domingo, 5 de outubro de 2014


GERAÇÃO 65 ― RELICÁRIO DE LEMBRANÇAS

por José Luiz Mélo*


““Geração 65” refere-se aos autores e suas obras, surgidos antes e depois daquele ano, que no dizer de César Leal, poeta e crítico literário, foi um marco irreversível na história da cultura brasileira”.
  

Foto: 1963/Jaboatão – PE/Redatores do Jornal Dia Virá. Acima, da esquerda para a direita: Raul Gadelha, José Luiz Mélo, Severino Bernardino. Abaixo: Jackson Vieira, Alberto da Cunha Melo e Edivar Bernardino (Arquivo e foto cedidos por José Luiz Mélo).



Sou um sobrevivente. Próximo ano, desde sua natividade, a “Geração 65” completa os 50 anos. Considerando-se que a vida média dos homens brasileiros se estende aos 71 anos, eu, quem para o ano inteiro os 75 me considero um sobrevivente. E dou vivas por isto, pelo que pude testemunhar dos momentos de transbordamento que viveu nossa Província, se alongou pelo País e se não deu voltas ao mundo que é muito largo para isto, muitas jornadas fez pelo mundo afora, que não sou de prosa nem de contar histórias.

Próximo ano certamente se comemorará estas bodas. Sugiro para isto a mesma data da celebração dos 30 anos, assim teremos completa a data do natalício com dia mês e ano para os pósteros a celebrarem no futuro.

Dia 26 de setembro passado, o Instituto Histórico do Jaboatão, pelo seu Presidente Ivaldo Montarroios e equipe, realizou um workshop sobre a “Geração 65”, que contou com minha participação, do escritor Raimundo Carrero e da ensaísta Cláudia Cordeiro. Trago agora uma síntese de minha apresentação.

“Geração 65” refere-se aos autores e suas obras, surgidos antes e depois daquele ano, que no dizer de César Leal, poeta e crítico literário, foi um marco irreversível na história da cultura brasileira. O poeta e ensaísta Ângelo Monteiro, ainda, de uma maneira muito feliz, anota que a característica desta geração vem ser antes a diversidade de pressupostos estéticos do que a homogeneidade de princípios que costumam diferenciar uma geração de outra.

Um fato que favoreceu o surgimento da chamada “Geração 65” foi o espaço oferecido pelos suplementos literários do Diário de Pernambuco dirigido pelo Professor César Leal, e o do Jornal do Comércio pelo poeta pernambucano de Pesqueira Audálio Alves, os quais se não cansavam de promover novos valores, abrindo-lhes às páginas para que publicassem seus trabalhos.

Muitas vezes me perguntei que motivos levaram o Professor Tadeu Rocha definir 1965 como o ano símbolo desta Geração. Ele usou pela vez primeira a denominação “Geração de 65”, creio, na quarta edição do seu livro “Roteiros do Recife: Olinda e Guararapes” publicado em 1970, por conseguinte, cinco anos depois do ano de 1965 com o qual ele denomina a Geração. O Professor Tadeu lavrou o atestado de nascimento da Geração com as seguintes palavras: “A mais nova geração literária da metrópole do Nordeste – a geração de 65 –.”, que depois passou a se chamar de “Geração 65” modo como ficou conhecida e divulgada desde então.
        
Ora, foi em 23/01/ de 1966, ano seguinte ao de 1965, que se deu a 1ª. Publicação de poemas de Jaci Bezerra, no DP, os Sonetos da Procura, logo depois, no mesmo DP, foram publicados poemas de Alberto Cunha Mélo, um e outro ícones desta Geração. Ainda, em 1966, a Revista “Estudos Universitários”, também dirigida pelo Professor César Leal iniciou a publicação em separata dos novos autores. Naquele ano, publicou o “Círculo Cósmico” de Alberto Cunha Mélo. Ano seguinte o livro “Romances” do Jaci Bezerra; em 1968 o “Cancioneiro” de Marcus Accioly e em 1969 a “Oração pelo Poema” do Alberto Cunha Mélo.

Vê-se, portanto que todas estas publicações foram feitas após o ano de 1965, estabelecido pelo Professor Tadeu Rocha como marco da Geração.

Então, me pergunto, porque o Professor Tadeu Rocha chamou de 65 a nova Geração, quando assim a denominou pela 1ª vez?

Talvez, como um ponto de convergência dos autores que vinham de antes e dos que se seguiram depois, preferiu a escolha de um quinquênio, metade de uma década, para alongar a perspectiva da existência daquela Geração, ou ainda, para fazer contraponto a Geração Pós Modernista de 1945, vinte anos antes, dois números redondos para demarcar as gerações.

O ano de 1965 foi o ano anterior à minha formatura e casamento. Os afazeres dos últimos anos do curso médico nos afastavam do convívio diário. No entanto, apesar de com menor frequência, minha convivência com a Geração se estendeu por mais alguns anos, seja nas livrarias e bares do Recife, ou em minha casa, em Jardim São Paulo, bairro em que moravam Jaci Bezerra e sua musa, Rosa Matilde, aluna como ele do Colégio Rodolfo Aureliano em Jaboatão.

Lembro, naquelas tardes em Jardim São Paulo, do Jaci, Alberto, Domingos Alexandre, Almir Castro, Targino, do nosso entusiasmo quando ouvíamos um e outro recitar seus poemas.
                    
Passo agora para outro fato que me chama a atenção sobre a “Geração 65”.

Em relatos se lê que a mesma iniciou com o então chamado “Grupo de Jaboatão”. Este, constituído de alguns jovens poetas daquela cidade metropolitana, entre os quais me incluo e Alberto Cunha Melo, morávamos em Jaboatão Sede, enquanto  Jaci Bezerra e Domingos Alexandre moravam no distrito de Cavaleiro.

Fomos despertos para o encantamento do verso nas longas conversas ao largo da extensa mesa da sala onde morava o Professor Benedito, pai do Alberto, na Rua Barão de Lucena, onde hoje me parece funciona uma Loja Laser, nas noites mal iluminadas da cidade que o amigo comum, o alagoano de Murici Jaci Bezerra imortalizou num soneto de 1966 que não posso deixar de transcrever.


SONETO TODO AZUL EM JABOATÃO

Abro meu guarda-chuva na Avenida
Rio Branco. Não chove, quero apenas,
Passar devagarinho pela vida
Com minha roupa azul, sem causar pena.

A minha poesia indefinida
Ficará só. Não ofendi ninguém.
Nela deixo Minh ‘alma repartida
Com os amigos que me querem bem.

Gediael, Alberto, Zé Luiz!
Não esqueçam seu velho camarada
Quando a Noite vier, eu não a quis!

Mas não precisam ficar tristes, não.
Hei de vir acender a madrugada
Nas ruazinhas de Jaboatão.


Este belíssimo poema o coloquei no preâmbulo do meu livro, “Proibições e Impedimentos” publicado pelas Edições Piratas” em 1981.

Volto, após esta digressão, a falar sobre o chamado Grupo de Jaboatão e a Geração 65.

Divergindo do que ouço dizer eu não considero que a “Geração 65” tenha sido iniciada por nós, de Jaboatão. De nossa parte não houve intenção, ou propósito. Então, poucos anos antes de 1965 nosso mundo era o Romance, o Parnaso, os simbolistas, o soneto escrito com apuro. Nosso Jornal, o “Dia Virá”, do qual nosso amigo, Jackson Vieira, fundador do IHJ foi Presidente, onde publicávamos nossos versos, nossas crônicas, Alberto, sob o pseudônimo “Joseph de La Rue”, encantava todos em sua coluna “Coisas da Vida”. O nosso Universo era as nossas paixões, um desejo quase anárquico de contestar os valores estabelecidos, quaisquer valores, naqueles anos conflagrados de 60, e nossas musas, que nos enchiam a alma de poesia e de perfume nossos versos.

Digo que a “Geração 65” não iniciou conosco de Jaboatão, apenas estávamos lá, naquele momento e nos juntamos aos que vinham de antes, aos que chegaram depois, naquele ponto de encontro que nos reuniu a todos naquele vento que redemoinhava e espanava salpicos de luz pelos cantos, no que se chamou de “Geração 65”.

Éramos nós, então, em Jaboatão, iguais outros milhares, milhões de poetas anônimos em nossas cidades, nas capitais, nas cidadezinhas situadas nos sertões mais distantes, escrevinhando seus versos num alvoroço de almas, ansiosos pelo aplauso que esperavam no afã de ser, no dizer de Drummond, “Poeta Municipal,” para publicar seus versos no periódico mensal de sua cidade, que outro lugar não sonhavam mais alto no Olimpo da Poesia.

Quem sabe qual o destino dos jovens de Jaboatão, se os sonetos deixados no Diário de Pernambuco por Jaci Bezerra, um dos nossos, encabulado e contrito ao entrar naquele Templo onde se julgava indevido de penetrar, lá não estivesse o Poeta César Leal. É possível que os versos deixados por Jaci na redação do Diário, amarfanhados de tanto terem sido lidos e relidos, não seriam vistos, possivelmente depositados no ostracismo de uma gaveta mal fechada ou mais facilmente sepultados na cesta destinada aos entulhos dos não apadrinhados.

Nós, de Jaboatão, naquela época, apenas nos juntamos à Geração até então inominada, que vinha de antes. Mar crespo onde se não lhe divisavam as cristas interiores, mergulhamos nele, e deixamo-nos levar.

Entretanto, na condição de jaboatonense que vivi aqueles anos, devo recordar para os conterrâneos, trazer para os de fora, em rápidos traços como se com receio de me faltar tinta para a pena, lembrar lugares, pessoas, fatos que continuarão para sempre na saudade independente dos trens do tempo que passem sobre nós.

Deste modo, venho, neste espaço que me ofereceu o “Domingo com Poesia” como relicário de lembranças dos jovens que na época, 60 anos passados, nas ruas e praças de Jaboatão, em suas noites e madrugadas, experimentavam da vida o seu sabor mais vasto, e dela, da vida, faziam argamassa para sua caminhada.
 
Para não me alongar nestas divagações e enfastiar quem me lê, vou me cingir a recordar pessoas que nos influenciaram, fizeram-nos despertar para o encantamento dos versos, o encanto com as palavras.

No centro de Jaboatão, onde hoje se encontra a praça com o busto do saudoso Juiz, Dr. Luiz Regueira, tínhamos o bar que durante muitos anos dominou a vida boêmia da cidade, o chamado “Chapéu de Barreto”, de forma oval, e em torno do qual os ônibus azuis da Viação União giravam no seu entorno de volta pela Av. Barão de Lucena para o Recife.

Lá, todas as tardes, estavam os poetas da época, que nos despertavam respeito, o desejo de se encontrar entre os mesmos, dos quais nos acercávamos para ouvir-lhes os versos, em silêncio, numa veneração.

Raphael Peixoto, Josa Vilella, Dr. Vadinho Neves, Heraldo Ramos, José Gomes, o poeta vaqueiro, Alberes Cunha, entre outros frequentavam àquela mesa que Manoel, o garçom e gerente servia solicito a tarde inteira.

Então, as formas preferidas dos poetas, eram o soneto e as quadras, como trovas, das quais, “As trovas e trovoadas”, do Professor Benedito são lembradas até hoje.

Não recordo o Professor Benedito frequentando “O Chapéu do Barreto.” Passava o dia no Ministério do Exército onde trabalhava. Nas tardes, quando de volta, se dedicava a ministrar aulas de português aos alunos que o procuravam em sua casa.

De Moreno, cidade vizinha, lembro Enéas Alves, exímio sonetista, de quem guardei de lembrança um soneto na primeira vez que o li, e que também quero aqui registrar.

Deu ao soneto o título de “Mulher”, ele Enéas, com oitenta anos, encontrou a forma perfeita para descrever o ser de nossa devoção, seja mãe, filha, amante, esposa.


MULHER

Tem a rosa em seu íntimo a envolvê-la,
Qualquer coisa mirífica qualquer
Cunho divino, albor de rosicler,
Perfume d’alma, despertar de estrela.

Mas se a rosa, contudo não quiser
Ver beleza maior surpreendê-la
Claridade capaz de escurecê-la
Não se exiba em colo de mulher.

Mulher, lírio de paz, obra mais bela
Que o estrelário eternal que o céu constela
Do mundo iluminando os mil abrolhos

Quando morrer de Minh’ alma a angústia arredo,
Se uma voz de mulher rezar-me o credo
Se dois dedos de mulher fechar-me os olhos.


Nossa primeira experiência literária, adolescentes em Jaboatão na época, foi o convívio no “Grêmio Lítero Recreativo dos Estudantes do Jaboatão”. Depois, após a efêmera vida do Grêmio, passamos a nos encontrar na casa do Professor Benedito, o pai do Alberto.  Na sala da frente, a larga mesa, as conversas se estendiam noite adentro, poesia era o mote, Cruz e Souza, Jorge de Lima, Raimundo Correa, entre muitos, eram os vultos que habitavam àquelas paisagens.

Então, o modernismo, os novos, não chegavam até nós, e as primeiras notícias que nos vieram não nos agradaram por transgredirem a forma, a métrica, a rima que venerávamos e sem elas, então, não acreditávamos haver poesia.

Naqueles anos tortuosos, começo dos anos 60, efervescia o caldo social no País. Passeatas dos camponeses; as greves na Portela; o Pe. Paulo Crespo, pároco da cidade e sua prédica social. Na mesa do Professor, debaixo dos seus olhares entusiasmados, nascia o “Dia Virá”, um jornal de estudantes em cuja redação rivalizávamos na busca de uma manchete mais incendiária.

No jornal, dois precursores do Grupo que veio chamar-se “Grupo do Jaboatão. Alberto e José Luiz, e mais Jackson, Paulo José, Severino e Edward Bernardino, Ivo Oliveira, Raul Gadelha, Lucia Nadalete.

Com a quartelada de 1964, o Grupo do Dia Virá se desfez, no entanto, na mesa do Professor Benedito, outros vieram a sentar, logo, logo, na busca daquela seara que a messe pródiga tinha muito que colher.

Domingos Alexandre, Jaci Bezerra, Pedro Virgulino, estudantes do Colégio Rodolfo Aureliano, se incorporavam na mesa, como se sempre estivessem ali, desde o começo para todo o sempre.

Interessante, quase não me lembro de frequentarmos o “Chapéu do Barreto”, templo que tanto sonhamos alcançar um dia.

Nosso refúgio era outro, mais modesto, o “Bar do Toinho”, que ficava aberto até às altas horas, esperando os boêmios retardatários para o último trago, aquecer a alma, de volta a casa.

Pedro, perseguido pela repressão saiu do Estado. Continuamos os quatro, Alberto, Jaci eu e Domingos Alexandre em nossas tertúlias, escrevendo nossos versos, lendo os suplementos literários dos jornais do Recife, conhecendo os novos autores, os modernos, aceitando e admirando-os, no entanto ainda reclusos em Jaboatão.

Foi, quando Jaci, em janeiro de 1966, levou seus sonetos e deixou-os para que César Leal os conhecesse, esquecido no entanto em deixar seu endereço, obrigando César Leal convidá-lo pelo jornal . Depois, todos sabem o que aconteceu, e que Luci Alcântara conta muito bem no seu longa,― “Geração 65, foi àquela coisa toda”.

O resto da história, que não tem um começo, meio ou fim, deixo para Cláudia e Carrero contarem. Antes, porém, quero lembrar uma face da poesia de Alberto que me parece ele não quis tornar conhecida. Falo dos seus sonetos. César Leal, em uma de suas “Resenhas” publicadas no Diário de Pernambuco, em 1966, sob o título “Dois Poetas Novos”, assim se refere ao falar do soneto: “O soneto, desde que foi inventado no fim da Idade Média, não há grande poeta, em todos os séculos, que o não tenha cultivado: Dante, Petrarca, Camões, Shakespeare, Goethe, Lorca, Cummings, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade”. E conclui: “Não será isso uma demonstração da sobrevivência do soneto através dos tempos?”

Os sonetos de Alberto, pelo que me parece, estão esparsos. Alguns publicados no “Dia Virá”, outros, certamente, em velhos manuscritos desbotados pelo tempo. Trago para Cláudia a sugestão de resgatá-los. Dentre eles, escolhi um. No seu último verso, na chave de ouro, inscreve a síntese da paixão e ciúme que incendeia os corações enamorados.


SEPARAÇÃO

Eu disse apenas que você mentia,
Que mentia ao dizer que me adorava;
E só disse, meu bem, porque queria
Medir o coração que me ofertava.

Subestimando o amor que me trazia,
Sem querer esse amor eu afastava
E, querendo aumentá-lo num só dia.
Num segundo, talvez, ele acabava.

Tive culpa do fim, mas, certamente
A lição que nos deu a mocidade
Servirá nesse mundo a muita gente:

Dois corações que se amam de verdade
Podem, juntos, amar-se intensamente,
Mas não amam com a mesma intensidade.



*José Luiz Mélo, jaboatonense, é médico e poeta, pertence a “Geração 65”



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