domingo, 22 de fevereiro de 2015


CONTO DO DOMINGO

Libélula tatuada (conto) Paulo Caldas


Paulo Caldas
Foto: Divulgação

Pareciam o sol no limo, umas bolhinhas bestas grudadas no buço, quando não, equilibradas na ponta gordinha do nariz. Lábios grossos, só os de baixo, os de cima nem tanto, são mais uma linha sinuosa riscada entre as barrocas, traço sutil, ainda mais quando o riso movimenta a face rosada de manga madura, expondo jeito inocente quando nasce, mas sedutor quando se completa.

Volátil, me escapou entre os dedos incrédulos, inseguros, inábeis, inibidos.
Hoje amanheci você. Vejo-a como fora. Gentil parceiro, mais que isso, o tempo lhe ama também. Porém, com mais sorte, está em você. E eu? Eu só na espreita da esperança, olhos vazios de sua imagem que apenas me farta quando vinda ao colo das lembranças.

Se ele lhe é fiel, penso que a escolheu para si, musa ou amante, quem sabe as duas coisas, é tirano comigo, me jogando as más querências, pragas da maldade que sempre faz valer.

Contudo esquece ele que a saudade socorre minhas penas. Com ela em mim revejo aqueles olhos meio tristes, nem castanhos nem verdes, nem azuis, um matiz exclusivo, concebido pra você. Toco os cabelos lisos, escorridos quando soltos, escondendo a libélula tatuada que habita no seu ombro.



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima