariam sucessos antigos - para alguns recordarem de um tempo que não volta mais. O romantismo estava solto, no ar sentia-se o perfume, além daqueles que as damas traziam embotados na pele. A noite ia bombar!

Enfim música e noite se unem e embalam os corações, uns dançantes, outros prostrados na cadeira, extasiados que estavam numa hipnose coletiva. De repente uma voz quase nova toma conta dos quatro cantos da praça, atraindo ainda mais a atenção de - como já é uma conhecida nossa, podemos chamá-la de Dadá. Era ele o mais novo sucesso da cidade, ao menos nas rádios comunitárias, Geraldo Regaço foi impactante. Aí foi pimba mesmo! Amou e terminou casando-se com ele.

Nos primeiros anos do casamento até que Dadá entendia o porquê da ausência noturna de Geraldo, mas, uma equação que com o passar do tempo ia ficando cada dia mais difícil de resolver, batia na sua mente privilegiada: enfim, quando os dois teriam realmente uma noite para curtir aquele encontro ainda vivo em suas carnes, que vibravam só de lembrar?

Depois daquele show trabalhado com muito afinco, por Normando Beira Nova, empresário da banda, as noites de Geraldo se encheram de trabalho e de distância de Dadá. Acometida por uma insônia que a maltratava - suada e inquieta na cama - rezava para os dias amanhecerem.

Um problemão que ela ainda enfrentava, era quando chegava em casa após o expediente, encontrava sua cama numa bagunça só - Geraldo com certeza, dormira mal também o dia, ficara se mexendo de um lado para o outro, procurando o regaço do corpinho de sua esposa, imaginava ela.

Irritada com esta situação, Darlene ou Dadá para os mais achegados, resolve queimar o expediente da tarde. Aproveita a manhã para deixar todo o trabalho pronto e sair o mais rápido possível da repartição. Correu tanto que antes da hora do almoço já estava com o pé na rua, a caminho de casa, sonhando com aquele encontro. Ao chegar ouviu vozes que vinham do quarto, apressou-se e, sobressaltada invadiu o recinto. Lá estavam Geraldo e Normando, deitados seminus, conversando alegremente.  A fumaça do cigarro e o cheiro de bebida incensavam o ambiente.

Darlene nunca desconfiou das vezes que, ao chegar em casa, levando o jantar para ela e Normando, já o encontrava na porta. Por muitas noites só conversavam, enquanto a música mais nova de Geraldo rolava na praça.



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima