domingo, 7 de setembro de 2014


POEMAS DA SEMANA

Poemas de Ivan Marinho, Raimundo de Moraes, Miró, Cícero Melo e Antonio de Campos


ELO*
Ivan Marinho

As lembranças,
não dos sonhos,
mas da sensação de sonhar
alentam o estado de pedra
exposta ao sol mais causticante
e traz às narinas o suspiro
e o descanso das pálpebras
sobre a face iluminada
por um riso sonolento.
Estado de graça
embalado por chorinhos,
cheiro de terra molhada
e pingos sobre as telhas.
Como cão farejador
rastreio o elo perdido
entre o desengano e a vontade de viver.
Sina malograda
esse tempo de morrer.

*Transcrito do livro Anti-horário, 2000



O DESEJO*
Raimundo de Moraes

Quantas vezes o Tigre
fez-me domado
com patas sobre o peito e garganta
– boca aberta babando em meu rosto?
Não sei. Não sei.
Lembro amores em variados bíceps
corpos em arco a disparar serpentes.
O Tigre acossa-me. Vejo!
Sou seu espelho.
“Narciso” – escreve com garras
em meu ventre.
E começa a lamber
o que me resta.

*Transcrito de Lire en ligne Poemas Homoeróticos Escolhidos



AQUI JAZZ*
Miró

Abro a porta de mim
dou de cara
com um cheiro de álcool insuportável
toco fogo e saio andando
cinzas de Luna e Espinhara
deixam meus cabelos brancos
e o fígado pedindo calma

Ando mais um pouco
e encontro no sofá antigo
os 82 anos de Dona Joaquina
sento meus 46 anos
e vou folheando um álbum cheio de retratos
(descubro que eu não era assim)
e assim
toco fogo no álbum
fecho a porta
e saio de soslaio
pra não ser pego de surpresa
pelos cacos de cerveja

*Transcrito de Miró até agora, 2013



ECLIPSE
Cícero Melo

Ultrapassado o ponto de retorno,
outro rosto se purga no soturno
redesenhar do morto.

 Amargo o anoitecer para o expurgo.
A face turva e posta a farsa espelha
o dessangrar da faca.

O lobo oculta o lar enquanto sombra.
Há sempre mais um ponto no repouso
onde se tomba.



QUANDO MORRE UM POETA, O MUNDO MORRE UM POUCO, TAMBÉM
Antonio de Campos

        à memória de Nivaldo Lemos

Como poeta,
na vida foste um sobrevivente,
também
à morte sobreviverás

Ainda estás comigo pelos bares,
tomando cervejas
e contanto tuas histórias
que ao espírito, como luva, me desciam

Finda a noite,
feito um menino grande,
voltava pra casa com inveja
de tua coragem

Muito mais coragem
tens agora,
muito mais agora,
invejo-te eu

agosto 28, 2014



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