domingo, 16 de setembro de 2012


O Discurso e sua Prática - Questões Históricas

 
Frederico Spencer*

 
 
 
 

 
 
 
 
O uso da palavra como forma de vencer contendas aparece pela primeira vez na Grécia antiga quando os sofistas começam a passar seus ensinamentos para os jovens da aristocracia grega preparando-os para o uso da oratória, como forma de persuadir pessoas. O maior interesse destes jovens pela oratória dava-se em detrimento da política.
 
Com o surgimento das cidades, a palavra adquire um valor incalculável para as novas relações de poder que ali se estabeleciam, tornando-se um instrumento poderoso para a formação do discurso ideológico. A manutenção das elites no poder passa a depender do bom uso da palavra. A chegada da nova ordem pedia eloquência verbal como condição primordial para o homem poder ocupar posição na nova estrutura social.
 
A vida social e as relações entre os homens, com o aparecimento das cidades, passam a ter um desenho diferente onde, nem as guerras nem as contendas particulares, de forma isolada não definiam relações de poder, mas, também a arte de influenciar pessoas tinha seu peso.
 
A nova linguagem passa a moldar o pensamento do homem que surge a partir da criação da urbanização como modo de vida. A fixação da nova ordem social e econômica impõe novas relações de poder e prestígio, a política surge como meio de equalização das forças sociais que ali surgiam.
 
Era nas ágoras da Grécia antiga onde o povo se reunia e discutia a solução dos problemas que envolvia a vida de todos. A democracia exigia a prática da oratória como forma de instrumento para se vencer uma guerra, a guerra da persuasão, do convencimento em prol de uma causa particular.
 
No mundo moderno a linguagem desempenha um papel primordial para a fixação e crescimento do homem no meio social, pois, ela constrói relações de ordem cultural que forma o modo pelo qual uma sociedade pensa, fala e interage. O desenvolvimento das cidades e de suas estruturas impõe a todos os cidadãos uma maior especificação no trato com a arte da fala e de sua expressão.
 
Porém, é na área da política onde se dá sua maior especificidade pois, o conteúdo da informação tem como plano levar para um número maior de pessoas as mensagens dos grupos de poder, impondo a todas as pessoas os traços culturais destes grupos como modelos de comportamento e de visão de mundo. Neste sentido cria-se um processo de aculturação, impondo às classes mais vulneráveis padrões e formas de pensamento, alinhados com o modelo ideológico vigente.
 
A produção artística nas sociedades vem de encontro a este processo quebrando sua hegemonia, pois a linguagem das artes rompe com a padronização do pensamento coloquial que transforma o homem em máquina de produção. Buscando o símbolo, não como referência, mas como partida, abre novos espaços na mente humana onde estão depositados seu humanismo e sua vontade de sonhar, de enxergar-se além da vida cotidiana.
 
O homem é o único animal que desenvolveu a capacidade de ver o resultado de suas ações presumindo seu futuro, seu mundo cultural diante da exuberância da natureza que o rodeia e o eleva à categoria de humano, regada aos discursos ideológicos que permeiam a estrutura de poder e pressão.
 
Desta forma, o grande Nietzsche nos deixou o seguinte pensamento: “Temos a necessidade da arte, mas só precisamos de uma parte do saber”. Debrucemo-nos então sobre esse pensamento para vivermos modernamente.
 
*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo
 
 
 
 
POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, JUAREIZ CORREYA E ANTONIO DE CAMPOS
 
 
 
 
Epitáfio à canção perdida*
Natanael Lima Jr
 
 
Pode bem ser a última canção.
 
Que mais importa?
agora que me encontro sozinho
na avenida vazia dos meus sonhos
sem amigos e irmãos
sem pai e mãe
nada mais importa
a canção está perdida
não desejo mais ouvi-la.
 
Canto desprovido de vida sonora
desmaterializado de poesia
e melodia.
 
Talvez um dia
possamos unir nosso canto
numa única canção pela paz fraternal.
 
Que mais importa?
agora a canção jaz morta
e permanece pra sempre
a lembrança da última canção.
 
Nada mais importa
a canção está perdida
e o canto se arrefece.
 
 
*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas”
 
 
 
Poesia, mulher e vinho*
Juareiz Correya
 
 
                               “A mulher, a música e o vinho
                                        São as minhas paixões.”
                                                    (Franz Schubert)
 
Não é paixão a poesia
- é a verdade e a vida.
a mulher não é paixão
 - é o meu outro corpo
 minha outra alma
 meu outro coração.
  não é paixão o vinho
 - é o meu sangue,
 palavra ardente,
 rubra canção.
 
 
*Coração Portátil – Ebook publicado pela Emooby Pubooteca, de Portugal, 2010.
 
 
 
 
Ébrios, melhor suportaremos a eternidade
Antonio de Campos
 
 
Bailemos, dancemos e cantemos
como os pássaros –
indiferentes a tudo,
exceto à alegria!
 
O farol do sol
e o espelho da lua
brilham sem fim.
 
O primeiro nos faz clarão
a novo encontro,
o segundo nos emudece
as pupilas ao verde.
 
Os deuses nos lançam os dias,
nada mais.
 
Anda! Vamos!
bebamos o vinho do breve sonho,
ébrios, melhor suportaremos a eternidade!
 
 
 
 
À terra o que é da terra
Paulo Azevedo Chaves*
 
 
 
 
 
 
O dia se iniciara como qualquer outro. Preguiça de sair da cama; pássaros piando no jardim lá fora.Cumpriu as tarefas de lavar o rosto, escovar os dentes, colocar as duas próteses dentárias nas respectivas arcadas, fazer a barba. Tudo como de costume. O café da manhã também foi parecido com o de outros dias: nescafé com adoçante, torrada com queijo derretido, algumas bolachas com margarina Delícia. Tudo como de praxe, um verdadeiro ritual.
 
Mas o que se segue foi diferente dos dias anteriores. Em vez de se vestir para o trabalho chato de tradutor na fábrica, vestiu lentamente os trajes pré-selecionados na noite anterior. Faltava escolher o sapato e as meias. Pretos, tudo preto como convinha. Pegou o portarretrato de Rodrigo, seu querido (e marginal) secretário, que estava sobre o console da saleta onde assistia TV na SKY. Deu um beijo no vidro frio, fez nova declaração de amor à imagem sorridente do morto. Em seguida, foi ao quarto e olhou-se no espelho da penteadeira para ver se estava com boa aparência, os cabelos ralos bem penteados.Tudo OK.
 
O tempo passara rápido. Muito sexo e alguns amores. Encontros aqui e ali – Recife, Rio, São Paulo, Londres, Paris, Nova Iorque. Aquele bar em Greenwhich Village, Nova Iorque, era realmente divertido. Música nas alturas e uma fauna variada de gays no entorno… Era jovem, então – tinha vinte e poucos anos, a idade da desrazão, parafraseando Sartre e o livro que lera um dia em algum lugar: A Idade da Razão. Mas que importa tudo isso agora? Foi até a cozinha e arrastou com alguma dificuldade o bujão (afinal, estava com 74 anos) até a saleta . Espargiu um pouco de perfume no ar para disfarçar o cheiro desagradável de gás no ambiente. Fechou com gestos lentos a porta de entrada. Acomodou-se na poltrona tipo espreguiçadeira e apertou contra o peito o portarretrato. O exit era triste e solitário como havia sido sua própria vida. Fechou os olhos e ficou quieto pensando no imenso desperdício que tinham sido todos aqueles anos de mudos diálogos consigo mesmo. Já sonolento, pensou em Shakespeare : ”A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem significado algum.” E apagou.
 
*Paulo Azevedo Chaves é poeta, tradutor, escritor, jornalista e crítico de arte.

 



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima