domingo, 9 de novembro de 2014


A BELA E INCENDIÁRIA POESIA DE ARNALDO TOBIAS

Arnaldo Tobias fez parte
da Geração 65

Se estivesse vivo o poeta Arnaldo Tobias estaria completando 75 anos. Poeta, ficcionista, contista, editor, artista gráfico, nasceu em Bonito, cidade do agreste pernambucano, em 15 de novembro de 1939. 

Foi integrante da Geração 65 e atuou ativamente na cena literária do Recife, onde faleceu em 2002. Seu primeiro livro Pomar (1979), Edições Pirata, reúne uma série de dez poemas escritos sobre frutas com uma ampla gama de significados, com ilustrações de vários artistas da sua geração. O segundo, Passaporte, em 1981, também pelas Edições Pirata, agrupa poemas escritos entre 1964 e 1982. Nos dois livros é evidente a aproximação do poeta com os movimentos de vanguarda instaurados no país, sobretudo o movimento Concretista e o da poesia Praxis. Aproximação menos acentuada no caso da poesia Processo. Tobias, no entanto, não segue, nem nunca seguiu à risca os mandamentos de nenhuma dessas vanguardas.

Arnaldo Tobias também publicou os livros: Nu relato (1983), Tenda proibida (1987), O ditador e outros contos (1991), O gavião e a coruja (1993), O ratinho órfão (1994), Quem sou eu? (1995). Editou, de 1981 a 1995, o alternativo poético Pró-Texto. Publicou, na imprensa pernambucana, vários poemas com características do “Poema Processo”, alguns deles reunidos no livro póstumo Singular e plural (2003).

Segundo o poeta Alberto da Cunha Melo, "Arnaldo Tobias é bem um poeta de seu tempo: um homem cercado de autoexpectativas, procurando atender um compromisso por ele mesmo formulado com o mundo. (...) Quer ser apenas, como diria Cassiano Ricardo, "um homem que trabalha o poema com o suor do seu rosto, um homem que tem fome como qualquer outro homem".

Os editores



Dois poemas de Arnaldo Tobias


BREVE BIOGRAFIA (IM)PESSOAL
PARA CADASTRO NO INQUÉRITO

eu fui o perfil
de fuzis e baionetas
para cumprir campos
e trincheiras
e não cumpri

eu fui o sentinela
feito de muralha
para impedir flâmulas
e bandeiras
e não impedi

eu fui o soldado
de atalhos e travessias
para entender de rumos
e fronteiras
e não entendi

eu: estatura mediana
(um metro e sessenta e sete
de altura e solidão
peso avaliado
em balanças de agonias
identidade: 352.526
cor: pardo
como todos os gatos à noite
tipo sanguíneo: "A" Positivo
profissão: poeta e boêmio
olhos: de sol e penumbra
cabelos: de neblina e luares
sinais particulares:
um poema tatuato na língua)

que quis ser nas fileiras
o soldado inicial
para morrer por Luísa
a guerrilheira

e não morri



SEM TÍTULO*

Pelo que bem pareça
uma palafita
não é uma embarcação
segura
é uma canoa furada
(encalhada)
de porco na lama
não é uma arca
feito a de Noé
muito embora
embarque
a bordo (pro/lixo)
pessoas como bichos

em suma:
uma palafita
é o esqueleto
e o féretro
do seu arquiteto.


*In Singular & Plural, 2003, p. 120



2 comentários:

  1. Justa homenagem ao poeta singular e plural sem mais ou menos, apenas perfeito com suas imperfeições.

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima