domingo, 22 de março de 2015


POEMAS DO DOMINGO

Poemas de Frederico Spencer, Natanael Lima Jr., Ramos Sobrinho, Júlia Lemos e Taciana Valença



Cantiga do Capibaribe
Frederico Spencer

Sonhou-se um dia:
sobre tua pele, n(aves) deslizariam
e ao trabalho te darias:
carne para os pobres - lazer
para os ricos flamejantes - espigões
em tua periferia brotariam
e em cada janela corpos nus cantariam:
 - muitos homens como chão, te sonharam.
Outros, qual amantes
resgatariam sonhos de feudos
e se transbordariam do efêmero líquido
e durante a noite, no teu canto
úmido, acalentaria a sede das sedes
como panos mornos
sobre a cidade ofegante.
Hoje à pátina, nesta tela:
a libido proibida, contraído sexo
para não morrer, recusa
a escusa do limbo escaldo dos engenhos
que movem os homens da cana-de-açúcar:
em teus pulmões de espuma
a viagem intransitável em teu ser.



Assim, amanheço em ti, Recife
Natanael Lima Jr.

Desperta Recife
nas manhãs das pontes, rio
sossega a agitação da Aurora.
Assim te vejo mais bela, Recife
dos meus sonhos.

Tuas praças, sonâmbulas, vazias
amanhecem.
E a Boa Vista,
além do Atlântico, os rios
nunca secam.

Assim, amanheço em ti, Recife.



Poetas no Recife*
Ramos Sobrinho

O poeta atravessa
a ponte
qual um cão atravessa
a fome,
farejando as pedras,

inventa babilônias
com ruas de poemas
e jardins suspensos

contra a tísica das horas.

E ninguém vê.

*Poema transcrito da antologia POESIA VIVA DO RECIFE, organizada por Juareiz Correya



Madrugada no Recife
Júlia lemos

Deus abençoe os homens e mulheres
notívagos desta cidade.
Deus abençoe
o povo dessa terra
de lodosas margens.

De caçoá nas mãos
seguem os catadores de caranguejos,
que  como esferas luminosas vão marchando
na horizontal e têm em abundância
na praia do Manguezal.

Deus nos livre
dos homens entrincheirados,
arma branca, arma negra,
escondidos entre as fendas
feito escorpiões.

Notívaga, eu a tudo assisto,
suplicando por todos:                                  
homens justos e injustos.



Vazio
Taciana Valença


E nesse vazio
Apenas o silêncio do nada
Caminho escuro
Nenhum movimento na estrada,
Curvas sem sinalizações
Sem destino, nem porteiras
Caveiras pelo chão,
De gente que já foi um dia
Enquanto outros contam os passos
E se apressam, até que esquecem aonde vão
E os passos de repente seguem lentos,
Tristes, no breu d’uma vida em vão,
Lá em cima, constelações no negro universo
Piscando num insulto,
Um lembrete do que somos,
E donde estamos, soltos no infinito,
E no mais, esse nadismo...
Um nadar constante nesse mar de estrelas
E morre-se a cada dia,
Vivendo talvez a cada morte,
Quem sabe o nada precise de mim,
Desse abalo sísmico de interrogações
Que mexe com meu mundo
E tira tudo do lugar,
E vai, sem querer voltar
Perde-se nas braçadas em vão,
Nas borras do coração
Que jamais serão recompostas
Nesse mundo sem respostas
No rosto afundado no travesseiro,
Na entrada não havia letreiro,
Nem mesmo o quê de excursão,
Ninguém a ciceronear esse mundo
Que ninguém sabe onde vai dar.



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima