domingo, 6 de outubro de 2013


Poemas da Semana

Poemas de Natanael Lima Jr, Frederico Spencer, Affonso Romano de Sant’Anna, Adélia Prado, Luiz Alberto Machado e Meimei Corrêa


Quem vai conter a vida*
Natanael Lima Jr

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Quem vai conter a vida
se é sutilíssimo
o seu poema
em cada amanhecer?

Aqui ninguém é dor
ninguém passa a limpo o tempo
e o excesso é a conta da vida.

Em nós há primaveras
e manhãs insuladas.

Ninguém há de conter
a vida transitória.


*Do livro À espera do último girassol & outros poemas, 2011



Poema da vida*
Frederico Spencer
(fragmento)

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Não te queria assim
tatuada, trago no braço
do tempo prisioneiro:
teu compasso me fere
o relógio marca meu tempo ligeiro.
Em tuas águas
minhas estradas me fazem a ferro
não te consigo assim
devagar, entre os dedos
escorres e fundo pisas
meu coração apressado
vago paralisa.


*Do livro Abril sitiado, 2011


Nota: O poema da vida é composto por 12 poemas que compõem a obra, os quais passamos a editar um por domingo.



A higiene do corpo*
Affonso Romano de Sant’Anna

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Toda manhã a barba
cresce sobre a face
da terra e do homem
pedindo o orvalho
                            – e a navalha.
Presto, acordo a lâmina
e deslizo um óleo santo
sobre o imolado rosto da manhã.
Do chuveiro escorre a água
sobre as partes circundadas pela mão
alegre. Os poros se aliviam
descendo brancas bolhas perna abaixo.
É o banho: ritual aquático e diário
Daquele que se purifica e matinal
Desdobra as felpas da toalha
E sai ungido em veste pura.
Te vestirei com meu suo,
Te banharei toda manhã,
Te alimparei , te cuidarei
Nas unhas e dentições .
Os teus pelos polirei,
Os teus fios cortarei
E como potro bravio
Pelos pastos crescerei.

*Poema extraído do blog: palavrarte.com



Com licença poética*
Adélia Prado

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Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

*Nota: O poema "Com licença poética" parafraseia o "Poema de Sete Faces", de Drummond.



Canto verde
Luiz Alberto Machado

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Convém lembrar, companheiro, a vida
Para os olhos de todas as manhãs
Não permitindo ao fedor das sentenças
Vender o dia às trevas;
Convém lembrar, companheiro, a terra
Onde pisam os pés de todas as cores, raças e crenças;
O rio de todas as canoas, de todos os peixes,
De todas as cachoeiras que assobiam prá gente
Um outro sentido de vida;
O sol, manifestação real da própria existência.
Convém lembrar, companheiro,
Do sopro de todos os ventos,
Das matas de todas as flores,
Do quintal de todas as infâncias,
De todas as várzeas, todos os campos,
Todas as selvas dos bichos de todas as feras e mansas;
Das águas de todos os mares,
Todos os brejos, lagos e lagoas;
Convém lembrar, acima de tudo,
O direito de viver e deixar viver.


*Luiz Alberto Machado é poeta, escritor, compositor musical e radialista pernambucano. É pesquisador, contador de história, editor do blog Varejo Sortido e do Guia de Poesia do Projeto SobreSites (RJ). É cônsul em Alagoas do Poetas del Mundo. Parte do seu trabalho está reunido na sua home www.luizalbertomachado.com.br



Bells across the meadows
(Sinos além dos campos )

Meimei Corrêa*

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Além, muito além dos campos,
Onde os olhos já não alcançam,
Existe a magia de cores,
O perfume de mil flores,
A brisa suave do vento...
A carícia envolvente da Lua
E o beijo ardente do Sol,
Despertam desejos adormecidos,
Enquanto as estrelas brindam
Aos sentimentos solitários e silenciosos,
Cravados para sempre no peito.
Além, muito além dos campos,
Há sinos incansáveis que tangem
Espalhando a melodia embriagada
Que o coração embebedou na madrugada
De sonhos e lágrimas, talvez...
Também há rimas perdidas
Brincando com as folhas no chão,
Correndo, deixando as pegadas
Marcadas no tempo que jamais as destrói.
É... além, muito além dos campos,
Alguém se esquece na dor,
Se perde na vida não reencontra o amor
Pois a estrada é muito longa
E os caminhos tortuosos demais,
Formando um labirinto sem saída.
E os sinos além dos campos
Tangem incessantemente...
Eles não param...
Não param... não param...
Não param...
  

*Meimei Corrêa é poeta, membro fundadora e efetiva da Academia Tricordiana de Letras e Artes (MG), apresentadora do Programa Domingo Romântico, pela Cidade FM (Campos Gerais – MG) e editora do blog Baú de Ilusões http://www.meimeicorrea.blogspot.com.br/



4 comentários:

  1. Fazer parte deste recanto encantador ao lado de grandes nomes da nossa poesia, é uma honra. Obrigada, amigo Natanael e também a todos que aqui estão. Por mim e por Luiz Alberto Machado, até sempre. Abraços.

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    Respostas
    1. Prazer é todo nosso poeta. Abç!
      Natanael Jr

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    2. Fazer o Domingo com Poesia com um time como este é muito mais fácil e prazeroso. Um forte abraço para os dois poetas.
      Frederico Spencer

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  2. Frederico, Luiz Alberto e eu agradecemos de coração. A alegria, a honra é nossa fazer parte deste trabalho maravilhoso de vocês. Abraços nossos.

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima