domingo, 6 de julho de 2014


A poesia plural de Maria do Carmo Barreto Campello de Melo

Maria do Carmo Barreto Campello/Foto: Divulgação

Maria do Carmo Barreto Campello de Melo figura entre as mais importantes poetisas pernambucanas contemporâneas. Nasceu no Recife, em 21 de julho de 1924 e faleceu no dia 23 de julho de 2008.
Bacharel em Letras Clássicas e Licenciada em Didática de Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia do Recife, e pós-graduada com os Cursos de Especialização e de Aperfeiçoamento em Literatura e Língua Portuguesa, pela UFPE. Na década de 60, trabalhou no Jornal do Commercio, onde era responsável por uma coluna intitulada “Nossa Página”, dedicada à arte e a temas gerais. Integrou a Academia Pernambucana de Letras, onde ocupou a Cadeira nº 29, que tem como patrono Padre Gomes Pacheco, e também acadêmica emérita da Academia Pernambucana de Artes e Letras.
Publicou, a partir de 1968, vários livros de poesias que marcaram a cena literária de Pernambuco, entre eles: Música do silêncio – 1º Momento: Os símbolos; 2º Momento: Os sobreviventes; Música do silêncio – 3º Momento: Ciclo da solidão; Música do silêncio – 4º Momento: O tempo reinventado; VerdeVida: o tempo simultâneo; Música do silêncio – 5º Momento: As circunstâncias; Ser em trânsito; Miradouro; Partitura sem som; De adeus e borboletas; Retrato abstrato; Solidão compartilhada; Visitação da vida; A consoada.



Quatro poemas de Maria do Carmo Barreto Campello de Melo


Poema do puro amor

E tendo eu te amado
apenas porque te amei
instalo-me em instáveis estruturas
pelos caminhos de um amor insuspeitado.

Que ele me tome me arrebate me ascenda
e me seja ponte asa e travessia
um amor assim acontecido
sem dedução cálculo ou consequência
sem ordem lógica
- só pura acontecência. 


Despedida

Meus amigos me despeço. Em mim mesma me irei
deixo a casa, deixo a rua, deixo o fruto e seu sabor
deixo agulha, deixo linha, deixo roca, deixo fuso
deixo a flor como seu odor, deixo faca, deixo bolo
deixo morno, deixo quente, deixo tudo que é pra amar

Meus amigos, já me vou. Muitas voltas irei dar
vou pra o longe, vou pra o perto, para o aqui e o acolá
levo sol e levo sombra, levo quanto é pra levar
levo terra e levo mar, levo sonho e acalanto
levo rosa, levo fruto, levo também riso e canto
levo reza, levo pranto, levo veste, levo manto
nesta ida, nesta vinda, onde devo me encontrar.

Meus amigos, eis que me vou. Nesta longa caminhada
à procura de mim mesma, quantos passos irei dar?
e é pra este reencontro, que tanto devo deixar:
- deixo amor e desamor, me desfaço, me renasço
e tanto devo levar: - levo sonho e acalento, sombra
fruto e verde mar, meus amigos me despeço (já
me cansa meu cansaço) muitos passos inda hei de dar.


A gaiola

E era a gaiola e era a vida era a gaiola
e era o muro a cerca e o preconceito
e era o filho a família e a aliança
e era a grade a fila e era o conceito
e era o relógio o horário o apontamento
e era o estatuto a lei e o mandamento
e a tabuleta dizendo é proibido.

E era a vida era o mundo e era a gaiola
e era a casa o nome a vestimenta
e era o imposto o aluguel a ferramenta
e era o orgulho e o coração fechado
e o sentimento trancado a cadeado.

E era o amor e o desamor e o medo de magoar
e eram os laços e o sinal de não passar.
E era a vida era a vida o mundo e a gaiola
e era a vida e a vida era a gaiola.


Lição de amor

Não te direi de amor
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimenta

Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.

Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.



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