domingo, 24 de agosto de 2014


Poemas da semana

Poemas de Frederico Spencer, Natanael Lima Jr, José Terra, Juareiz Correya e Antonio de Campos


POEMA DAS MIL E UMA NOITES*
Frederico Spencer

Gaza agoniza sufocada:
pele e artérias explodem,
alvos dos tiros de guerra
homens, avançam sobre fantasmas
no escuro da noite
uma criança chora
no despertar do dia não verá
o sol nascer, em Gaza:
a fumaça, o cheiro dos mortos
vivos, não confiarão no amanhã
tudo se repetirá, indefinidamente
no gatilho, seu perdão
na face de Deus, a paisagem
destes dias.

* Do inédito Código de Barras


VADIO
Natanael Lima Jr

Um poema cruzou no meu caminho,
na madrugada fria dos desalentados,
desrespeitou o vazio,
violou o silêncio, vadio
e lambeu –me a cara.

Gozou da minha agonia,
fez labirintos da solidão,
descortinou a manhã
e se despediu
sem deixar rastros.


NOTÍCIAS DA POESIA
José Terra

Sabem o que foi que a adolescente pediu ao poeta ?
- Faz paz no meu ouvido,
Beija meus seios na aurora e escreve tua canção nas minhas nádegas

Sabem o que foi que a lésbica pediu ao poeta ?
- Dar tua inspiração para minha amada
E elogia o êxtase das nossas entranhas a Deus

Sabem o que foi que a adulta disse ao poeta ?
- A rosa do meu sexo é tua, meu Homem

Sabem o que foi que a coroa pediu ao poeta ?
- Entrega-me teu corpo à meia-luz
Com a elegância de um Casablanca

E sabem o que foi que a idosa pediu ao poeta ?
- Com céus e infernos me despindo
Enlouquece a minha transcendência
Escrevendo e publicando teus poemas


DO DESAMOR BERRANTE*
Juareiz Correya

Deitado em teu corpo sou eu quem estremeço
de tremores crispados à flor dos meus dentes
sem um soluço gemido misturado
à chama da fala que se apaga sem espancar teu
                                               {rosto.
sou eu quem mergulho em mim e me abraço com
                                      {as mãos vazias
desorientado e só neste deserto de quatro paredes
em que tua voz distante não te anuncia
em qualquer rotação.
a cama não é teu ninho, a cama é teu holocausto
e te estiras inerme quando eu brilho meu sexo
ao teu alcance e silencias quando me afundo
                                      {em teus braços
como quem me vê conduzindo as trevas da noite
                                      {irretornável.
a tortura não te escalda a carne
e sou eu quem sinto na pele nos ossos os rombos
de sua frenética paixão e o clangor de suas cadeiras
fere e dói fundo e amor-talha minha ternura
desprezada nos lençóis com o avesso
desta oferta máscula que te faço.

*Poema extraído do livro Americanto amar América e outros poemas do século 20


TODO DIA PENSO EM TI
Antonio de Campos

Feito amante
de amor doente
todo dia penso em ti

Olhando o céu azul
em Istambul

Agitado, nada calmo
em Estocolmo

Bem disposto
junto ao Douro, no Porto

Ou ruim nas favelas do Brooklyn,
penso em ti

Pela estrela da matina
e no pôr-do-sol
que no céu dobra a esquina
penso em ti

Todo dia penso em ti
com quem nunca me encontrei
e quando, um dia, contigo me encontrar
serás de mim esquecida!



2 comentários:

  1. O DCP sempre nos presenteando aos domingos com belas poesias.

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    1. Olá poeta! Obg por sua presença e força! Abç

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima