domingo, 13 de julho de 2014


Toda poesia de Arnaldo Tobias

Arnaldo Tobias - o guerrilheiro das palavras

Nesta edição o DCP traz mais um grande nome da poesia pernambucana: Arnaldo Tobias – o guerrilheiro das palavras.
Tobias nasceu em Bonito, cidade do agreste pernambucano, em 1939 e faleceu no ano de 2002 na cidade do Recife.
Poeta, ficcionista, contista, artista gráfico e editor. Participou ativamente da “Geração 65”, movimento literário de escritores pernambucanos e da Edições Pirata.
Pomar (1979) foi seu livro de estreia. Posteriormente publicou os livros Passaporte (1981), Nu Relato (1983), Tenda proibida (1987), O ditador e outros contos (1991), O gavião e a coruja (1993), O ratinho órfão (1994), Quem sou eu? (1995) e editou o fanzine alternativo PRO-TEXTO, distribuído gratuitamente aos amigos e simpatizantes que frequentavam a Rua 7 de setembro e em outros bairros do Recife.
Segundo o poeta Alberto da Cunha Melo, “Arnaldo Tobias é bem um poeta de seu tempo: um homem cercado de auto-expectativas, procurando atender um compromisso por ele mesmo formulado com o mundo. (...) Quer ser apenas, como diria Cassiano Ricardo, “Um homem que trabalha o poema com o suor do seu rosto, um homem que tem fome como qualquer outro homem” (Depoimento transcrito do livro Nu Relato/1983).

Os editores


Quatro poemas de Arnaldo Tobias


Carta quatro

Poeta doa
a tua voz
mais longe
que a minha

o meu canto
é bucólico
o teu é vasto
e rebelde

doa poeta
no teu verso
(universo)

a palavra
de sangue
universal


Breve biografia (im)pessoal  para cadastro no inquérito

eu fui o perfil
de fuzis e baionetas
para cumprir campos
e trincheiras
e não cumpri

eu fui o sentinela
feito de muralha
para impedir flâmulas
e bandeiras
e não impedi

eu fui o soldado
de atalhos e travessias
para entender de rumos
e fronteiras
e não entendi

eu: estatura mediana
(um metro e sessenta e sete
de altura e solidão
peso avaliado
em balanças de agonias
identidade: 352.526
cor: pardo
como todos os gatos à noite
tipo sanguíneo: "A" Positivo
profissão: poeta e boêmio
olhos: de sol e penumbra
cabelos: de neblina e luares
sinais particulares:
um poema tatuado na língua)

que quis ser nas fileiras
o soldado inicial
para morrer por Luísa
a guerrilheira
e não morri


Sem título

Pelo que bem pareça
uma palafita
não é uma embarcação
segura
é uma canoa furada
(encalhada)
de porco na lama
não é uma arca
feito a de Noé
muito embora
embarque
a bordo (pro/lixo)
pessoas como bichos

em suma:
uma palafita
é o esqueleto
e o féretro
do seu arquiteto.


(Fragmento)*

Quando a lâmpada do quarto acendia
a sua túnica com a cabeleira
negra de carvão mantinha mineral
toda a estrutura do guerrilheiro
seu assassínio ainda hoje atinge-me
da mais quente bala traidora
quis fabricar toneladas de munição
ir para Cuba aprender guerrilhas

Luísa aconselhava-me cautela
que as coisas iam muito bem
pelo outro lado das brancas nuvens
já bastava eu ter sido redator
do tabloide que a gente editava
às madrugadas mais temerosas:
o mimeógrafo a álcool zoando muito
era preciso muito cuidado então

pelo que viesse a gente assumia
jogávamos molotov e bolas de gude
contra a cavalaria do império
roubávamos armas de guerra
subornávamos a doente milícia
com falsos cheques gordos e visados
faríamos tudo por tudo e mais
além do nosso puro sacrifício

*Transcrito do livro Nu Relato (1983)



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima