sábado, 16 de março de 2013


Ao Vagar das Horas


por Fátima Quintas*












Imagem: Reprodução
  

Quando a luz se apagava e o silêncio se fazia notar na penumbra da praça da vila; quando os pássaros arribavam em respeito ao prenúncio da noite; quando homens e mulheres retiravam as cadeiras da calçada após a prosa espontânea de final de dia; quando o ônibus diminuía a sua marcha, quase parando; quando a atmosfera recebia a aragem da serra do Agreste; quando os postigos das janelas cerravam a claridade última; quando o vizinho agradecia o boa-noite do amigo; quando os carros já se faziam ausentes na rua habitada; quando o corpo parecia reclamar o descanso do dia; quando a cozinha limpa e asseada aguardava o amanhã: — Maria Vitorina se entregava aos volteios da noite insone.

Nunca sabia o que fazer naquela hora tão solitária. Da janela avistava os passos se findando, a noite em plena invasão; ela jamais conseguira a paciência do aguardo dos minutos, o futuro. Lia a página de um livro, atirava-o sobre o tampo liso e envernizado da mesa, lá repousando em estado inerte as folhas escritas por algum autor desconhecido — sequer concentrava-se na leitura dos parágrafos iniciais. Andava pelo corredor. O pensamento evocava visagens outras, delírios.

Se os anos de um querer a mais roubassem do tempo as horas que lhe foram subtraídas; se a pele ressequida se transmudasse na juventude inalterada, sem avanços nem recuos, estática; se o encontro com Emerenciano durasse até hoje; se aquele amor de juras eternas não se dissolvesse com a morte precoce; se os filhos a visitassem assiduamente, pelos menos um dia sim, um dia não; se a irmã não se incomodasse de aceitá-la como ela era; se os ruídos de antigas emoções acalmassem o sofrimento anterior; se o cão a acompanhasse nos corredores da casa, a roçar em sua pernas, a deixar o pelo no vestido de algodão fino, a ameigá-la com o latido choroso, a pular para o seu colo, passivo, atento; se o padeiro não retardasse a entrega da encomenda, dois pães pelo café da manhã e apenas dois ao cear, nenhum outro em lanches levianos; se os dedos bailassem sobre o teclado do piano os Noturnos de Chopin ou as sinfonias de  Beethoven; se a ressurreição a tomasse de repente; se a casa fosse a mesma, com os mesmos ruídos dos filhos brincando, fuxicando, brigando, tagarelando; se a vida retomasse o seu princípio: — Maria Vitorina não temeria as horas vagarosas.

Mas os minutos se arrastavam. E já foram tão rápidos, céleres, enganadores na implacável cronologia! Tudo mudara. Ela se agoniava a cada pegada percorrida, ia, vinha, perdia-se na intensa solidão. A casa pequena, o vão de passagem estreito, havia sombras permanentes nas paredes. Alguns retratos, sim; outros, fantasias que habitavam o porão das lembranças. A noite a amedrontava, Maria Vitorina conhecia os retábulos de um sentir já dorido. Desde quando se acomodava àquela situação? Na pacata vila, ninguém a conhecia; moradora de poucos anos, para lá se instalara, fugindo dos excessos da capital, cidade grande, cheia de ilusões e de bofetadas na cara — já não lhe pertencia o espaço urbano; ainda bem que a pequena horta no fundo do quintal servia-lhe de lazer, gostava de plantar e de semear os frutos da colheita. Uma vida sem cor, anônima, avara em reciprocidade de sentimentos.

Logo o relógio tocaria dez horas e ela começaria a rezar; logo iria ler a bíblia para acalmar os nervos à flor da pele; logo deitaria o feijão na panela, com alguma água para amolecer os grãos, velho hábito que nunca largou, apetecia-lhe cultuar tradições, nunca lhe fizeram mal as crendices de outrora; logo riscaria o dia no calendário, matando-o friamente, menos uma jornada a cumprir, o ritual se celebrava com caneta à mão, a fulminar o X irreversível; logo o guarda noturno apitaria e ela se sentaria no banco da cozinha com o retrato de Emerenciano; logo choraria lágrimas ocultas como fazia ao longo da madrugada: — Maria Vitorina tinha consciência do vagar das horas da noite insone.


*Fátima Quintas é escritora, ensaísta, professora universitária, presidente da Academia Pernambucana de Letras.








POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER, TACIANA VALENÇA E ANTONINO OLIVEIRA JÚNIOR




Voz por toda parte*
Natanael Lima Jr


Imagem: Reprodução











um acordo fiz contra o acordo:
sangrar de vez a voz
e ser grito e lábios eternamente

um acordo fiz contra o acordo:
ser palavras qual extensão da vida
e ser mãos, olhos e alma

um acordo fiz contra o acordo:
jamais limitar os sonhos
e viver até desflorescer

um acordo fiz contra o acordo:
jamais ressuscitar a dor,
ser amor presente
e voz por toda parte


*In “À espera do último girassol & outros poemas”. 2011.





No caderno, o tempo
Frederico Spencer


Imagem: Reprodução












Aprisionado o tempo no caderno
desbota de amarelo as palavras
sobre o linho, descansam os poemas
na cal da noite, se tecem
ao amanhecer, fecham-se em seus ninhos.
A pena debruçada no tempo
sobre o tecido enrugado das palavras
já não busca os sentidos
nem o sexo das manhãs, inventadas.
No branco do papel, a trava do tempo
deixa  suas marcas, transparentes
num animal dolente, pesam como patas.



Perceba
Taciana Valença*


Imagem: Reprodução












Perceba que estou em ti
num sussurro leve durante  teu dia
soprando em teu ouvido amor em poesias...

perceba meus dedos
em tua pele desenhando
um coração que te agasalha sonhando

perceba que estou em ti
além de beijos e desejos
além de tudo que estar por vir...


*Taciana Valença é poeta e edita a Revista “Perto de Casa”.





(des)construindo
Antonino Oliveira Júnior*
  

Imagem: Reprodução











O coração em (des)compasso
Sentimentos doídos e (re)movidos
E dois seres quase em (des)amor...

Uma vida (re)marcada
Por uma triste história
(re)escrita e (re)montada
E tantas vezes (re)contada a dois.

Ainda assim,
corações (re)visitados
(re)buscaram forças
para (des)começar a solidão
e tentar a seu modo, a seu jeito
(des)construir o sofrimento vão
E (re)construir um amor desejado.


*Antonino Oliveira Júnior é poeta, editor do blog de Antonino, membro da Academia Cabense de Letras.

  



Diga aí!

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.” (Carlos Drummond de Andrade)




 
Diga lá!


“O estudo apaixonado da substância humana do homem faz parte da essência de toda literatura e de toda arte autênticas. Não basta, para que sejam chamadas humanistas, que estudem apaixonadamente o homem, a verdadeira essência da substância humana; é preciso também, ao mesmo tempo, que defendam a integridade do homem contra todas as tendências  que a atacam, a envilecem e a adulteram.” (György Lukács)








4 comentários:

  1. O Blog está muito bonito! Obrigada pelo post da minha poesia. Bom Domingo com Poesia. Um abraço. Taciana Valença.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito legal o seu poema. Nos visite sempre!

      Natanael Lima Jr
      Editor

      Excluir
  2. Gosto muito de poesias que se constroem

    que se desconstroem

    e que se reconstroem


    um abç!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado amigo Allison. Sua visita foi muito legal!

      Abç, Natanael Jr

      Excluir

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima