domingo, 26 de outubro de 2014


NO MEIO DO CAMINHO TINHA DRUMMOND

Drummond também escreveu contos e crônicas
mas se eternizou como poeta



Neste sexta (31) celebramos o nascimento do autor da pedra mais famosa da poesia brasileira, considerado um dos maiores poetas de todos os tempos.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, em Itabira (Minas Gerais). Cursou suas primeiras fases escolares em sua cidade natal. Seguindo seus estudos optou por formar-se em Farmácia, na capital mineira. Em 1928 começou sua carreira atuando como funcionário público, tornando-se chefe do gabinete do Ministério da Educação e, posteriormente, como codiretor do Jornal Tribuna Popular.

Notadamente, sua carreira literária ganhou força de expressão a partir dos anos 50, mais precisamente em 1962, quando se aposentou. Após uma vasta e significativa produção, veio a falecer em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro.

Drummond foi um poeta completo não por atingir a completude da poesia, mas a plenitude da humanidade. Sua produção poética teve muitas fases e muitas faces. Cada uma delas é composta por obras que nos permitem acompanhar a evolução de seus temas e sua visão de mundo.

Affonso Romano de Sant’Anna costuma estabelecer a poesia de Carlos Drummond a partir da dialética "eu x mundo", desdobrando-se em três atitudes: Eu maior que o mundo — marcada pela poesia irônica; Eu menor que o mundo — marcada pela poesia social; Eu igual ao mundo — abrange a poesia metafísica.

A obra de Drummond é vasta: são mais de 60 livros, entre poesia, conto e crônica. Assim como Machado de Assis, que é conhecido principalmente por seus romances, Drummond é famoso por suas poesias. Destacamos aqui, sete livros essenciais para você mergulhar no universo poético de Carlos Drummond de Andrade: “Alguma poesia” (1930), “Sentimento do mundo” (1940), “A rosa do povo” (1945), “Claro enigma” (1951), “Antologia poética” (1962), “José e outros” (1967) e “Corpo” (1984).

Alfredo Bosi (1994) afirma que “a obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas”.

Drummond, reafirma seu compromisso com a realidade objetiva, ao mesmo tempo que nos chama a atenção para um traço fundamental de sua consciência estética: o de que não se deve desprezar o sentido imanente das palavras.

Os editores


Três poemas de Carlos Drummond de Andrade

Drummond é considerado o poeta mais
influente do Século XX

  
No meio do caminho*

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra 

*In Revista de Antropofagia, 1928/Incluido Alguma poesia (1930)



Poema de sete faces*

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo. 

*In Alguma poesia (1930)


Quadrilha*

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém. 

João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. 


*In Alguma poesia (1930)



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