domingo, 24 de agosto de 2014


Joaquim Cardozo


O DCP traz nesta edição mais um grande poeta pernambucano, esquecido pelos “iluminados” produtores culturais que desbotam a cena literária do estado. 

Joaquim Maria Moreira Cardozo, o pernambucano que calculou os edifícios de Oscar Niemeyer. Cardozo era um intelectual da Renascença no Recife da primeira metade do século XX. Poeta (parceiro modernista de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto), contista, chargista, professor universitário, editor e filósofo, entrou para a história do país como o engenheiro civil que transformou possibilidades em certezas. Para Niemeyer, com quem trabalhara na Pampulha, era o brasileiro mais culto que existia.

Começa a escrever a partir de 1924, entretanto seu primeiro livro “Poemas” só foi editado em 1947, por iniciativa do poeta João Cabral de Melo Neto. Ocupou a Cadeira nº 39 da Academia Pernambucana de Letras. Ao todo, foram publicados onze livros de sua autoria, dos quais se destaca o de estreia “Poemas”, que teve como prefaciador o poeta Carlos Drummond de Andrade. 

Numa primeira fase, Cardozo parece aderir ao Modernismo nacionalista, cantando nos poemas aspectos típicos da capital pernambucana. Numa segunda fase (Signo Estrelado), é Carlos Drummond de Andrade (Passeios na Ilha) a aproximá-lo do lirismo valéryano, racionalista, abstrato e de sábia arquitetura verbal e métrica. Em qualquer das fases está a afirmação de um artista do verso, que impressiona sobretudo pelas metáforas, surpreendentes associações verbais (chão de cinza e fadigas; saudade pura/de abril, de sonho, de azul; aurora verde; rastro de luz macia), economia da expressão, sintaxe e ritmo cheios de sutileza e subjetividade.

Para o crítico literário César Leal, “Joaquim Cardozo é o maior poeta brasileiro do século XX. Não creio que seja apenas o mais completo poeta da língua, pois, ao publicar o livro Trivium, em 1970, ele atinge a transcendência, deixando de ser um representante da poesia da língua portuguesa, para situar-se num plano universal: o plano da língua poética pura, uma língua geradora de símbolos e imagens e que não tem um interesse meramente comunicativo.”

Joaquim Cardozo faleceu em Olinda, no dia 04 de novembro de 1978. Deixou diversos livros inacabados, que foram publicados posteriormente.

Os editores

  
Dois poemas de Joaquim Cardozo

Soneto somente

Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde, a água doce, o massapé proíbe.

Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites com negridão de corvo,
Antes que ao porto do céu arribe.

A lua assim só tenho essa planície...
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.

De glórias e de alturas e de universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
- Nessa várzea nasci, nasci somente.


Menina

Os teus olhos de água,
Olhos frios e longos,
Esta noite penetraram.
Esta noite me envolveram.

Bem querida madrugada...

Olhos de sombra, olhos de tarde
Trazem miragens de meninas...
Bundas que parecem rosas.

Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.



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