domingo, 11 de agosto de 2013


Ao pai que escolhi para meus filhos

por Salete Rêgo Barros*












Img: Reprodução




Mais de quatro mil anos e onze mil quilômetros nos separam da origem do Dia dos Pais, quando um jovem babilônico chamado Elmesu moldou e esculpiu em argila um cartão com os seguintes dizeres: “Pai, tenho em você a figura de um mentor, seu exemplo moldou minha personalidade e me transformou no homem que hoje sou. Desejo saúde e vida longa a ti, meu Mestre, meu Senhor, meu Pai.”

No Brasil, em 1953, um publicitário chamado Sylvio Bhering propôs que a comemoração do dia dos pais fosse feita no mês de agosto, visto ser este um período de pouco movimento para o comércio. O fundador das organizações Globo, Roberto Marinho, acatou a sugestão e instituiu o segundo domingo de agosto como sendo o Dia dos Pais, diferentemente de vários países que comemoram a data em outros meses. Coincidentemente, na época, presidia o país, Getúlio Vargas, considerado o Pai dos Pobres, por ter criado as leis sociais e trabalhistas entre outras coisas.

Enquanto Elmesu reconhecia a importância do pai em sua vida, Sylvio e Roberto reconheciam a importância dos pais na vida do empresariado brasileiro. O primeiro agiu movido pela razão e pela emoção; os outros dois, apenas, pela razão, ao que tudo indica, já que a intenção era incentivar o consumo e multiplicar o faturamento do jornal O Globo. Deu certo.

A construção do pensamento ocidental é marcada pela dicotomia, onde a razão é colocada como algo superior, enquanto que a emoção como algo que precisa ser controlado. Emoção é experiência única. Incomparável. Inesquecível. Energia do amor e do ódio. Mola propulsora da criatividade. Combustível da vida. Segundo Khalil Gibran, a razão e a paixão são o leme e as velas da alma navegante.

A obrigatoriedade de presentear os pais pode se tornar desnecessária tanto para quem dá, quanto para quem recebe, porque temos de reconhecer que a atitude de Sylvio e Roberto, que vem influenciando o comportamento de milhões de brasileiros há sessenta anos, não foi a mesma que motivou os belgas e portugueses, por exemplo, a comemorar a data no dia 19 de março, dia de São José, pai adotivo de Jesus, ou os americanos, em junho, mês do aniversário do pai de Sonora Luise, que resolveu homenageá-lo com a criação da data, motivada pela admiração que sentia por ele.

Apesar de todos os apelos ditados pelo marketing, lojas podem vender presentes, jamais a emoção de um pai quando amado, respeitado e admirado por um filho, na eternidade de cada momento. E este presente não precisa ser dado, porque já lhe pertence, segundo as suas obras, reza a lei que rege o Universo.


*Salete Rêgo Barros é escritora, arquiteta, parapsicóloga e editora da Novoestilo Edições do Autor e produtora cultural executiva da Cultura Nordestina Letras & Artes.







Poemas de Florbela Espanca, Carlos Drummond de Andrade, Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e Graça Graúna






Poema para o Dia do Pai*
Florbela Espanca

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Ter um Pai! É ter na vida
Uma luz por entre escolhos ;
É ter dois olhos no mundo
Que vêem pelos nossos olhos!

Ter um Pai! Um coração
Que apenas amor encerra,
É ver Deus, no mundo vil,
É ter os céus cá na terra!

Ter um Pai! Nunca se perde
Aquela santa afeição,
Sempre a mesma, quer o filho
Seja um santo ou um ladrão;

Talvez maior, sendo infame
O filho que é desprezado
Pelo mundo; pois um Pai
Perdoa ao mais desgraçado!

Ter um Pai! Um santo orgulho
Pró coração que lhe quer
Um orgulho que não cabe
Num coração de mulher!

Embora ele seja imenso
Vogando pelo ideal,
O coração que me deste
Ó Pai bondoso é leal!

Ter um Pai ! Doce poema
Dum sonho bendito e santo
Nestas letras pequeninas,
Astros dum céu todo encanto!

Ter um Pai! Os órfãozinhos
Não conhecem este amor!
Por mo fazer conhecer,
Bendito seja o Senhor!

*In Poesia 1918 – 1930
  Lisboa: Dom Quixote, 1992]




Encontro*
Carlos Drummond de Andrade

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Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

*In Claro enigma, 1951




Desejo de meu pai
Natanael Lima Jr

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Unido ao teu desejo
eu te vejo nas noites, sereno
a tocar meu rosto,
acalmando meus pesadelos.

Unido ao teu desejo
eu te vejo nas noites, solidário
a sustentar meus passos
vacilantes e trôpegos.

Unido ao teu desejo
eu te vejo nas noites, distante
a passear entre os astros,
colorindo as estrelas.

Unido ao teu desejo
eu te vejo nas noites, único
eterno amigo dos sonhos.




Intervias
Frederico Spencer

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“Ora (direis) ouvir estrelas!”
Por certo! Ser de onde se aninha o poema
deita nas noites sua semente
distante e quente, amanhece
taciturno em minhas mãos.
“E eu vos direi, no entanto”
que na pauta do dia
escondidos, dialogamos
neste espaço de aço e gente
no caderno, ou da mais distante galáxia
vai nascer, quebrando a ordem do dia.
E quando nascer
talvez menos estrelas terá o universo
nos meus ouvidos
menos uma canção.




Macunaíma
Graça Graúna*

Img: O Batizado de Macunaíma de Tarsila do Amaral – 
Óleo sobre tela: 132,5 x 250 cm












Do fundo da mata virgem
ele ri mui gostosamente alto
e diz: – ai que preguiça!

Coisa de sarapantar
os sons e os sentidos
espalham-se
um
três
trezentos
amarelos
brancos
pretos retintos
pícaros/ícaros
Brasil
brazis
crias de um homem submerso

*Graça Graúna é escritora, educadora universitária na área de Literatura e Direitos Humanos. Edita o blog Graça Graúna (RN)





5 comentários:

  1. Realmente imperdível Domingo com Poesia , com esse texto de Salete Rêgo Barros

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  2. Agradecemos seu comentário e sua visita.

    Natanael Lima Jr
    Editor

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  3. Muito obrigado pelo comentário, para nós que fazemos o domingo com poesia é muito bom quando encontramos comentários em nossa caixa, dá rumo aos nossos trabalhos.

    Frederico Spencer
    Editor de Texto

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  4. Muito boa a análise dos Dias dos Pais feita por Salete Rêgo Barros, vivemos em uma sociedade capitalista, que infelizmente transforma qualquer evento em uma máquina corporativa financeira ou numa plataforma política. Os valores que damos aos nossos genitores independe de datas especiais e sim de transmissão de valores, o que aqui no Brasil, depende de uma reeducação ética.

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  5. Caro Maurício,

    Este é um espaço plural e democrático. Agradecemos todos os comentários.

    Natanael Lima Jr
    Editor

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima