domingo, 5 de janeiro de 2014


Poemas da Semana

Poemas de Flávia Suassuna, Raimundo de Moraes, Rogério Generoso, Carlos Newton Júnior e Jade Dantas

De novo*
Flávia Suassuna

    Img: Reprodução

Meu suspendido desejo
pertence à seiva da vida.

Sem ele
nada sou,
além de vestígio
que se some,
tangido pelo vento.

Como ele, delicado,
funda o que sou,
costumo
escondê-lo
com cuidado
entre palavras.

E só quem tem
gosto por elas
pode conhecer
a que sabe.




Elegíaca
Raimundo de Moraes

"A palavra é a minha quarta dimensão."
(Clarice Lispector)

    Img: Reprodução

Segui os passos
da menina de Tchetchelnik.
Dez luas passaram flechadas por Sagitário
Maçãs no claro ofertam-se de tanta maturação:
ensanguentadas, reluzem. Balançam lustres
em din-dlens de poeira suja.
Aqui
a Praça Maciel Pinheiro
circunda o Tempo.
O casarão 387
é agora insípido e laranja
(mas vi entre uma e outra janela
a menina sorrir para mundos distantes).
Longe
as esquinas de Nápoles Berna Torquay Washington.
(As esquinas do mundo são iguais
quando punge à solidão
a lembrança de tudo que fomos).
Corro pelos caminhos de mais um solstício
a cidade ergue-se em dóricas faiscantes
escaravelhos brotam da terra
e no rosto eslavo
pupilas pulsam quasars.
É por ti:
elevo-me à tua memória.
Candelabros iluminando a noite
o Kaddish arrebanhando os perdidos como nós
- percorro os caminhos da mulher de Tchetchelnik.
O olhar oblíquo.
A boca rubra.
A safira no dedo.
A Estrela de Mil Pontas
rompendo gargantas. É Palavra.
Aponta Sagitário mais uma seta em riste.
Agora, sabeis: no coração selvagemente livre.



Pequeno gozo sem nome ou amor
Rogério Generoso

   Img: Reprodução

Detive um pouco a alma entre o ar e o nada
consumi um grão de pavor e silêncio no dejejum.
Amei as pálpebras da amante
reviradas quando eu entrava e saía
do abismo de sua minúscula floresta de relva negra.
Assaltei com mãos ágeis seus peitos simétricos
para entre os dentes sugar-lhe os bicos
após festa profana de saliva e sêmen.
E me dado foi vencer o monte curvo de carne
onde do cimo vi a flor vermelha entreaberta
vulcão ativo a esperar-me.
E tomei impulso pelos pulsos para guardar
minha memória no púbis daquele amor sem nome.



Pantera
Carlos Newton Júnior

    Img: Reprodução

Jamais a vi verdadeira
— o hálito quente e o frio olhar —
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:

encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.

E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.

Em todas o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.



Traição
Jade Dantas

    Img: Reprodução

entre o meu rosto verdadeiro
e aquele que aparece
o poema me decifra

traz à luz meu avesso
revela-me a mim mesma
traduz em palavras o que nem sei

cúmplice da solidão
mostra-me inteira
o poema me trai




7 comentários:

  1. poemas em poesia sublime, ácidas, eróticas. eis as vozes presentes. o encantamento de um domingo com poesia.

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    1. Olá Neilton, foi realmente uma grande seleção. Agradecemos sua visita.

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    2. Que bom que gostou, trabalhamos para oferecer o melhor aos nossos leitores. Volte sempre.

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  2. Poesia que me faz viajar e adentrar por tão ricas paisagens.
    Grande abraço a todos e todas.
    Verônica Aroucha

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    1. Obg Veronica por sua visita e comentário. A poesia tem este encanto. Volte sempre.

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  3. Respostas
    1. Por isso ela é meu alimento diário. Obg pela visita e comentário.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima