domingo, 20 de abril de 2014


Macondo está de luto

por Fernando Farias

  
Quem me contou foi o cigano Melquíades.
Gabriel García Márquez se foi depois de viver uma morte aos poucos anunciada pelo câncer em seus pulmões. Todas as gerações de Macondo em volta do corpo de Gabo.
Vejo que o coronel Aureliano Buendía está chorando ao lado de suas mulheres. Úrsula Iguarán com olhar distante já esperava pela partida, pois todos morrem antes dela. Pilar Ternera me disse que tudo já estava previsto nas cartas, dia 17 de abril.  Maria dos Prazeres que nada sabia sente um pouco de ciúmes. Nervosa, a Rebeca come bolos de terra seca num canto da sala.
Do quarto onde está a menina Remédios, a Bela, e o Mauricio, percebo saindo as borboletas amarelas. No outro quarto, mesmo sabendo da morte de Gabriel, a Erêndira continua atendendo a fila de homens sedentos, para poder pagar sua dívida com a avó desalmada. Dezessete ingleses envenenados com os 17 filhos de Aureliano em fila. Pobre da senhora Forbes, lagrimeja na varanda.
As crianças ainda brincam navegando luz como água. Alugo-me para sonhar com tantos personagens tristes. A louca do telefone, o presidente aposentado e a menina santa conversam baixinho.
Nena Daconte entra na sala e, com dedo sangrando, coloca uma rosa no peito do Gabriel.
Da cozinha o Arcádio grita “muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”.
O cigano Melquíades sorrindo fala ao meu ouvido. “grandes escritores quando morrem vão se encontrar com seus personagens”.
Mestre Gabriel, obrigado per ter criado tantos personagens que agora habitam dentro de minha mente e choram tua morte. Estão tão vivos que, eu creio, também, agora, sou um deles.



Um comentário:

  1. É verdade Fernando. Ele era um grande escritor e com certeza foi se encontrar com seus personagens ;)

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