domingo, 26 de outubro de 2014


O CONTO DA SEMANA

Céu (conto) de Raimundo de Moraes

Img: reprodução

  
Com oito anos uma criança sabe que nada é para sempre. Mamãe e papai avisaram e nas festinhas as bolas de encher estouram quando menos se espera. Não existem pirulitos eternos, mas seria tão bom se existissem. As férias terminam e a gente fica querendo mais. E os hamsters? Por que vivem tão pouco?

Entrou na cozinha correndo. Mamãe, a gente pode amar uma pessoa para sempre? A mãe, filha de divorciados, tinha lá suas certezas. Às vezes sim, às vezes não. O amor acaba e as pessoas se separam. Se não é para sempre não é amor? Parou um momento, olhando para a água da torneira sobre o prato ensaboado. As pessoas mudam, filha. Os sentimentos também, sabe? Um dia você vai entender melhor. Quando eu amar? É, quando amar. Saiu pensativa.

Deitou-se na grama do jardim. Nuvens passavam, brisa nas acácias floridas. O amor também acaba, mamãe disse. Tirou do vestido um papelzinho dobrado em quatro. Letícia, vou te amar pra sempre. Dudu. Pra sempre? Suspirou. Queria juntar as nuvens, formar palavras, formar uma interrogação. Depois com as pontas dos dedos desenhar o rosto de Dudu.


*Transcrito de Mosaico (2013)



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