sábado, 9 de fevereiro de 2013


Cyl Gallindo: Uma Saudade






por Fátima Quintas*















Foto: Reprodução
Cyl Gallindo
(1935 – 2013)


Jornalista, contista, poeta, cronista, sociólogo, Cyl Gallindo partiu no crepúsculo do dia 4 de fevereiro. Poderia ter sido um dia qualquer, mas a tarde exalava um cheiro diferente, de ciprestes enfileirados no túnel sem nome. A árvore, esguia e alta, recebia a aragem de um vento mais forte. As folhas baloiçavam indicando o ocaso das horas. Alguém olhava para o céu, o menino brincava com o pião, o velho fumava o cachimbo, ar difuso, sem concentração. A moça derramava uma lágrima, estava triste. Ela sabia que o pai dormia mais profundamente. Respirou fundo e fitou a face derradeira. Havia paz... muita paz...
                                                        *
Nesta hora de despedida, lembro-me dos versos de Camões: Quem morre não morreu, partiu primeiro. A poética quinhentista leva a reflexões. Somos tão frágeis e transitórios que o instante se desfaz sem jamais ser configurado. A contingência existencial confunde a nossa caminhada, transformando-a em um tempo indefinido. Clarice Lispector já lutava por entender o átimo dos segundos. E as horas se diluíam numa travessia impossível de absorver. Remeto a poíesis de Cyl Gallindo: Serei o último poeta a me sentar à mesa/ O verso só vem a mim depois de cristalizado. A efemeridade ontológica corresponde à única verdade que possuímos; angústia que aflige a humanidade. Correspondeu igualmente à minha última conversa com o amigo Cyl. Nos jardins da Academia Pernambucana de Letras dialogamos metafisicamente. Diálogo simples, sem afetações. Como ele gostava.

Definir o homem Cyl não é difícil. Nele habitavam o gesto solidário, a espontaneidade, o jeito simples de entender a vida. Toda simplicidade beira a sabedoria. E numa sequência inevitável deságua na plenitude. A plenitude de um cotidiano repleto daquilo que o querido acadêmico desejou fazer. Sem o artifício da superficialidade, adentrou veredas que o apraziam: estendeu a mão sempre aos que necessitavam, não diferenciou os homens, mas agregou-os num mesmo sentimento. O consolo certo no momento certo. E o humor, procurava adicioná-lo de modo a amenizar o sofrimento do outro. Manifestava uma forte ligação com a natureza como se dela os seres vivos dependessem incondicionalmente. Pois não é bom que o homem só esteja:/o homem e a mulher tecem harmonia/onde quer que o amor buscado seja.

A justiça social o inflamava, elemento de militância permanente. Então surgia o sociólogo de bandeira em punho. Usou a palavra não somente como um canal redentor, mas também para denunciar as distorções, lutar pelos oprimidos e construir um mundo melhor: Meus versos são gente pobre/ e convivem com a fome/nos brinquedos da infância.  

Retinha a grandeza dos fortes. Respeitava a energia cósmica e exaltava a humildade. Aliás, a humildade fê-lo grande e portentoso na maneira de consolidar amizades, atento à compreensão e ao entendimento do entorno. Jamais arrogante; defendia o humanismo em todos os momentos. Seus contos, crônicas, poesias transcrevem o respeito à alteridade, porque em Cyl medravam arroubos infantis, generosos, francos. Homem de luta, em estado de alerta, a apontar qualquer tipo de preconceito: Mas que os abutres não se iludam,/ pois não joguei sobre a mesa/ todos os naipes do Grito-Gesto. O “Grito-Gesto” não calou, querido amigo. Continua bradando no silêncio da morte. Haverá maior silêncio e maior estrondo que o encantamento?

Nasceu em Buíque e de lá nunca se afastou. Viajou mundo afora, mas Buíque morava dentro dele, fincando raízes que se disseminaram pelos caminhos de terra ou de asfalto. O rural e o urbano num só indivíduo, talvez mais o rural, sertanejo febril diante do êxtase da natureza.  Como dizia Baudelaire, a infância é a nossa pátria e nunca nos desgarramos de seus efeitos. Até mesmo os expatriados como Joice e Ibsen retornaram à gênese. Buíque era o remanso do guerreiro, origem, eterno retorno. Joaquim Nabuco por acaso não alicerçou sua história sob as hostes do Engenho Massangana?  Cyl não foi diferente. A infância ofertou-lhe o fermento da construção da vida. Afirmou: O segredo é necessário para o jogo e para a luta. Seria a infância o segredo contido?

Meu amigo: você não morrerá. Quem escreve se inscreve na humanidade através da letra, das palavras e do pensamento que se espalharão pelo cosmos. Sua biografia reforça sentimentos atávicos, telúricos, nobres. E o que mais o humano pode oferecer ao universo? De Buíque para o mundo, eis o seu indelével traçado.  Cyl Gallindo não encerrou a sua voz: Em cada carta há duas faces/ que os homens tentam beijar/mas enquanto o trunfo estiver retido/ a canção será menor. O trunfo, meu saudoso amigo, você levou para o poema não findar.


*Fátima Quintas é escritora e presidente da Academia Pernambucana de Letras





TRÊS POEMAS DE CYL GALLINDO




A CONSERVAÇÃO DO GRITO-GESTO

Poema VII


Serei o último poeta a me sentar à mesa
o verso só vem a mim depois de cristalizado.

Meus versos são gente pobre
e convivem com a fome
nos brinquedos da infância.

São os meus versos surrados
em plenas ruas do mundo
e confidenciam o seu corpo
à intimidade do relento.

Mas que os abutres não se iludam,
pois não joguei sobre a mesa
todos os naipes do Grito-Gesto:

o segredo é necessário para o jogo e para a luta.

Dei apenas o meu canto feito de estrela e de
sangue:

no amor nunca tem noites
nem esquinas de escuridão!

Em cada carta há duas faces
que os homens tentam beijar
mas enquanto o trunfo estiver retido
a canção será menor...

Vamos traçar novamente a esperança e a vontade




ROCHEDO HUMANO

Poema III


Pois não é bom que o homem só esteja:
o homem e a mulher tecem harmonia
onde quer que o amor buscado seja.

Se a partir da aurora nasce o dia,
é forçoso, portanto, estar atento
à luz que dos olhos teus se irradia.

Para cravar em mim vital momento
da parte que da vida é minha vida
e no tear das ilusões é meu alento,

eu não devo olvidar que em toda a lida
lapidei o meu corpo em tua busca
e filtrei a solidão que me castiga.

Mas a alegria de ter-te é mais antiga!




CIA RETIDA


Limitaram teu corpo com cal e pedra,
quando ainda do teu seio brotava infância,
mas não te destruíram. E no espaço, além,
pelo fio das horas tu tecias
tua imagem, mais que verde, de esperança.

Esta imagem de mansinho se espalhou,
com força e mais bela, no meu sangue,
e nas tardes de outono, com teu nome,
distraía a primavera quase exangue.

Não se rendam jamais à pedra e à cal,
que argamassa se faz, cumprindo horrores.
Cantemos o outono e a primavera,
que são feitos de cantos e de amores.

Vês! que num peito, às vezes, comprimido,
entre algozes e angústias, brotam flores.








É CARNAVAL!
PERNAMBUCO, ESTADO DE ALEGRIA





Foto: Reprodução















3 comentários:

  1. Olá,
    Adoro ler livros e aprecio muito poesia. Parabéns pelo blog. Muito bom.
    Estou te seguindo e te convido a me fazer uma visita e se você gostar me siga também.
    Bjos
    Lu
    http://vergostarler.blogspot.com.br/

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