domingo, 25 de agosto de 2013


O Conto da Semana

Campeão (conto) de Salete Rêgo Barros*


Img: Reprodução



Obras de arte se espalham pelos ombros, costas e braços. Recostado num sofá, tenta controlar o movimento do pé, fechar o olho e levantar o braço do lado esquerdo. As palavras correm frouxas como se quisessem escoar as lembranças dos dias em que não podia se mexer, falar, comer e respirar por conta própria.
Chegando à cidade luz, dirige-se ao Campo de Marte. Compra os ingressos e enfrenta a subida de mais de trezentos degraus. No segundo nível, após apreciar as vitrines, dirige-se a passos largos ao Jules Verne. Escolhe a mesa com vista para o Trocadero. A decoração toda em preto faz com que o olhar seja atraído para a armação de ferro iluminada e a vista panorâmica. Observa a toalha, guardanapos, pratos, taças e talheres nunca vistos. Aceita a sugestão de Alain Ducasse: entrada - salmão marinado com limão acompanhado de caviar e vodca; prato principal - peixe com mousse de alho poró ao molho de figo acompanhado de um Chablis; sobremesa - creme brulée. Para dois.
Paredes e teto formados por elementos vazados que lembram colmeias permitem que as luzes coloridas se entrecruzem à maneira da estrutura metálica da torre. Bancos rentes às paredes remetem a cabines de trem. Sentado, plana sobre a cidade numa engenhoca criada por Júlio Verne em suas histórias fantásticas, ao som do tema da vitória.
Uma voz é sussurrada junto ao ouvido direito: - Fique calmo, campeão, você vai conseguir. Sente a mão que toca suavemente a sua cabeça raspada, em parte, e torce para que aquele momento dure para sempre.
- Este aí não amanhece o dia.
Tenta milhões de vezes dizer que está tudo muito bem, mas desiste. Resolve fazer manobras radicais equilibrando-se com perfeição sobre a Red Eyes - no lado esquerdo as ondas são extremamente tubulares. Entra no salão azul e perde a noção de tempo e de espaço. Acredita estar no ventre da natureza - sempre ouviu dizer que do outro lado seria assim.
Confuso, renasce. Sente-se energizado pelos raios do sol da manhã. Conta até dez, vinte, cem, duzentos, e a sensação de eternidade permanece. No entanto, algo mais forte o conduz em direção àquelas vozes.
- Que mau cheiro! Será que faz tempo que ele está cheio?
- Sei lá, a promoção fica para quem chegar depois.
- Guardei um pouco do leite condensado para você passar na bolacha...
O tique-taque se eterniza. Reúne forças, solta as amarras que prendem a mão direita. De súbito, puxa o tubo arrastando fragmentos misturados a muco, sangue e dor. O oxigênio torna-se simples lembrança. Uma picada solitária encerra a questão.
Encontra troças irreverentes que se misturam a maracatus, bonecos gigantes, escolas de samba e muito frevo. Sobe na porta do jeito que nasceu. A multidão aplaude freneticamente. Ergue os braços querendo abraçar o infinito. Agiganta-se, encosta nas estrelas. Contempla a Lua alinhada entre o Sol e a Terra, sabedor de que a fase é de introspecção, período fértil para grandes mudanças. Embaixo, milhões continuam a gritar campeão, campeão, campeão...

(conto baseado numa história real)


*Salete Rêgo Barros é arquiteta, parapsicóloga, escritora e ditora da Novoestilo Edições do Autor e produtora cultural executiva da Cultura Nordestina Letras & Artes.



4 comentários:

  1. Emocionou-me este conto que emprega tanto amor conjugando no tempo e no espaço! :)

    ResponderExcluir
  2. Agradecemos seu comentário e sua visita.

    Natanael Lima Jr
    Editor

    ResponderExcluir
  3. Que lindo encontrar poesia em meio a tanto sofrimento e dores. Mas, são nesses momentos que vemos a mão do Criador iluminando até o vale da sombra da morte.Sl 23: O Senhor é meu pastor e nada me faltará... Parabéns

    ResponderExcluir
  4. Caro Bruno, assim é a poesia. Agradecemos seu comentário e sua visita.
    Natanael Lima Jr
    Editor

    ResponderExcluir

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima