domingo, 30 de março de 2014


Poemas da Semana

Seis Poemas Políticos de Carlos Drummond de Andrade, Alberto da Cunha Melo, Arnaldo Tobias, Ferreira Gullar, Marcelo Mário Melo e Juareiz Correya



Foto: Arquivo www.istoe.com.br


Mãos dadas*
Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre ele, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.




Mais Resíduos da Schutzstaffel (SS)*
Alberto da Cunha Melo

"Em todas as paróquias se escolherão um ou dois padres e dois ou três leigos, pessoas de bem, a quem se fará prestar juramento, e que farão buscas frequentes e escrupulosas em todas as casas, nos quartos, celeiros, subterrâneos, etc., com o fim de se certificarem se porventura não há hereges escondidos". (Concílio de Tolosa)

Quando a pátria
não é mais tangível
como a mudança
das folhas nas árvores
e das ânsias nos homens,
em nome dela
as árvores e os homens
começam a tombar:
Ó SS, S.O.S.
nessas noites
imerecidamente tropicais,
quando velhos tios
e parceiros de dominó
(morando a alguns quarteirões)
são menos esperados
do que os lúgubres alunos
de Nicolau Américo;
são menos esperados
do que todos
os súditos dos sádicos,
os sátrapas dos seikos,
os servos da segurança,
tudo conforme
a fúria dos fatos
ou o concílio de sempre,
o de Tolosa;
são menos esperados
do que Fleury, o carniceiro branco,
com seu incandescente
ferro de soldar
estalando nos pentelhos
da guerrilheira Marta;
são menos esperados
do que as caixas de algemas
no porto do Recife ou de Santos, onde
todo pobre é suspeito
e todo suspeito é culpado
no mínimo de ser pobre;
são menos esperados
do que os carros de choque
e o tilintar das medalhas
nos coletes à prova de povo,
do que o assalto dos tiras
nos bairros sem luz,
onde jazem as doutrinas
da segurança interna,
do que o rosnar dos ricos
e seus "pastores alemães",
numa terra invadida
pelos seus guardiães.

*Do Livro Noticiário, 1979



Arnaldo Tobias
(Fragmento – do Livro Nu-Relato, Edições Pirata, 1983)

Quando a lâmpada do quarto acendia
a sua túnica com a cabeleira
negra de carvão mantinha mineral
toda a estrutura do guerrilheiro
seu assassínio ainda hoje atinge-me
da mais quente bala traidora
quis fabricar toneladas de munição
ir para Cuba aprender guerrilhas

Luísa aconselhava-me cautela
que as coisas iam muito bem
pelo outro lado das brancas nuvens
já bastava eu ter sido redator
do tabloide que a gente editava
às madrugadas mais temerosas:
o mimeógrafo a álcool zoando muito
era preciso muito cuidado então

pelo que viesse a gente assumia
jogávamos molotov e bolas de gude
contra a cavalaria do império
roubávamos armas de guerra
subornávamos a doente milícia
com falsos cheques gordos e visados
faríamos tudo por tudo e mais
além do nosso puro sacrifício



Subversiva*
Ferreira Gullar

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.




Pessoas como árvores*
Marcelo Mário de Melo

[A quem se mantêm de esquerda e socialista depois dos 60 anos]

As árvores quando jovens
se arriscam
sob o tempo e o vento
podendo se quebrar
e interromper suas vidas.

No desafio de viver e crescer
elas fincam as garras
na terra-mãe
retesam as fibras
resistem a impactos.

Com o passar do tempo
as árvores
criam raízes fundas
e troncos grossos
que sustentam a copa.

Decantando as décadas
o seu ofício é garantir
novas sementes
alimento e sombra
aos viajantes
alargando os esforços juvenis.




Arte do poder
Juareiz Correya

Os romanos inventaram
com leões e cristãos
o circo com pão.
Os brasileiros bolaram
com samba e com sol
o circo sem pão
                      do futebol.
Hoje o Brasil
descoberto de novo,
inventado de novo,
decretou o Estado de Circo
- sem picadeiro, sem palco e sem pão –
com panos colloridos tampando o céu
um mágico desgovernado no planalto
e uma plateia de 140 milhões
de bestas e palhaços.





5 comentários:

  1. Espetacular! Cada uma contando do seu jeito, a mesma história sangrenta das nossas vidas. Parabéns!
    Lígia Beltrão

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  2. Arnaldo Tobias grande expressão da poesia pernambucana. Muito pouco lembrado.

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  3. "A poesia quando chega não respeita nada..." Excelente o Subversiva de Ferreira Gullar.

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  4. Excelente a Arte do poder. Valeu Juareiz!

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  5. Quanta poesia cheia de lucidez. Parabéns, Juareiz .

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima