domingo, 4 de maio de 2014


Poemas da Semana

O DCP traz a partir desta edição o melhor da poesia brasileira, poetas que marcaram épocas e gerações. Uma mostra dos mais importantes poetas brasileiros (encantados). Tudo isso semanalmente aqui no DCP. Mas, sem esquecermos os contemporâneos, os novos e os novíssimos poetas da atual cena literária brasileira e pernambucana.

Os editores


Poemas de Ascenso Ferreira, Mário Quintana, Austro Costa,  Carlos Pena Filho, Lula Côrtes


Misticismo
Ascenso Ferreira

   Ascenso Ferreira/Foto: Reprodução
   (Palmares/PE, 09/05/1895 – Recife, 05/05/1965)

Na paisagem da rua calma,
tu vinhas vindo… vinhas vindo…,
e teu vestido era tão lindo
que parecia que tu vinhas envolvida na tu’alma…
Alma encantada;
ama lavada
e como que posta ao sol para corar…
E que mãos misteriosas terão feito o teu vestido,
que até parece o de Maria Borralheira,
quando foi se casar…!
Certamente foi tecido
pelas mãos de uma estrela fiandeira,
com fios de luz, no tear do luar…
no tear do luar…
O teu vestido era tão que parece o de Maria Borralheira
quando foi se casar…
Cor do mar com todos os peixinhos…!
Cor do céu com todas as estrelas!
E vinhas vindo… vinhas vindo…
na paisagem da rua calma,
e o teu vestido era tão lindo
que parece que tu vinhas envolvida na tu’alma…

Nota: (Catimbó, em POEMAS, org. de Souza Barros, Edição e Impressão de I. Nery da Fonseca & Cia. Ltda. 1931, Recife.).



O poema
Mário Quintana

   Mário Quintana/Foto: Reprodução
   (Alegrete/RS, 30/07/1906 – Porto Alegre, 05/05/1994)

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
                                   para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
                                                     condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Nota: Transcrito de Melhores poemas de Mário Quintana, p. 20


         
O canto do cisne
Austro Costa

   Austro Costa/Foto: Reprodução
   (Limoeiro/PE, 06/05/1899 – Recife, 29/10/1953)

Mil amores cantei. Fáceis amores...
Vagas Quimeras... leves utupias...
Vãos devaneios de que enchi meus dias
Nos vinte anos azuis dos sonhadores...

Mil amores cantei... mas, entre flores,
Beijos, risos, promessas, fantasias,
Vi-os bater as asas fugidias...
Não me deixaram lágrimas, nem dores.

Este, porém, que se aprimora em pranto
E renúncia em minh’alma – estranho e santo
Amor, a que não trazes teu socorro.

Este, sim! vale o canto que te oferto.
Ouve-o, e guarda-o! Ele é teu. Será, decerto,
O meu canto de Cisne. Canto-o e morro!

Nota: Transcrito de Pernambuco, terra da poesia, 2010, p. 144



Soneto do desmantelo azul
Carlos Pena Filho

   Carlos Pena Filho/Foto: Reprodução
   (Recife, 17/05/1929 – Recife, 01/07/1960)

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Nota: Transcrito de Pernambuco, terra da poesia, 2010, p. 246



O ator
Lula Côrtes

   Lula Côrtes/Foto: Adriano Sobral
   (Recife, 09/05/1949 – Jaboatão/PE, 26/03/2011)

Contamina-se assim o pobre homem
Que ansiando a fama
Exala um vírus forte nos versos que proclama
Enquanto esbraveja solene ante a turba que o aclama
Ou se une inocente à sua alma

Não há mais calma
Se espelha a epidemia
E como um rio de forma caudalosa
Carrega o coração de quem lhe ouvia
É assim que apunhala a alegria, a sua prosa

Contendo em si
Propositadamente ou não
O mal de toda guerra e o apogeu da glória
O líquido extraído das folhas da história
Numa alquimia maligna de ilusão

Sapientíssima essa alquimia
E por si só oculta
Tão perigosa que deveria ser secreta
E ele segrega e baba
Com febres e delírios enquanto versa
E morre agonizando ao fim da peça

Candeias – Janeiro/2000

Nota: Transcrito de Amor em preto & branco, 2000



3 comentários:

  1. Maravilha! Domingo assim,
    quem não quer?
    Vestida de azul e lendo versos
    Faço sim e digo a quem puder
    Vem viver de poesia,
    de riso de alegria, quem não quer... (Lígia Beltrão)

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    Respostas
    1. Quem bom Lígia, esse seu comentário só referenda nosso trabalho. Uma boa semana.

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  2. Valeu apena esperar por mais uma semana, sem palavras. Obrigado DCP!!
    " pintei de azul os meus sapatos
    por não poder de azul pintar as ruas " Incrivel...

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima