domingo, 13 de abril de 2014


Poemas da Semana

Poemas de Alberto da Cunha Melo, Manuel Bandeira, Jade Dantas, Lau Siqueira e Taciana Valença

Oração pelo poema
(Fragmento)
Alberto da Cunha Melo (1969)

    Alberto da Cunha Melo/Foto: Arquivo

XVI

Senhor, este poema sabe
o número certo de mortos:
acaba de ler os jornais
do dia, e não está contente.

Olha teus anjos, mas não perde
de vista as patrulhas que rondam
as alamedas do teu reino,
como disse, desencantado.
Entra furioso no templo
para pedir-te explicações,
e tocar os sinos mais altos
e provocar tua inocência.

Volta sem flores do mercado
(para não falar noutra coisa
que magoa a forma discreta
de acusar o tempo que passa).

Segue furtivo e camuflado
como um lagarto, pelas folhas:
Senhor, este poema sabe
de tudo, e não pode dizer.



Desencanto
Manuel Bandeira

   Manuel Bandeira/Foto: Arquivo DCP


Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912



Manifestação
Jade Dantas

    Img: Reprodução


sou hóspede perdida
na imensidão do tudo

visionária, procuro o infinito
além do meu percurso

já viajei em praias azuis
mergulhei em outros mares
foi inútil

não consegui caminhar
no ritmo que queria, só amarras

procuro os caminhos das travessias
que sigam além do acomodado
além das covardias, além dos muros



Da imortalidade poética
Lau Siqueira

    Img: Reprodução


eternas mesmo
são as nuvens

essas dissonâncias
do infinito

eternas
e mutantes

mas a vida
e suas dobras
de estupidez e
coragem...

a vida é aqui
e agora

e é frágil
como uma caipora

é tão frágil a vida
que uma única morte
não basta

por isso sempre
amanheço um pouco
esta memória

o que está posto
poderia ser dito
numa oração

num tratado
numa tese
num conceito
reformado

mas eis aqui
um poema
besta

e hoje nem é sexta



Naufragando
Taciana Valença

    Img: Reprodução


Desconheço-me!
se estive onde dizes
traze-me a prova!

Recuso-me a esta prosa
que em vão vive
sem idas nem voltas!

Nunca estive
onde ousas dizer

Jamais saí daqui
donde vejo-te naufragando
num eterno entardecer...






3 comentários:

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima