domingo, 24 de março de 2013


Da Preguiça


por Marcus Accioly*














Img: Os avarentos e pródigos empurrando suas pedras
 no Quarto Ciclo, Gustavo Doré.



É no quarto patamar do Purgatório que o poeta Dante Alighieri coloca os preguiçosos, sob o peso de enormes pedras. Considerando a extraordinária imagem – a imobilidade da preguiça sob a imobilidade da pedra – o castigo é exemplar. O preguiçoso é um Sísifo de si mesmo, a preguiça que leva é sua pedra: a pedra dele mesmo nele próprio. O preguiçoso já se autocarrega. É um camelo com sela das corcovas e, embora não conduza cavaleiro, sempre parece um animal exausto. Dispondo do seu tempo em demasia, sua preguiça não dispõe de espaço. Salomão fala dele nos Provérbios, ou da sua desculpa permanente: “Um leão está lá fora, serei morto no meio das ruas”. Nada é mais deplorável do que ver um preguiçoso levantar-se: ele se espreguiça, geme e, como uma criança que se esconde, põe as costas das mãos sobre os olhos e se defende contra o sol já alto. Feito o cupim, o preguiçoso tem ojeriza à luz e, igual ao avestruz que, como o corpo de fora, põe a cabeça dentro de um buraco, ele se mete sob o travesseiro. Não há despertador que o desperte. O sono – esse “irmão da morte” – para Kháyyám – ou “noivo pálido” – para Castro Alves – é todo o seu deleite.

Um dos sete pecados capitais, a preguiça só pode ser batida pela inveja, Daí porque Dante assinalou os invejosos com os olhos costurados de arame. Mas, se a inveja entra pelos olhos, a preguiça se infiltra pelos ossos e se instala, sem pressa, na medula. De acordo com Luís da Câmara Cascudo – Dicionário do folclore brasileiro – foram os portugueses, quando do Descobrimento, que batizaram o mamífero xenatro, pela sua excessiva lentidão, de bicho-preguiça. Inúmeras são as estórias e lendas sobre o animal, como aquelas em que foi incumbido de chamar os tocadores para uma festa dos bichos e, três dias depois, não chegou ninguém. Revoltados, os animais resolveram dar uma lição na preguiça, caso ela voltasse. Atrás da porta, sonolenta, porém ouvindo tudo, a preguiça desabafou: “Então, eu não vou chamar os músicos”. Tão impressionante como o tamanho e a forma do carrapato da preguiça – uma bola de golfe cheia de sangue – são as traças brancas que se entranham nos seus pelos. Prevenida, ela não se alça em nenhum cipó sem testá-lo antes. Afirmam uns, que a preguiça bebe água pelo ânus (jamais eu comprovei tal indolência). De certo que a lentidão discreta de uma das seis propostas para o próximo milênio – a rapidez – de Ítalo Calvino, que cita o cavalo como emblema da velocidade, também mental. São incontáveis os sinônimos da preguiça: ignávia, inércia, ociosidade, inatividade, indiferença, prostração, imobilismo, estagnação, morosidade, moleza, molúria, malevolência, pachorra, mandriice lentidão, ócio, desleixo. Diz um dito – “A preguiça é a mãe de todos os vícios” – e há quem diga que ela também é a mãe de todos os vices. A preguiça tarda, retarda, atrasa. Como só se toma leite cedo e sorvete tarde, o governador Eduardo Campos classifica os seus auxiliares de “leiteiros” e “sorveteiros”.

Jorge Amado andou divulgando (de brincadeira – claro) que Dorival Caymmi era o homem mais preguiçoso do Brasil. Até hoje corre a notícia de que ele compôs a música – Maracangalha – de 18 versos, em 19 dias, mais ou menos, assim: no 1º dia Caymmi escreveu o 1º verso: “Eu vou pra Maracangalha”. No 2º dia repetiu: “Eu vou!”. No 3º dia ele escreveu o 3º verso: “Eu vou de uniforme branco”. No 4º dia repetiu: “Eu vou!”. No 5º dia fez o 5º verso: “Eu vou de chapéu de palha”. No 6° dia repetiu: “Eu vou!”. No 7º dia fez o 7º verso eu vou convidar Anália”. No 8º dia repetiu: “Eu vou!”. No 9º dia fez o 9º verso – “Se Anália não quiser ir” – e concluiu no 10º dia: “Eu vou só”. Depois escreveu no 11º dia – “Eu vou só!” – e no 12º dia – “Eu vou só!”. No 13º dia repetiu o 10º verso – “Se Anália não quiser ir” – e repetiu no 14º, 15º e 16º dias: “Eu vou só! / Eu vou só! / Eu vou só!”. No 17º dia ele juntou os versos: “Eu vou só sem Anália” – e, finalmente, no 18º dia ele concluiu a canção: “Mas eu vou!”. Afinal não se fica sabendo se ele foi para Maracangalha e, no caso, se foi com Anália, ou não.


*Marcus Accioly é poeta e membro da Academia Pernambucana de Letras












POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER, MÁRCIA MARACAJÁ E MÁRCIA SANCHEZ LUZ






Meu poema não faz silêncio*
Natanael Lima Jr


Imagem: Reprodução












meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo:
trago-o como herança no sangue
que pulsa e sangra
nos ombros do mundo

meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo:
trago-o como navalha que corta
o curso provinciano das horas

meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo:
trago-o de corpo e alma
pujante, visceral

meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo:
trago-o como primavera
em cada amanhecer

*In “À espera do último girassol & outros poemas”, 2011.




Outros tempos*
Frederico Spencer


Imagem: Reprodução














Construir novos sonhos
nesses tempos de silos
vazios, meus olhos
pousaram leve
sobre os teus
quando chegastes
foi bruma, rastro de pólvora
também, no paiol vazio
a lembrança da chama se acendeu:
clarão fugidio das sombras
na trama da luz que se estendeu
te desenhou na minha caverna, vazia.

*do Livro inédito “Código de Barras”.




Abandono poético
Márcia Maracajá*


Imagem: Reprodução
















O poeta me abandonou
Não entra mais nos meus espaços
Vácuos
Preenchidos
Virtuais
Nenhum deles

O poeta silenciou suas letras
Pra mim tão sua
Nas horas que fui dele
Nas horas que quis
Eu dele ser minha
Em sua poesia

Poeta mau
Me cativou e agora
Ao abandono estou entregue
Em saudade
Posta para em derradeiro suspiro
A escrever sobre a poesia que não foi
Nem será por nós

Nada a me saciar neste dia abafado
A fruta que degustaria
Com o líquido quente
Adoça a boca de outra
E o poeta metaforiza o calor
De sua paixão

Poeta, me deixaste
Eu toda sua em saudade
Do beijo
Do abraço
Do amor
Das horas mergulhadas em prosa e verso
Nas madrugadas e dias inteiros
Do que não vivemos

*Márcia Maracajá é poeta e edita o “blog Márcia Maracajá” (PE)




Liberdade
Márcia Sanchez Luz*


Img: Ninfa Azul Sonhando –
Ana Luisa Kaminski
















Para alcançar-te em mares, destemido
senhor dos próprios atos, como faço?
Se vou buscar-te a nado, adormecido
fica meu corpo todo. E sem teus braços

como é que posso estar sem ti comigo?
Ao te buscar descubro que o fracasso
é não tentar (ainda que o castigo
venha) lutar pelo meu próprio espaço.

Assim nos é possível prosseguir
(mesmo que por caminhos diferentes)
a vida que escolhemos partilhar.

Amor não é tristeza a nos trair
os sonhos e os desejos mais ardentes.
Quem tem grilhões não sabe o que é amar.

*Márcia Sanchez Luz é poeta e edita o “blog O Imaginário” (SP)










Diga aí!


“Enquanto meio de conservação do indivíduo, o intelecto desenvolve suas forças principais na dissimulação; esta é, com efeito, o meio pelo qual os indivíduos mais fracos, menos robustos, subsistem, na medida em que lhes é recusada a possibilidade da luta pela existência com os cornos ou os dentes de um predador. Com o homem esta arte da dissimulação atinge o auge.” (Friedrich Nietzsche – Filósofo alemão)




Diga lá!



“A modernidade nos deixou como herança um enorme desenvolvimento tecnológico, mas nos deixou também uma absurda crise social, ambiental, econômica, por isso desmorona em consequência de sua própria exaustão. A sociedade moderna que nasceu e se constituiu como promessa de futuro, um futuro melhor construído pela ciência, acabou de fato não privilegiando ninguém: diante da violência em grande escala e da iminência de desastres ecológicos, somos todos iguais.” (Viviane Mosé – Mestra e Doutora em Filosofia)








2 comentários:

  1. Inicia-se com um show de Marcos Accioly sobre a preguiça. Fiquei encantada com o texto. O Nathanael mostrou o barulho de seu silencioso poema, muito lindo. Seguindo a encantar a intensidade de Frederico Spencer e a sempre marcante poesia de Márcia Maracajá que sempre me convence.Encerrando com o brilho de Márcia Sanchez Luz sobre o amar. Perfeito. Ler e reler o que encanta e entender como a alma pede que entendamos. "Diga aí" e "Diga lá" sempre estimulando o pensar. E assim começamos uma semana, pensando, num final de noite, antes da cama que já nos chama. Boa semana, boa Páscoa a todos.

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  2. Estamos nos deliciando do seu comentário, poético-literário que só nos deixa mais entusiasmado para continuar a nossa jornada de semear poesias no coração da vida

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima