domingo, 29 de setembro de 2013


Poemas da Semana

Poemas de Ferreira Gullar, Antonio de Campos, Marcus Accioly, Sérgio Vaz e Arnaldo Antunes



Aprendizado*
Ferreira Gullar




Foto: Reprodução

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta. 

*Do livro Barulhos, 1987


Os pássaros do mal
(profecia para um tempo que virá) 

Antonio de Campos


                 Não permitiremos um novo Japão ao Sul do equador.
                                                                              Henry Kissinger*

  
Img: Reprodução

Seu petróleo me pertence!
Ao Sul*,
sempre ao Sul,
de plumas
encarnadas, brancas & azuis,
canta
a araponga americana
seu lento agouro-blues
Acauã, dacauã, ã,
geme a acauã, pro país chamando a Morte,
enquanto em cima,
da América do Norte,
responde o corvo de Allan*,
desde Baltimore* –

o Sul nevermore*,
mo(r)re, mo(r)re, mo(r)re!

 setembro 09, 2013


*este psicopata ainda está vivo, com 90 anos de Morte, e nenhum
Tribunal o julga e o condena, como condenou os nazistas da Segunda Guerra,
por Crimes Contra a Humanidade, que praticou


*”Artigo na revista Forbes (de setembro 10, escrito por Christopher Helman,
leia-se Hellman: Homem do Inferno, Satã, interpolação minha),
justifica o monitoramento da Petrobas pelo fato de a companhia
ter papel chave na estabilidade da América do Sul.” Ou seja, sobrevivência deles.
Manchete do Jornal do Commercio, edição de setembro 11,
Dia de Salvador Allende (quem com ferro fere),
Dia de Bin Laden (com ferro será ferido), ironicamente 

*Edgar Allan Poe, gênio da poesia e da literatura norte-americana
*cidade onde morou, morreu e está enterrado Edgar Allan Poe
*o Sul nunca mais.
“Nevermore” vaticinava o corvo da poesia homônima de Allan Poe



Marcel Proust*
Marcus Accioly


Img: Reprodução
  
Teu tempo foi perdido e foi buscado
igual a um negativo que, Marcel
Proust, no espaço fez-se revelado
na memória, nas tiras de papel
e em tudo que continha do passado
uma “cintilação”, um ouropel,
um pó que te abrigou a estar trancado
no quarto, preso à cama, ao teu dossel
de cortiça – segundo Cocteau –
escrevendo de luvas, pois a asma
era (além de Celeste) o teu fantasma,
o espectro que se foi e que ficou
da mulher gorda e negra, com seu porte
de mãe, de amante, de enfermeira e morte.

*Do livro Daguerreótipos, 2008



Simplicidade
Sérgio Vaz*

Img: Reprodução

No princípio quando era o verbo
de tão pequeno me achava grande,
uma enorme sombra diante de um sol pequeno.
Mas a grandeza das coisa pequenas,
que são as estrelas na órbita da lua,
ensina que a vida cabe somente
na sua via-láctea.
Porém,
se no teu infinito
não cabe a escuridão alheia,
você brilha tão intenso
que o universo cabe todo
numa casca de noz.
E aí, de tão grande a simplicidade
nasce em teu coração
um planeta melhor:
eu, tu, eles, nós, voz.
 

*Poeta, fundador da Cooperifa em São Paulo. Poema extraído do blog: www.colecionadordepedras1.blogspot.com



Iluminuras
Arnaldo Antunes*

 Img: Reprodução

Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

 *Arnaldo Antunes é compositor e músico que derivou para a poesia visual e a performance, personifica a vocação intersemiótica de uma geração que dá continuidade às propostas estéticas do concretismo. Atuando inicialmente como vocalista da banda de rock Titãs (que abandonaria em 1992), seu primeiro livro – Ou E (1983) – é composto de caligrafias que assinalam a adesão a uma poética que explora a visualidade e a dimensão física da palavra (In Literatura brasileira hoje, 2010, p. 65).



Um comentário:

  1. Salve o Poeta Ferreira Gullar!
    Ler Ferreira é sempre um APRENDIZADO...E milhares de emoções...

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