domingo, 11 de maio de 2014


Poemas da Semana

A solidão e sua porta*
Carlos Pena Filho

    Carlos Pena Filho/Foto: Reprodução
    (Recife, 17/05/1929 – Recife, 01/07/1960)

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha,
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinha na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

*Transcrito de Pernambuco, Terra da Poesia, 2010, p. 245



Os dois lados*
Murilo Mendes

    Murilo Mendes/Foto: Reprodução
    (Juiz de Fora/MG, 13/05/1901 – Lisboa, 13/08/1975)

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes de movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão,
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.

*Transcrito de Poesia completa e prosa, p. 98



Mãe
Miró

    Img: Reprodução

Agora as fraudas no varal avisam
Tem gente nova no mundo
O descanso das mães da quarentena
Agora teus peitos são tudo na vida
Na vida de uma outra vida
Teu leite vai largar no planeta um
ser que tu não sabes o que vai ser
Mas mesmo assim tu o amas
E vai ter que dar de mamar
a vida inteira
Até porque mesmo já velho
para toda mãe
todo filho é uma criança.
Pena que eu não posso ser mãe.



Os barracos*
Frederico Spencer

    Img: Reprodução

Na banguela das encostas
barracos por um fio, se abismam
as franjas de plástico
adornam o luto, o preto
implora
o sol de todos os dias
numa oração:
nos matem de sede
mas não permitam
o barro, que já foi vida
molhado
seja a morada de sempre
se assim acreditarmos.

Na dureza do asfalto
não cremos
que as chuvas inundarão
nossas ruas de pedra.

*Do inédito Código de Barras



Vivo na idade média em pleno século XXI
Antonio de Campos

    Img: Reprodução

Vivo na Idade Média em pleno século XXI –
hoje não há mais fogueiras
de velhas madeiras

hoje, os fogos das fogueiras
ardem mais e d’outras maneiras

Vivo a Idade Média em pleno século XXI –
das terras mudam nomes
e senhores

mas os donos são os mesmos das terras
onde a primavera
só aos mortos no campo dá flores

Vivo na Idade Média em pleno século XXI –
cada noite
há uma lua de sangue no céu,

nas esquinas, o que, à moda antiga,
era “Boa noite”,
hoje é “Mãos ao alto”
e modernamente, ordena-se: “Perdeu!”

Vivo na Idade Média em pleno século XXI,
que não sendo uma,
é nenhuma, nada e liso breu!

Não quero viver na Idade Média,
como em outro século,
não quero viver em nenhum –

sem Idade Média qualquer,
eu quero é viver no século XXI

abril 2014, Tempo de Barbárie



Um comentário:

  1. Belos poemas e o Mãe deMiró e extraordinário. Parabésn DCP.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima