domingo, 9 de junho de 2013


O Cavaleiro de Versos

Frederico Spencer*















César Leal/Foto: Reprodução
(1924 – 2013)


Poeta, crítico literário e jornalista, César Leal aportou na Cidade do Recife, vindo do Estado do Ceará para defender, com a caneta nas mãos e sua poética como bandeira, a poesia pernambucana, transformando-se num de seus maiores divulgadores. Como trincheira assinou o caderno Panorama Literário do Diario de Pernambuco, para dar voz e espaço para aqueles que se propuseram a entrar na guerra.

A geração 65, um dos principais movimentos literários do país, oriundo dos becos e vielas da Cidade de Jaboatão dos Guararapes, encontrou seu canal de voz, quando os poetas Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo, colocaram nas mãos de César uma coroa de sonetos e outros poemas políticos. Foi o bastante para incendiar as páginas do jornal e os guetos das cidades do Recife, Jaboatão e Olinda, de onde uma tropa de elite da poesia pernambucana levantou-se e mostrou seus poemas/armas, em plena década de 60.

César, qual seu xará de Roma, invadiu universidades e imprimiu seu tempo. Tornou-se professor de literatura emérito da UFPE, fundou a Revista Estudos Universitários, da qual foi seu editor durante quarenta anos. Foi o primeiro poeta de língua portuguesa a ter seus poemas gravados para o acervo fonográfico da biblioteca de Harvard (EUA). Publicou mais de trinta títulos entre poesia e crítica literária.

Recebeu várias comendas, dentre elas se destaca o título de Cidadão Pernambucano e o título de Cavaliere da Ordem do Mérito da República Italiana, outorgado nos anos 80. Foi também membro-titular do Conselho Federal de Cultura (MinC), do Conselho de Liberdade de Expressão do Ministério da Justiça e do Conselho Diretor da Fundação Joaquim Nabuco.

Pelo conjunto da obra foi agraciado em 2006 com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Em 2007 foi eleito para a cadeira de número 23 da Academia Pernambucana de Letras.

Da cena sai o homem, mas sua obra permanece. César encantou-se neste junho de chuvas na Cidade do Recife, lavada pelos versos de tantos poetas que pelas suas mãos floresceram, banharam-se no Capibaribe e se tornaram realidade, qual as casas de massapé que habitam suas margens enfrentando agora as diversidades desse tempo.

*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo




Dois poemas de César Leal

Análise da Sombra
  
Analisa-se da sombra
seu caráter permanente:
pela manhã retraindo
a imagem, à tarde crescente.
E aquele instante em que a sombra
adelgaça o corpo fino
como se no chão entrasse
quando o sol se encontra a pino.
Quem a esse instante mira
em oposição ao lado
onde o sol era luz antes
logo vê o passo vago
da sombra que agora cresce
o corpo de onde se filtra
até fundir-se no limbo
que em torno dela gravita.
Forma esse limbo a coroa
que as sombras traz federadas:
soma de todas as sombras
num só nó à noite atadas.



Sutilíssimo Eterno
  
Sutilíssimo eterno que habita
minhas saletas interiores
onde trago o tempo guardado
noturno e resignado
sutilíssimo eterno interior
que como um tálamo é
em minha alma limpa e sofrida
como água dormida em pedra
que eterna seiva alimenta
este tempo em mim retido
plumagem livre de flor
forma exata imperecível
sinto-te assim como um trunfo
branda coroa do eterno
além das nuvens, das águas
ouço o teu metal desperto
se existes no ser completo
na cinza móvel das sombras
por que retiras de mim
tudo o que em mim não é pântano?




 Ave, Samuca Santos

Samuca faleceu na noite de quinta-feira.
Foto: Reprodução


Faleceu às 23h30 da noite da quinta-feira (06) o poeta Samuel Ferreira dos Santos, conhecido como Samuca Santos.
Samuca nasceu em Recife em 1960, escreveu os livros Nos arredores da festa (1981), Estopim (1981), Amarginal (1990), +Alguns (2008) e 7 Contos & uns Trocados (2011), além de ter participado de coletâneas como Marginal Recife 2 (2003). Também teve poemas publicados em diversos fanzines e jornais. Ele participava ativamente de publicações editoriais independentes e também era radialista de programas de emissoras de rádio FM, como a Cidade.


Dois Poemas de Samuca Santos
  
Poema frito na língua
  
da janela
maré enchendo
no mangue do quintal

saúnas festejam não-sei-o-que
aratus sobem nas cercas
os barcos, sábios
não dizem nada, balançam

e a manhã tem dois caminhos:
a espiral dos erros
as esquinas do caos
e um terceiro, inominável
e surdo, hermeticamente calado

não suporto esses dias
que começam com poemas assim



Ars poética

A ideia está no ar
Pegue-a
Usando a suave firmeza
Com que se aperta
A mão do amigo: quente
Nem morno nem brasa
A mão que acalma o filho
Molda-se na argila
E faz versos pra amada
Pegue
Areia pra fazer cristal
Farinha pra bolo de feijão
Matéria espiritual
Carinho zelo tesão
Agora solte o poema







Poemas de Natanael Lima Jr, Juareiz Correya, José Terra e Alberto Lins Caldas


Poema para uma quarta-feira em cinzas*
Natanael Lima Jr


Imagem: Reprodução













nada além de uma noite vazia
sem gozo
sem brilho


des
    c
    o
    l
    o
    r
    i
   d
   a

nossos corpos envolvidos
numa cinza paixão
de uma quarta-feira
sem vida

*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas”, 2011, p. 77




Inferno do Recife
Juareiz Correya

Imagem: Reprodução












Fechou-se o tempo.
Abriu-se o mar do céu. 
O Recife é um arquipélago submerso.
Continente perdido, terra de ninguém.
Chove na cidade inteira :
Mais fodida do que a sua gente. 
A chuva não é um prazer, um gozo cósmico.
E não fecundará nada. 
Mergulhamos no Inferno do Inverno !

(Recife, 5 de junho/2013)



Minha namorada*
José Terra

Imagem: Reprodução













Meus Deus
será minha namorada emprestando luz à solidão ?

É minha namorada nas raízes do Brasil
com a cruz de Pernambuco ?

Será minha namorada
ensinando vinho e verso no dia da paz ?

É minha namorada com a rosa dos amantes
e o perfume das alquimias ?

Será minha namorada
pregando a poesia, o poema e o amor
com carmins e jasmins ?

É minha namorada lotando de seda os peões ?

Amo a minha namorada clássica
ela pula comigo a catraca do ônibus 
come lanche de moedas
vai ao cinema dos sem-terra e sem-teto
e se faz rainha na chincha

*( do livro " POESIA DO MESMO SANGUE ", 2007, EM PARCERIA COM O POETA JUAREIZ CORREYA )




Alberto Lins Caldas


*
● menos pedra menos cascalho menos lixo ●
● nesse espaço assim tão plano e velho ●
● sempre vincado do q não se torna arável ●

● pedra sobre pedra e cascalho nas bordas ●
● tudo assim sem entranhas sem sangue ●
● lavra seca so esturricada e fuligem dura ●

● não se caminha nas palavras nem avança ●
● a poeira nessas brechas do não dito dito ●
● pois não ha novas plantações no sem fim ●

● não caminhamos faz tempo e tanto vazio ●
● q nem se sabe mais nem qual caminho ●
● q so espreita e fere e torna tudo so igual ●

● levantar as mãos chupar as pedras o pó ●
● sete vezes quanto mais melhor e pior ●
● porq a terra assim se afasta e não se diz ●

● é so um falar pra nada em ondas e nada ●
● o corpo cede as pernas tremem e nada ●
● o antes não transborda e não se diz nada ●

*


















“Meus Domingos com Poesia”
por Márcia Maracajá* 


Troféu Top Blog Brasil 2012



Há alguns meses, tenho feito de meus domingos um encontro saboroso com a poesia. Não que antes a poesia nos domingos inexistisse, fosse dar uma volta e me deixasse. O fato é que como não frequento igrejas, templos, casas de oração, dediquei-me a visitar os domingos poéticos como missão, compromisso firmado e encontrado nas letras e na alma de outros poetas. Uma rotina que venho cumprindo sem sofrimento (eu que sou aquariana com ascendente em sagitário, toda vento, marcada pela inquietude e pela liberdade de se ser), me dou a esse prazer, de parar e ficar pela poesia. E aos domingos é o que tenho feito.

Convidada por Natanael Jr., editor do Blog DOMINGO COM POESIA, tenho feito parte dessa consagração a que todos nós, fieis amantes dessa artepermitimos nos entregar, abrindo os braços e acolhendo, recebendo e compartilhando o que é nos dado e não podemos represar. A poesia está para quem a ela se permitir sem intenção de com ela escravizar. E por isso mesmo acredito que o trabalho do DOMINGO COM POESIA destaca-se no cenário pernambucano, nacional.

É tardio meu comentário, mas oportuno. Enquanto eventos vários são executados em torno da poesia aqui em Pernambuco, trabalhos como os do Blog DOMINGO COM POESIA - que recebeu premiação nacional do TOP BLOG BRASIL 2012, concorrendo com 18 mil blogueiros inscritos, colocando-se no 2º LUGAR da categoria LITERATURA, e único blog nesta edição a representar o Nordeste - fica de fora da cena literária, das rodas, dos encontros, e Pernambuco se perde nas mesmas rodas, no redemoinho evocativo dos egos suplicantes, da confusão dicotômica e silenciosa  a quem devem os merecidos(?) lugares nas cadeiras, tamboretes e afins atribuídos aos poetas/escritores (com livro ou não), se dirigidos aos intelectuais certificados com graduação nivelada em alto nível, aos seus próximos (nem tantos assim), ou aos poetas soltos por aí e que libertam a sua poesia.

Vejo muita gente se endividar pela publicação de livros, que sem o impresso fica difícil de fazer e falar de poesia. Ouço muita gente dizer que escreve poesia. Até saem na mídia (várias delas), acho interessante. Legal. Mas onde está a poesia, além das panelas? Tem poeta que nem sequer tem livro,  nem um folhetinho distribuído, não compartilha nenhuma poesia pra gente, sedentos leitores, apreciadores da poesia e de conhecê-los, e estão fazendo cena. É intrigante... ai ai Pernambuco...

Mas, eu vim aqui pra falar da poesia LIVRE, hermana, despanelada, agregante, companheira na luta pela democratização das ideias. Vim falar de poesia não para autopromoção, vendagem de livros, nem pra ganhar uns trocados e subir num pedestal, mesquinharia que coopta sutilmente quem luta por um espaço pra falar do que acredita, mas se troca por um pouco que parece muito, esquecendo os seus iguais.

Meus domingos têm sido de poesia, já falei, e por isso mesmo escrevo esse texto, para agradecer ao editor do Blog DOMINGO COM POESIA por inserir a poesia pernambucana no cenário nacional como ele tem conduzido tão bem. Agradeço por divulgar meu blog e minha poesia, que deixa de ser minha a partir do momento em que solto pro mundo, assim como a de colegas e gente brilhante que tem feito poesia com essa alma nossa, gratuita.

Fica aqui registrado o meu apreço pelo trabalho do DOMINGO COM POESIA, na pessoa de Natanael Jr., e desejo de vida longa e sucesso para a renovação de outras conquistas, que certamente estão por vir.

Meu abraço fraterno e minha poesia.



*Márcia Maracajá é escritora blogueira, performer literária e consultora textual






2 comentários:

  1. Há tempos não via algo tão instigante e inspirador quanto este Domingo com Poesia. Parabéns, Natanael Lima Jr.

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  2. Agradecemos seu comentário e visita.

    Natanael Lima Jr
    Editor

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima