domingo, 20 de outubro de 2013


Poemas da Semana

Poemas de Manuel Bandeira, Sebastião Uchoa Leite, Roberto Piva, Antonio de Campos e Natanael Lima Jr
  
Nu*
Manuel Bandeira
(1886 – 1968)

Img: Reprodução

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -
Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

*In: Estrela da Manhã, 1960.


Metassombro*
Sebastião Uchoa Leite
(1935 – 2003)

Img: Reprodução

eu não sou eu
nem o meu reflexo
especulo-me na meia sombra
que é meta de claridade
distorço de intermédio
estou fora de foco
atrás de minha voz
perdi todo o discurso
minha língua é ofídica
minha figura é a elipse

*In: Antilogia, 1979


Libelo*
Roberto Piva

Foto: Reprodução

Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído
Pormenor Esboçado”
Na grande bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.

*In: Antologia dos Novíssimos, 1961.


Pequeno obituário para Norma
Antonio de Campos

Todo mundo foi apaixonado pela Norma Bengell
(Domingos de Oliveira)

Norma Bengell – anos 60
Foto: Reprodução

Norma sem norma
morreu,
foi fazer

nu frontal
no Céu,
onde chegou

despida
como sempre
viveu

outubro 10, 2013


Poema a céu aberto*
Natanael Lima Jr

Foto: Reprodução

As noites passam ávidas.
Por vezes,
levianas, desregradas.

Algumas revelam
sombrias angústias
algemadas por paixões dissolventes.

Noutras se revelam
pálidas, tímidas.

Por vezes as desejo
obscenas, insanas,
dominadoras, cruéis.

E quando a noite cessa,
o poema se revela
a céu aberto.

*In: À espera do último girassol & outros poemas, 2011.



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima