domingo, 16 de fevereiro de 2014


Poemas da Semana

Fevereiro de Grandes Poetas

Lêdo Ivo, Adelmar Tavares, Paulo Mendes Campos, Cyl Gallindo, Solano Trindade, Francisco Espinhara, Hilda Hilst, Mário de Andrade

Img: Reprodução

O amanhecer das criaturas*
Lêdo Ivo

O dia forma-se
de quase nada:
um seio nu
por entre pálpebras,

o sol que raia
e a luz acesa
no arranha-céu
que a aurora lava.

A mão incerta
deixa na rósea
carne dormida
o gesto equívoco.

Tudo é lilá
na luminosa
e vã partilha.

No dia imenso
nascem tesouros:
curvos, redondos.

O pão à porta,
depois o leite,
e o erguer dos corpos.

*Transcrito de Melhores poemas de Lêdo Ivo, p. 96



A Cidade de Recife*
Adelmar Tavares

Pátria do meu amor! Recife linda,
como te guarda o meu saudoso olhar!
Velas ao longe... Os coqueirais de Olinda,
e uma terra a nascer da água do mar...

Um céu de estrelas que entrevejo ainda.
Sob as pontes, o rio a se estirar...
Noites de lua... que saudade infinda...
brancas... que dão vontade de chorar...

Filho ingrato, parti... Mas nem um dia,
deixei de te lembrar, por mundo alheio,
onde me trouxe a glória fugidia.

Pátria, quando eu morrer, piedosa e boa,
dá que eu durma o meu sono no teu seio,
como um seio de Mãe que ama e perdoa...




Litogravura*
Paulo Mendes Campos

Eu voltava cansado como um rio.
No Sumaré altíssimo pulsava
a torre de tevê, tristonha, flava.
Não: voltava humilhado como um tio
bêbado chega à casa de um sobrinho.
Pela ravina, lento, lentamente,
feria-se o luar, num desalinho
de prata sobre a Gávea de meus dias.
Os cães quedaram quietos bruscamente.
Foi no tempo dos bondes: vi um deles
raiar pelo Bar Vinte, borboleta
flamante, touro rútilo, cometa
que se atrasa no cosmo e desespera:
negra, na jaula em fuga, uma pantera.

Passei a mão nos olhos: suntuosa,
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.




Comícios íntimos*
Cyl Gallindo

Olho e vejo a praça:
é um campo aberto
onde se plantam flores
e nasce Liberdade.
Mas acintosamente estão
plantados arames farpados
                e placas:
“Não pise na relva”.

Plantam-se ainda
olhos e bocas
                de fuzis
nas esquinas
e nasce o medo
e eu passo
        cautelosamente
e vou fazer Comícios
dentro do meu quarto.

Olho e vejo a Casa:
é um lar inviolável
onde se planta o amor
e nascem filhos.
Mas acintosamente estão
plantados à porta soldados
                e uma voz:
-“Ordem superior!”

Plantam-se ainda
                  vigília
com olhos e ouvidos
dos melhores amigos
e nasce o medo
e eu paro e
                sigilosamente
vou fazer Comícios
dentro de mim mesmo.

*Transcrito de 20 poemas escolhidos, 2000, p. 28



Poema autobiográfico*
Solano Trindade

Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs...
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador...

Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras...
Obedeci ao chamado das sirenes...
Morei num mucambo do "Bode",
E hoje moro num barraco na Saúde...

Não mudei nada...




Black Sabbath*
Francisco Espinhara

Quero as manhãs incendiadas.
O resto do dia diabo aceso
As cabeças das mães degoladas
O monge da paz num poço preso.

Que despenquem das varandas
Flores de bálsamo perfumadas.
Venham ungidas de lavanda
As faces das crianças maceradas.

Que o golpe destro do punhal
Esfrie o sabor da língua.
As vísceras deixemos ao chacal
Ou morram mesmo à míngua.

Que o ódio atropele o amor
Não se dê à paz morada.
O mundo seja um barril de dor
A rolar incessantemente pela escada.

*Transcrito de Coletânea Marginal Recife - vol. 1 - Org. Cida Pedrosa, Miró e Valmir Jordão, Secretaria de Cultura do Recife, 2002



Para não morrer*
Hilda Hilst

Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.




Descobrimento*
Mário de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.








6 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá Negreiros, agradecemos seu comentário, sempre bem-vindo!

      Excluir
  2. Grandes poemas. Grandes poetas. Prazer maior ainda, tê-los diante dos olhos, numa tarde de domingo, entediada pelo silêncio, que nesse instante, foi quebrado pela emoção. Obrigada!
    Lígia Beltrão

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Lígia, ficamos felizes com sua visita. Volte sempre!!!

      Excluir
  3. Hoje conseguir lê todos os poemas e fiquei encantada com as poesias. Fevereiro de Grandes Poetas vai ficar na história do DCP. Parabéns!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom Luciana que gostou, é uma prova que estamos antenados com nossos leitores, volte sempre.

      Excluir

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima