domingo, 25 de agosto de 2013


Joaquim Cardozo

por Fátima Quintas*











Joaquim Cardozo/Foto: Reprodução

Poeta e calculista, Joaquim Moreira Cardoso (com s mesmo, não se assustem) nasceu no dia 26 de agosto de 1897, no Recife, bairro do Zumbi, à época, região da várzea do Rio Capibaribe – nono dos doze filhos do guarda-livros José Antônio Cardoso e Elvira Moreira Cardoso. Precocemente lidou com a morte: no ano de 1909, sofreu sua primeira perda. Morre de tuberculose (a tísica), aos 23 anos, o irmão mais velho, José Maria Moreira Cardoso, seu mestre afetivo e intelectual, poeta parnasiano que o orientou nas primeiras leituras.

Mudou-se em 1910 – acompanhando a família – para a cidade de Jaboatão e iniciou os estudos no Ginásio Pernambucano do Recife, o mais importante educandário da década; aliás, sua excelência pedagógica estendeu-se por muitos anos. O traslado para o Recife acontecia de trem e possibilitava o encontro com futuros amigos da vida literária, como os irmãos Benedito e Honório Monteiro, moradores de Tejipió. A estação da Great Westen congregou um dos cenários desse convívio. Importante frisar o quanto o marcaram tais viagens, pois o trem tornar-se-ia uma imagem recorrente nos escritos de Joaquim Cardozo – basta lembrar o conto Na estação ou o poema Visão do último trem subindo ao céu.

Ingressou na Escola Livre de Engenharia em 1915, tendo que interromper o curso várias vezes, inclusive por dificuldades econômicas. Na verdade, levou 15 anos para concluí-lo. Somente em 1930 conseguiu formar-se, com a idade de 33 anos.

Poeta ligado ao Modernismo, porém com singularidades, a ponto de Audálio Alves chamá-lo de pós-modernista, Cardozo absorveu o regionalismo de forma veemente, uma fusão que fortaleceu sua capacidade perceptiva. Ao lado Gilberto Freire, Ascenso Ferreira e Vicente do Rego Monteiro, enraizou-se nas tradições populares do Nordeste sem, contudo, desconhecer o que de mais atual acontecia na Europa ou no Sudeste do País. Entrecruzou a visão externa com o atavismo necessário a um processo endógeno. Homem culto, de modéstia exemplar, exortava a sabedoria dos humildes. Seus poemas são plenos de melancolia e introspecção. Mescla traços líricos numa dimensão moderna, sem abraçar o modernismo em totalidade. A leveza dos versos mostra a liberdade de expressão: “Naquele velho sobrado/ Da praia de Santa Rita? Eu via a noite chegar/ Eu via estrelas luzentes/ Erguendo o voo, subindo/ Da superfície do mar”.

Conheceu Oscar Niemeyer – ocasião em que assessorava o primeiro gabinete do Serviço de Patrimônio, Histórico e Artístico Nacional (Sphan) – de quem se tornaria amigo e calculista das principais obras. A arquitetura de Brasília, na forma original, deve-se à genialidade de Niemeyer e à capacidade de execução do calculista e poeta Joaquim Cardozo, que conseguiu traduzir matematicamente as diversas peripécias. Durante 12 anos, entre 1942 e 1954, trabalharam em parceria.

Não se pode esquecer a ligação com Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, tendo este último afirmado ter recebido influência do amigo matemático. A ligação era tão íntima que jantavam juntos quase todos os dias. Uma curiosidade: Joaquim Cardozo tinha fama de saber de cor todos os seus poemas e de falar em torno de quinze idiomas, o mandarim entre eles.

O poeta, calculista, exímio matemático, Joaquim Cardozo faleceu em 4 de novembro de 1978, com 81 anos, em Olinda. E o Brasil tem consciência de seu valor como poeta, calculista, contista, ensaísta e homem de integridade inabalável.


*Fátima Quintas é antropólogo, escritora, ensaísta, cronista e atual presidente da Academia Pernambucana de Letras








Poemas de Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Audálio Alves, Mauro Mota, Ascenso Ferreira


Chuva de caju
Joaquim Cardozo
(1897 – 1978)



Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.



O cão sem plumas
João Cabral de Melo Neto
(1920 – 1999)



A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.



O bicho
Manuel Bandeira
(1886 – 1968)



Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.



Cântico dual
Audálio Alves
(1930 – 1999)



De Deus a mim,
nenhum segredo cabe:

Vivemos sempre a sós,
os dois, perenemente;
o pouco que aprendi
(da morte)
Deus o sabe.

O que meus dedos tocam,
agora,
Deus o sente:
Silêncio algum separa
meu canto de seu canto
que o sol nos une e abre
visão de outra visão.

A cor de minhas vestes
mudamos,
Deus o sabe:
A vida se consente
em Nós, presentemente,
e sendo a morte o fim
em minhas mãos não cabe. 



Humildade
Mauro Mota
(1911 – 1984)


  
Que a voz do poeta nunca se levante
para ter ressonâncias nas alturas.
Que o canto, das contidas amarguras,
somente seja a gota transbordante.
Que ele, através das solidões escuras
do ser, deslize no preciso instante.
Saia da avena do pastor errante,
sem aplausos buscar de outras criaturas.

Que o canto simples, natural, rebente,
água da fonte límpida, do fundo
da alma, de amor e de humildade cheio.

Que o canto glorificará somente
a origem, quando mais ninguém no mundo
saiba ele de quem foi ou de onde veio.



Misticismo
Ascenso Ferreira
(1895 – 1965)



Na paisagem da rua calma,
tu vinhas vindo… vinhas vindo…,
e teu vestido era tão lindo
que parecia que tu vinhas envolvida na tu’alma…
Alma encantada;
ama lavada
e como que posta ao sol para corar…
E que mãos misteriosas terão feito o teu vestido,
que até parece o de Maria Borralheira,
quando foi se casas…!
Certamente foi tecido
pelas mãos de uma estrela fiandeira,
com fios de luz, no tear do luar…
no tear do luar…
O teu vestido era tão que parece o de Maria Borralheira
quando foi se casar…
“Cor do mar com todos os peixinhos…!
Cor do céu com todas as estrelas…!
E vinhas vindo… vinhas vindo…
na paisagem da rua calma,
e o teu vestido era tão lindo

que parece que tu vinhas envolvida na tu’alma…






2 comentários:

  1. Olá amigos,
    Uma linda coletânea compondo um ótimo post, para encher de inspirações essa semana que se iniciou..
    Beijos a todos e parabéns sempre pelo lindo trabalho.
    Muito bom estar aqui e poder prestigiar.
    Joelma

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  2. Olá Joelma, agradecemos muito sua atenção e carinho conosco.
    Abraços,
    Natanael Jr
    Editor

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima