domingo, 23 de setembro de 2012


Umas e Outras: Lição de Humanidade




Douglas Menezes*











 
Faz mais de quarenta anos que Chico Buarque gravou a canção Umas e Outras e, apesar do tempo, ela continua com a mesma atualidade humana da época em que foi lançada. Ali, Chico, um artista  ainda em busca de afirmação e já tendo problemas com a censura da ditadura militar, mostrava ao país a tendência de uma obra tão vigorosa artisticamente como igualmente forte em relação ao conteúdo humanístico. Além disso, confirmava ao Brasil que sua música não se detinha apenas a questões políticas, mas que abrangia o humano, naquilo que os seres têm de mais importante: o sentido da existência aqui na terra.

O encontro de uma freira e uma prostituta numa rua da cidade é um dos pontos altos do fazer musical do compositor carioca. E a possível antítese contida no poema, paradoxo mesmo, dilui-se, no desenrolar do texto, à medida  em que a identidade entre as duas se afirma: ambas sofrem com as frustrações da existência. Ambas olham-se com o mesmo olhar que a vida vazia e angustiada trouxe para elas: “ O acaso fez com que essas duas / Que a sorte sempre separou/Se cruzem pela mesma rua, olhando-se com a mesma dor”.

Na música, a evidência de que nas duas não existiu escolha. O recato forçado da religiosa,  “Se uma nunca deu sorriso, que é pra melhor se resguardar”, corresponde, também, ao sorriso artificial da prostituta, “Se a outra não tem paraíso,/não dá muita importância não / Pois já forjou seu sorriso / E fez do mesmo profissão”. O destino traçou para as mulheres o elo de ligação que faltava para que tivessem algo em comum: a vida é um fardo pesado para carregar e trata de juntar a todos numa mesma dor.

Assim, a infelicidade não escolhe a quem “contemplar”. A religião, na verdade, é vista como uma fuga. O paraíso é algo incerto e talvez infernal, já que o “céu” não foi uma opção individual, mas vindo de fora para dentro, arrastando, tormenta sem fim, qualquer possibilidade de uma vivência feliz aqui no plano terreno. As duas, vítimas do todo social. As duas vendendo-se para poder suportar o viver. E cada uma a seu modo: “E toda santa madrugada / Quando uma já sonhou com Deus/ A outra triste namorada /  Coitada, já deitou com os seus”.



*Douglas Menezes é escritor, professor de Língua Portuguesa, pós-graduado em Literatura Brasileira e em Leitura, Compreensão e Produção Textual pela UFPE, membro da Academia Cabense de Letras.

 
 
 
 
POEMAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO, NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER, JACI BEZERRA E W. H. AUDEN

 

 
O último poema
João Cabral de Melo Neto

Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.

Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

seja mulher, paisagem ou o não
de que há que preencher os vãos.

fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,

ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema

mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.
 


De repente o tempo parou*
Natanael Lima Jr


De repente o tempo parou
em minhas mãos.

O tempo com seu passo
desacelerou o ritmo da vida
e paralisou a dor.

De repente o tempo silenciou
a voz histérica das horas.

De repente o tempo parou
em minhas mãos
e foi preciso navegar
em mares de tormentos.

O tempo que tudo principia
e tudo executa.

De repente o tempo modificou
as minhas mãos.

*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas”
 
 
Atestado de bons antecedentes*
Frederico Spencer

 
Eu, ser pós-guerra
companheiro de cama e mesa
da morte, filho do medo
da bomba H
fui tecido nas noites frias
onde a fome era o único alento
onde o gemido do irmão
era a cantiga de ninar.
E sob o peso do chicote aprendi
o meu caminho:
cego, surdo e mudo sigo
o destino igual
para todos os meninos
de minha idade.
E agora de maioridade,
aprender a matar
sobre as medalhas da vida enrolado
nas bandeiras
nas noites de São João
- os fogos são ilusão
para não tremer a mão
na hora certa
de provar o amor, e se
a lição for aprendida:
Sou aquilo que faço
não o que gosto.
 
Gasto as noites
legitimando aquilo
que fiz durante o dia.
 
*Poema vencedor do prêmio Gervásio Fioravanti no ano de 1985 da Academia Pernambucana de Letras, como melhor poema universitário.
 
 
 
 
Ato de inquisição
Jaci Bezerra

 
Há uma hora do bem e a hora do mal,
e uma hora única, a hora final,
 
quando o tempo, exercendo seu ofício,
extingue um e a outra vida dá início.
 
Alguma coisa resta, assim sabemos,
do que amamos talvez, do que fizemos,
 
mas o tempo, indiferente aos necrológios,
boceja gordo de tédio nos relógios,
 
esculpindo com o barro de quem foi
a memória de quem virá depois.
 
Esta é a hora vital em quem, maduro,
o homem sente a presença do futuro.
 
A hora íntima, em que o arrependimento
não caberá, por ser vasto, em um só momento.
 
A hora em que, severo, o coração
do homem é o seu próprio tabelião.
 
Desejará o homem ser criança,
porém no homem a infância é só lembrança.
 
Assim, esfolhando a vida de uma vez,
indagará pelo que fez e o que não fez.
 
Revisitando os retratos mais antigos
julgará o que ele fez consigo.
 
Menino, se dirá, eu tinha paz,
lembrando com ternura, irmãos e pai.
 
Nos dedos contará as namoradas,
e elas rirão na lembrança, desbotadas.
 
Um amigo nessas horas é um conforto,
mas o amigo leal é o amigo morto.
 
Contemplará os livros nas estantes,
perguntando-se porque nunca os leu antes.
 
A casa, a mulher, o cão, os filhos,
tudo cintilará com novo brilho.
 
E uma traição qualquer, se a cometeu,
doerá  como nunca antes doeu.
 
Vai desejar pedir perdão, porém
não achará, para o perdão, ninguém.
 
Conferindo, um por um, todos os atos
verá o quanto às vezes foi ingrato.
 
Pensará em despojar-se da vaidade,
mas dizendo no íntimo, agora é tarde.
 
Lodo e luz revolvendo na memória:
o que o preserva em meio a tanta escória?
 
Esta é a hora na qual, indo aos ermos,
o homem sente nojo de si mesmo.
 
Hora real, em que a vida não madruga,
nem ninguém cede espaço para a fuga.
 
Em que o homem virtuoso e o obsceno
são frágeis, são iguais e são pequenos.
 
Hora final, em que a vida se encerra
é apenas verdade e o resto, terra.

Hora em que o tempo, movendo sua mó,
no homem separa o eterno do que é pó.
 
 
 
 
Musée des Beaux Arts
W. H. Auden*
 
(Tradução: Paulo Azevedo Chaves)



Pintura "A Queda de Ícaro", de Pieter Brueghel



Acerca do sofrimento eles nunca se enganavam
os Velhos Mestres; como eles entenderam bem
sua circunstância humana, como ele se manifesta
enquanto alguém se alimenta ou abre uma janela ou apenas
caminha na trilha habitual;
como, enquanto os idosos aguardam com reverência e paixão
o nascimento miraculoso, sempre deve haver
crianças  que, indiferentes ao que acontece,
patinam sobre a laguna junto ao bosque.
 
Eles nunca se esqueceram
de que até mesmo o martírio mais temível deve seguir seu curso
num recanto qualquer, cenário desordenado
em que cães seguem sua vida canina e o cavalo
do algoz esfrega o traseiro inocente numa árvore.
 
No Ìcaro de Brueghel, por exemplo, como tudo se distancia
tão sem pressa do desastre! O lavrador pode
ter ouvido o baque, o grito de desespero,
mas para ele não foi um fracasso importante; o sol iluminou
como deveria a as pernas brancas sumindo nas águas
verdes e a suave embarcação, que deve ter avistado
algo surpreendente, um menino caindo do céu,
tinha um destino e seguiu tranquilamente seu rumo.
 

Nota: Este poema de Auden se inspirou no quadro A Queda de Ícaro, de Pieter Brueghel, o Velho, que fez parte do Renascimento nórdico.
 

*Winstan Hugh Auden
Nascido em York, Inglaterra, em fevereiro de 1907, ele é tido como um dos grandes autores do século XX. Formado em Oxford, ali conheceu Christopher Isherwood, que colaborou com ele escrevendo peças esquerdistas que misturavam farsa e poesia. Em 1939, mudou-se com Isherwood para os Estados Unidos, onde conheceu aquele que se tornaria seu companheiro, Chester Kallman, com quem anos mais tarde escreveu libretos de óperas, inclusive The Rake’s Progress, para Strawinsky. Entre seus poemas mais conhecidos estão In Memory of W.B.Yeats e In Praise of Limestone, além de Funeral Blues, escrito para Kallman, por ocasião de sua morte. W.H.Auden morreu em Viena,  setembro de 1973.

 
 
 



Um comentário:

  1. Prezado amigo Natan!!
    TEMPO DE ESPERA
    Tempo
    Tempestade
    Tempo
    Temporalidade
    Tempo
    Teperança
    Tempo de espera
    21/04/2012 - Nildo Barbosa.
    Abraços.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima