domingo, 3 de novembro de 2013


Domingo de Drummond

Foto: Reprodução
Poeta, contista e cronista. Carlos Drummond de Andrade foi sem dúvida, um dos nomes mais importantes da literatura do século XX. Nascido em Itabira (MG) em 1902, completaria se vivo fosse 111 anos neste 31 de outubro. Começou sua carreira literária em 1930 com o livro “Alguma poesia” e escreveu por mais de 50 anos em prosa e versos, marcando o século que viveu. Sua literatura virou música e páginas de jornais. Sem sua poesia ficamos qual “José” que se perdeu na vida, dançando na “Quadrilha” fomos surpreendidos por personagens que não existiam na história, só sobrou a náusea desse tempo onde nenhuma flor venceu este asfalto.

Quatro poemas de Carlos Drummond de Andrade


Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Canção Final

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.


O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima