domingo, 29 de dezembro de 2013


Poemas da Semana

Poemas de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Cyl Gallindo, Alberto da Cunha Melo e Lourdes Nicácio

Cortar o tempo
Carlos Drummond de Andrade

   Img: Reprodução

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.



Retrato*
Cecília Meireles

   Img: Reprodução

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

*poema extraído de “Flor de poemas”, p. 63-64



Ser criança em noite de Natal
Cyl Gallindo

   Img: Reprodução

Tantas vezes a fadiga se desmancha
na mão que faz aurora e faz orvalho
e fez a vida fez o homem e faz verdade.

Tantas vezes a aurora se levanta
expondo as manhãs como crianças
nas peripécias sutis da claridade.

Tantas vezes a vida se acorda
e se joga a fazer a coisa feita
que para colhê-la ao homem bastaria

lançar o coração feito uma rede
a diluir entre nós essa parede
de indiferença erguida a cada dia.

Mas se os dias se vestem destes fatos
dada a colheita de frutos imediatos
tracemos novos rumos sem segredos

que a partir dum crepúsculo universal
igualitários na posse dos brinquedos
sejamos crianças em Noite de Natal.

Brasília, 1986



Ergonomia*
Alberto da Cunha Melo

   Img: Reprodução

O grande trabalho é do amor
sem bronzes, sem assinaturas,
no ar do espaço, na hora do tempo,
pólen de Deus nas criaturas,

a palavra quase sem eco
a injetar humos no deserto,

mãos de franciscos, de terezas,
que repartem, ocultamente,
suas migalhas sob as mesas,

ou energia sem fronteiras,
que acende todas as estrelas.

*poema dedicado ao ergonomista Norberto Loureiro



O lavrador e o templo*
Lourdes Nicácio

   Img: Reprodução

Sê como o templo natural,
                 este Universo,
de onde emana
                   a humildade;
onde um calendário
                 além dos olhos
tece as estações,
                  a eternidade.

Há tantas safras
         de estrelas nesta vida;
tantos espaços
          ou troncos da verdade.
Sê mais que um servo
           desse plantio de luz:
lavra, em ti,
               a mansidão, a paz.


*Transcrito de “Pernambuco, terra da poesia”, 2010, p. 405



3 comentários:

  1. Parabéns pela seleção de poemas, recebo-os como presente de final de ano, separei algumas passagens que ficaram marcadas. Obrigado!!

    1. a ideia de cortar o tempo em fatias

    2. Em que espelho ficou perdida a minha face?

    3. injetar humos no deserto

    4. safras de estrelas nesta vida

    5. que a partir dum crepúsculo universal
    igualitários na posse dos brinquedos
    sejamos crianças em Noite de Natal.

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    Respostas
    1. Muito legal o registro dessas passagens. Feliz 2014 amigo!

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    2. Nossa intenção era dar um fechamento de alto nível em 2013. Obrigado pelo comentário, é muito importante para todos nós.

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