domingo, 16 de dezembro de 2012


Os Poetas, um Poeta

 
 
 
Fátima Quintas*
 
 

 
 
 
 
Foto: Reprodução
Manuel Bandeira
 
 
 
 
 
A poesia representa o clímax da literatura. Nela encontramos as metáforas da vida e toda a simbologia do que se vê e do que não se vê. O poeta transfigura a realidade, tornando-a suportável à sensibilidade dos homens. É preciso versejar as durezas da rotina para acreditar que a ordem do real escapa aos nossos olhos; então, os poemas adquirem a verdade que se deseja imaginar. Que o sonho vença a inexcedível concretude. É só. Estou exausta dos modelos pré-fabricados, assim como Manuel Bandeira estava farto dos purismos limitantes.
 
A palavra pode tudo, desde nomear para dar sentido aos objetos até enganar os fantasmas, mistificando-os. Poetas, leio-os todos os dias. Não consigo afastar-me dos seus mistérios. Gosto de percebê-los driblando a vida ou de senti-los na catarse intensa. E deparo-me com Desencanto de Manuel Bandeira: “Eu faço versos como quem chora/ De desalento... de desencanto.../ Fecha o meu livro, se por agora/ Não tens motivo nenhum de pranto”. Não, Bandeira, não fecharei o livro. Necessito folheá-lo para apaziguar as intermitências da alma. Vou em frente. Sei que a tuberculose o atormentou, encontro no acervo epistolar da Fundação Gilberto Freyre cartas e mais cartas endereçadas a Gilberto Freyre, falando da doença e prevendo uma morte precoce, bem perto, à porta. E, no entanto, viveu 82 anos (1886-1968), sempre afligido pelo espectro da enfermidade. Em termas especiais, cidades de clima seco, recomendações médicas e a “indesejadas gentes” rondando, rodando, rodando... E, você, Manuel Bandeira, a gritar as pulsões em versos belíssimos. A dor o impulsionava a jorros intimistas. “ A vida é um milagre./ Cada flor,/ Com sua forma, sua cor, seu aroma,/ Cada flor é um milagre”.
 
A ansiedade da escrita lhe roubava as horas e não é à toa que o seu primeiro livro (1917) tenha recebido o título de A cinza das horas – impresso nas oficinas do Jornal do Comercio, 200 exemplares. Escrito, conforme disse, “para iludir o sentimento de vazia inutilidade. Este só começou a se dissipar quando fui tomando consciência das ações dos meus versos sobre amigos e principalmente sobre desconhecidos. Uma tarde voltei para a casa seriamente de ter ouvido, na livraria José Olympio, Raquel de Queiroz me dizer: Você não sabe o que a sua poesia representa para nós”. O tempo chamuscado de cinzas, o seu. Mas pleno de criatividade, como se a descoberta das coisas lhe trouxesse o ânimo imprescindível à trajetória de algum futuro. “Fui menino tuberculoso, nada sentimental. A doença, porém tornara-me paciente, ensinara-me a humildade, o que estava muito certo. Infelizmente gerou também em mim um sentimentalão”. Um sentimentalão que se exprimiu poeticamente, permitindo conduzir os dias, contados um a um, à maneira de  Nietzsche, quando alertava que cada minuto deve ser transformado numa obra de arte. Aos grandes homens a doença não os apequena, pelo contrário, engrandece-os: Manuel Bandeira, Nietzsche, Max Weber, Freud, Virgínia Woolf (com eterna depressão, a ponto de suicidar-se)...
 
Em março de 1933 se viu forçado a abandonar a residência à Rua do Curvelo, onde morou entre 1920 e 1933, apegando-se ao seu canto felinamente, um gato recolhido ao aconchego dos prazeres mais recônditos. Mudou-se para a Rua Morais e Vale, no coração da Lapa. Não se acostumou à nova paisagem, ocasião em que escreveu o belo poema O beco, a lamentar a convivência do refúgio anterior: “Que importa a paisagem, Glória, a baía, a linha do horizonte?/ - O que eu vejo é o beco”. E quantos becos nos deparamos ao longo da existência!?
 
A poesia de Manuel Bandeira nasce de um sofrimento diário. Conhecia o abismo bem próximo, aos seus pés, bastava uma pequena escorregadela, e pronto. Por isso tinha pressa de apreender o mundo, apreendê-lo através de emoções que o inspiravam, e dele exigiam a urgência da escrita: “Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente”. A morte nunca o ceifou. Manuel Bandeira, eterno, eternizante, eternamente Manuel Bandeira.
 
 
*Fátima Quintas é escritora e presidente da Academia Pernambucana de Letras
 
 
 
 
 
POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER, FRED CAJU E MÁRCIA MARACAJÁ
 
 
 
 
Salvador Allende*
Natanael Lima Jr
 
                A Glória Wormald Ochoa
 
 
 
 
 
Foto: Reprodução
 
 
 
A tarde silenciou a voz
da liberdade e da justiça.
 
O canto não resistiu à tristeza
e partiu sem glórias e honras.
 
O golpe infame tingiu de sangue
a pátria e a resistência de um povo.
 
Salva-nos dessa dor,
Salvador Allende!
 
 
Junho, 1987
 
*do livro “À espera do último girassol & outros poemas. 2011.
 
 
 
 
 
Em matéria de poesia*
Frederico Spencer
 
 
 
Foto: Reprodução
 

Quanto de poesia há
no chão de tua cozinha? – o mundo
encharca o poema que ainda não nasceu
escaldado na pia:
o barro, as calçadas, o mangue
no prato vazio
do menino da boca, da noite
morrerá no fim do dia
sem dizer seu nome.
Quanto de poesia há
no dia dos meninos
nas calçadas, no barro, no mangue
na boca do mundo?
 
 
*do livro “Abril Sitiado”. 2011.
 
 
 
 
 
Hortênsias ausentes
Fred Caju*
 
 
 
 
Imagem: Reprodução
 
 
Eu cultivei versos
para colher flores,
eu pintei meus sonhos
com todas as cores,
pois era preciso
perder meus temores.
 
Os versos plantados
foram coloridos,
porém, os meus sonhos
não foram colhidos:
o monocromático,
assim, exibido.
 
Das flores que vi,
eu senti a ausência
da flor dos meus sonhos:
nenhuma hortênsia;
eu troco o final
pelas reticências.
 
Meu olhar distante
vaga no horizonte,
nenhum dos meus sonhos
brilharam no front:
fogem as hortênsias,
racham-se as pontes.
 
Sem flores nem cores,
resta o cinzento;
sem versos nem sonhos,
falta sentimento;
precisei plantar
flores no cimento...
 
*Fred Caju é poeta e edita o blog Sábados de Caju
 

 

 
Costumes
Márcia Maracajá*
 
 
 
 
Imagem: Reprodução
 
 
Eruditas foram as suas manhãs
Ao som do piano
Sob o cheiro dos brioches
Servidos sobre fina renda
Ornando a mesa
E do aroma do sabonete no lavabo
 
Eruditas foram suas tardes
Talheres de prata à mesa
Tinindo
Delicada porcelana
Guardanapo de mil fios ao colo
Requinte no servir
 
Eruditos seus chás
E biscoitos com sequilhos
Visitas marcadas com antecedência inglesa
Mulheres obedientes
Farfalhando suas vidas sem sentido
Sem delas se servirem
 
Até que um dia
No passeio público
Avistou um cão vagabundo sem dono
Remexendo um lixo escondido
E, de súbito,
Descobriu-se também afeita daquele lixo
E deliciou-se mundanamente
Fazendo-se livre
 
 
*Márcia Mracajá é escritora e edita o blog Márcia Maracajá
  
  



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima