domingo, 8 de março de 2015


CONTO DA SEMANA

Um mundo, de Anderson Paes Barreto*



O mundo está carente. O mundo pediu ao Papa que o abençoasse e colocasse sua santa mão sobre a sua cabeça. O mundo é como um dragão de sete cabeças. Todas carentes. O mundo foi à praia tomar sol para sentir o ardor da pele queimada e confirmar que tem o corpo vivo. O mundo tirou a camisa e foi andar no calçadão para ter a certeza de que era visto. O mundo quer ser visto. O mundo mudou desde que acessou pela primeira vez a internet. O mundo comprou bilhões de aparelhos “inteligentes” para sentir-se mais in, por mais que out. O mundo está por fora. O mundo tirou uma foto de si mesmo e publicou em sua página oficial de ilustre desconhecido. Precisa afirmar-se. O mundo mudou de nome porque quis ser original. O mundo ficou ridículo com o cabelo pintado e a roupa da tendência. O mundo quis conhecer o outro lado do mundo. Quando encontrou um espelho, o mundo quis gritar e ficou mudo. O mundo quase também ficou cego e surdo. Procurou canções novas para ouvir, mas não tinha bom gosto, acostumado a escutar músicas de ônibus. O mundo comprou um carro e parcelou em 365 meses e 12 dias. O mundo quis apaixonar-se, mas não sabia dar-se de corpo e alma. O mundo é desalmado. O mundo achou bem feito o assassino ser assassinado pela polícia. O mundo é descarado. Meteu a cara onde não foi chamado e levou um fora da paquera. O mundo já era. A era de ouro do mundo ou já passou ou nunca existiu. O mundo não existe. O mundo foi ao cinema para ter a certeza de que a sua vida não era ficção. O mundo não tinha carteira de estudante e nunca gostou de estudar porque tem preguiça de ler. O mundo é medíocre. O mundo passou a vida inteira em subempregos que apenas pagavam o aluguel. O mundo não tem nada além de si mesmo. O mundo quis mudar de vida, mas não soube como e pensou em jogar-se do prédio mais alto. O mundo é inútil. O mundo desistiu de desistir e recomeçou a vida vendendo flores na feira. O mundo teve esperança em si mesmo ao ver os ramos crescerem. O mundo é confuso. Casou-se com uma jardineira e teve oito filhos cujos nomes começam todos com a letra M.


*Anderson Paes Barreto é contista, jornalista e membro da Academia de Letras de Jaboatão dos Guararapes



Um comentário:

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima