domingo, 19 de janeiro de 2014


Ventas sedentas de novos ares: um contraponto

por Frederico Spencer*







Operários, de Tarsila do Amaral (1933)

O poeta Ferreira Gullar nos brinda com uma máxima: “a arte existe porque a vida é pequena” - pequena frase de largo espectro, que só um poeta de seu tamanho é capaz de criar. Frase esta que suscita o encantamento e o poder que a arte tem sobre o homem e sobre toda a sociedade por tabela.

Seguindo a máxima do poeta, beberemos na fonte da história do homem e sua trajetória no processo de dominação da natureza e, consequentemente, na história da literatura ou das artes sobre o mundo humano - ou melhor dizendo, da humanização do homem como forma de garantir a perpetuação de sua espécie.

Desde o começo de sua existência o homem produziu arte e literatura, se é que podemos separar uma da outra, como condição primária para sua sobrevivência sempre com o propósito de registrar a memória de suas derrotas e conquistas, através de sua saga na busca da obtenção de alimentos e na defesa de sua prole.

Das conquistas bélicas surgiram os relatos que enalteciam os heróis de um tempo sem papel e tinta, e que, através dos menestréis tornaram-se conhecidos e sua fama espalhada por várias cidades. Relatos estes que sempre receberam um dedinho a mais de prosa, por parte do relator, para encantar aqueles que entupiam as ágoras antigas.

Assim nasceu a ficção, berço fecundo da linguagem, terreno fértil para uma das mais ricas formas da criação humana, que entre o profano e o sagrado vem escrevendo a história das experiências humanas através dos tempos.

A cultura nada mais é que o acumulo das experiências do homem e o registro destas em cada sociedade. Sem memória, não seríamos capazes de formar os grupos sociais. A Cultura difere os grupos humanos através de suas características vivenciadas através de sua produção industrial e artística. Cria um modelo estético que servirá como base para a formação ética de seu povo. A arte como parte da cultura, constitui a memória e a herança de seus constituintes, reproduzindo suas características e suas peculiaridades.

No mundo atual - a civilização da mercadoria e da informatização dos conceitos - vivemos uma crise de identidade onde a arte e a literatura incorporaram, com a crise do capitalismo, o conceito ideológico do consumo fácil; dos “mouses inquietos” e das políticas públicas estabanadas que beiram o precipício da prestação de contas.

Hoje, aqueles que se propõem às artes e suas teses, vítimas do mecenato do erário público, quase asfixiados pulsam por ares novos que sejam capazes de aerar seus velhos pulmões. Mas como isso pode acontecer, qual o percentual de acerto? Se ainda não criamos cabelos suficientes em nossas ventas, que possam nos creditar a dizer quem somos!

*Frederico Spencer é poeta, produtor cultural, sociólogo e psicopedagogo clínico



2 comentários:

  1. Parabéns, Frederico! Um belo contraponto.
    Como sempre, sábias palavras para a reflexão!
    Verdade que “ainda não criamos cabelos suficientes em nossas ventas, que possam nos creditar a dizer quem somos!”. Eis um dos grandes mistérios da existência sociológica, teológica e filosófica e, tentar desvendar tal enigma identitário, corroeu o juízo de muita gente boa que ser arvorou por essas bandas.
    Em tempos de crises à la Hall parece que estamos perdidos diante de um novo mal-estar pós-freudiano, entretanto, os mal-estares são comuns ao longo do tempo, assumindo formas específicas conforme o período histórico.
    Pois é, nossos velhos pulmões, carcomidos por frágeis alvéolos desencantados e esgotadas pleuras conceituais, mas ávidos por novos ares adentrando em suas ventas, esperam que as novas políticas de cultura possam oxigená-los de forma branda, mas profunda e, assim, permitir que muitos brasileiros passem a ter acesso aos bens culturais gestados com recursos públicos. Apesar de não podermos ‘creditar a dizer quem somos’, podemos, certamente, reivindicar nossos desejos.
    Como lembra mestre Rouanet “A felicidade é virtualmente impossível, mas temos que agir como se ela pudesse ser alcançada”.
    Eis uma grande função do DCP: moer a discussão.

    Valeu, Frederico!

    Grande abraço,
    Adriano Marcena

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  2. Pois é amigo, não podemos viver simplesmente como partes desta cadeia maluca sem a devida reflexão, só o ato reflexivo pode contribuir para o crescimento de nossas ventas, adubando nossos bulbos capilares.
    Um abraço. Obrigado pelo comentário.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima