domingo, 2 de novembro de 2014


O CONTO DA SEMANA

Águas salgadas (conto) de Paulo Caldas

Img: reprodução


O caixão com o corpo de José Salgado a correnteza levou. Impiedosas, as águas tragaram o barraco, resultado de tantas horas de labuta e economia forçada. Na enchente se afogaram a pequena Michelliny Rayanny, os três mais novos e Sandra, a segunda mulher, que o atormentava com as discussões que o mataram. Infarto fulminante, conforme o médico do SAMU.

Não resistira às provocações, levado ao extremo implodira a revolta íntima, fora insultado em sua masculinidade, ouvira as verdades que não admitia. Ela, voz estridente, alta, o ar de rebeldia fincado no sorriso debochado, boca torta, beiço dobrado, nariz pra cima, olhar de desprezo. E a insolente pose: mãos nos quadris e um pé tocando o chão, dando compasso às palavras.

Em cada frase uma facada na suposta virilidade do marido. Sem falar dos atributos físicos dos atores da novela, habitualmente comparados com os dele. Enfurecido, desesperado pelo ciúme, sentiu explodir as coronárias entupidas pela gordura do pirão com osso buco, cardápio permanente no almoço dos sábados.



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima