domingo, 19 de abril de 2015


ENTREVISTA COM A ESCRITORA TACIANA VALENÇA*

*Entrevista concedida a Frederico Spencer, editor do DCP


“Acho que os blogs têm uma grande importância no cenário literário. Claro que, como tudo na internet, existem aqueles irresponsáveis, que não tem os cuidados com as informações e, além disso, detonam a nossa língua, sem maiores preocupações, desrespeitando o público leitor”.


 Taciana Valença
Foto: reprodução


Taciana Valença concede entrevista ao DCP e fala sobre sua produção, a produção literária feminina, as políticas públicas de literatura, no âmbito do estado, a sua atuação como editora, entre outros assuntos.  

Taciana Valença é poeta, editora da Revista Perto de Casa e também edita o blog Ensaiando Poesias.



DCP – Esposa, mãe, blogueira, produtora cultural, editora de uma revista e atleta de natação, onde a poesia entra na sua vida?

TV - A poesia para mim sempre foi um refúgio, um esconderijo, uma válvula de escape. Comecei a escrever poesias aos 11 anos. Não fui uma criança falastrona, nem exagerada. Era tímida e discreta (aliás, detesto exageros e pessoas que gostam de chamar a atenção). Na época, afogava todos os sentimentos na natação e nas poesias, escritas em cadernos diversos (coisas que faço até hoje).


DCP – Segundo Gilberto Freyre, Recife é uma cidade masculina, como você vê a produção literária feminina na cidade?

TV - Sim, sempre “O Recife” dos arrecifes, dos poetas do Savoy, cujas reuniões viajaria no tempo apenas para poder presenciar. Já escrevi uma crônica sobre isso e vez por outra afirmo, sou um poeta reencarnado em mulher, uma das cujas quem tanto proferi. Devo ter sido um daqueles boêmios que ficava em mesas de bar, rabiscando poesias e procurando respostas no fundo dos copos. Mas existem as ilhas, lindas e femininas que se banham nas águas mornas e se gabam da imensidão do mar e rios a lamberem seus pés. São elas, as três partes femininas do macho Recife, que para mim não tem sexo, excluindo-se a regra do artigo pela formação da palavra, como a boa literatura também não o tem. A produção literária feminina avança, conforme avançam todas as conquistas da mulher. Pela primeira vez uma mulher está no comando da Academia Pernambucana de Letras, a escritora e antropóloga Fátima Quintas. São avanços significativos para uma sociedade, ainda, predominantemente machista. Tenho feito trabalhos incríveis com escritoras e poetisas da cidade. Jogamo-nos de corpo e alma. Esse sentir nos invade de forma diferente e não são todas que se deixam levar. Mas sei, as que se jogam, carregam outras e outras, saltando dessas ilhas cheias de segredos, sentimentos e magias. A literatura é contagiante.


DCP – Onde sua poética se misturam a paixão pelo mar e a praia de Piedade?

TV - Passei minha infância e adolescência convivendo com o mar. Primeiro em Boa Viagem, depois em Piedade, onde só saí quando casei. A praia de Piedade era praticamente minha casa, portanto, minha comunhão com o mar é algo que nem mesmo consigo explicar, daí também a paixão pela natação.  Aliás, sinto-me à vontade com a água, que para mim é sinônimo de vida. E o mar é tudo isso junto, vida, imensidão e mistério. Minhas primeiras poesias foram feitas em Piedade e todos os sentimentos são assim, jogados a ele, como oferendas. Tudo cabe nele: amor, desilusão, angústias, alegrias e tristezas. Lembro que numa época da minha vida me vi muito triste e corri para chorar na beira do mar, como se naquele momento apenas ele me entendesse. É estranho, é um pouco “viajante”, mas é assim que sinto. Poesia, mar e Piedade, o princípio de tudo.


DCP – Nos versos: “Quem sabe encontraria a ampulheta/E deste feito saberia então/Quantos grãos de areia restam/Para que te conheça nesse nosso tempo”. Há uma desventura no ato de amar?

TV - De certa forma sim. Amar é uma felicidade que dói. Dói quando não sabemos por onde ir, exatamente, para tocar a quem amamos, nem o que fazer para ajudá-lo. E ajudando, ajudarmos a nós mesmos. Não é assim?  E o tempo para mim é essa agonia, esse vão onde estamos e onde devemos resolver tudo o que nos cabe, antes que termine, pois nosso tempo aqui é muito curto. Indubitavelmente teremos que levar tarefas não cumpridas para outras dimensões, mas, nesse caso, prefiro não contar muito como o desconhecido. Talvez isso me deixe um pouco ansiosa.  A ampulheta representa essa angústia.


DCP – Qual a sua opinião sobre as políticas públicas na área de literatura no Estado de Pernambuco?

TV - Ainda estamos muito longe de uma política pública adequada no que diz respeito à literatura. A sensação é de que as coisas andam um pouco soltas. O acesso é para os privilegiados, que podem comprar os livros que desejam e desfrutar de ambientes agradáveis para tal. As bibliotecas públicas tem muitas carências e a impressão que dá é que tudo fica pelo caminho. Para execução de projetos ao público, contamos com o Funcultura, uma opção onde o Estado dispõe de verbas para execução de sites, livros e revistas, porém, que, ao longo dos anos, tem tido falhas diversas, como os atrasos na divulgação dos resultados. Alguns escritores que conheço já desistiram de colocar seus projetos por dizerem que nunca são aprovados.  Bem, mas neste ponto devo considerar os critérios de corte, que são vários e sobre os quais não tenho maiores conhecimentos. É sim, um bom incentivo do Estado, mas ele está pagando para esses eventos culturais (todos eles, em áreas diversas).  Acho que o Estado deveria tomar para si algumas grandes responsabilidades, como as bibliotecas públicas e investimentos na cultura de um modo geral.


DCP – Como fazer uma revista trimestral, resistência ou estratégia?

TV - Ambos. Começar uma revista com um esboço e esperar pacientemente, visita após visita, edição após edição, que as pessoas acreditem e confiem em seu trabalho é algo que exige muita paciência e determinação. Em maio a Perto de Casa completa sete anos de circulação e posso afirmar que, mesmo sendo administradora por formação, a paixão vence a estratégia. Não é fácil manter a revista. O custo é alto e o trabalho é de formiguinha. Mas hoje, creio que carrega nossa cultura, desbravando artes, artistas, literatura, turismo local e tantos outros assuntos voltados para o público que conquistou ao longo dos anos. Tendo como parceira a própria Prefeitura do Recife, de certa forma, mostra que andei caminhando certinho, dentro do meu propósito.


DCP – Qual a sua opinião sobre o papel dos blogs no atual cenário literário?

TV - Acho que os blogs tem uma grande importância no cenário literário. Claro que, como tudo na internet, existem aqueles irresponsáveis, que não tem os cuidados com as informações e, além disso, detonam a nossa língua, sem maiores preocupações, desrespeitando o  público leitor. Mas isso, creio que os internautas já estão aprendendo a reconhecer. O leitor sério, claro, que deseja uma ferramenta segura de informações. Portanto, blogs como o Domingo com Poesia, que sabemos por quem são feitos e o nível de responsabilidade, só tem a acrescentar aos admiradores literatura.


DCP – Como você vê o crescimento da produção dos e-books no mundo, uma ameaça aos livros impressos ou mais uma forma de incentivo à leitura?


TV - Sem sombra de dúvida, apenas mais uma ferramenta de leitura. Não acho que seja ameaça aos livros. Eu sou uma daquelas que gosta de pegar no livro, deixar o marcador, sentir o cheiro, ir, voltar, riscar, enfim, acho que nada substitui esse contato. Porém, evoluímos e poder contar com e-books quando estamos viajando, parados num aeroporto, entre outras situações é magnífico. Quando surgiu o rádio, o jornal estava ameaçado, depois a TV ameaçaria o rádio e por aí vai. Estão todos aí e usufruímos de todos eles de acordo com nossas necessidades e situações do dia a dia. Já me disseram que o futuro da minha revista é ser virtual. Ela já é, também, virtual, está no site. Porém, sei que tenho leitores que, como eu, gostam de pegar, de guardar, de ter certas informações à mão. Os e-books vieram para ficar, mas não os vejo como ameaça.



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima