domingo, 26 de janeiro de 2014


O Conto da Semana

O agiota (conto) Dalton Trevisan*

Foto: Reprodução


Os jornais de três dias, espalhados na varanda, chamam a atenção dos vizinhos.
Avisada a polícia, o velho é achado morto. Um golpe certeiro de machadinha lhe degola meio pescoço.
Os bolsos virados pelo avesso.
A carteira (sempre gorda de notas) agora vazia.
Um lenço vermelho de sangue.
E o óculo de lentes rachadas.
Mora só, desde que a mulher o abandonou faz anos. Porta e janela fechadas, não abre para desconhecido.
Empresta dinheiro a juro. Em cada nota de dívida, grampeia uma papeleta com instrução de cobrança. O agiota se você pede um grão de arroz tem de pagar esse grão mais quatro ou cinco.
Entre os papéis, anúncios de “Precisa-se Empregada Doméstica”. Num só ano, oito delas... Algumas ficam até uma semana. Outras mais que dois ou três dias.
- Oitenta anos, já viu?  E na força do homem!
Com risinho bandalho:
- Muita mulher pode confirmar.
Assim as empregadas não se demoram na casa. Não por ser cainho, bruto e cheio de mania. Mais por estar sempre com as mãos nelas. Esfregando-se na cozinha. Seguindo-as quando arrumam o quarto.
Têm que lutar para se livrarem. Fácil não é fugir da sua pata cabeluda. Mais de uma fraqueja aos ataques do ancião libertino.
Exibe-se com os polegares enfiados no suspensório de vidro. Esquece de propósito a braguilha aberta. Deliciado, fuma charuto barato. Ainda no calor, usa meia de lã. Prepara sozinho a sua pobre comida.
O assassino, logo descoberto, aparece no rol dos devedores. Ao visitá-lo, a polícia acha na cesta de roupa uma camisa suja de sangue. E, sob o tanque, a machadinha com que no açougue retalha frango, pato e peru.

(In O Maníaco do Olho Verde, p. 81)

*Dalton Trevisan é escritor, famoso por seus livros de contos, especialmente O Vampiro de Curitiba (1965), e por sua natureza reclusa.



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