domingo, 9 de setembro de 2012


Maiakovski


Marcus Accioly*
marcusaccioly@terra.com.br


 

 

Talvez, no Brasil, seja o poeta, professor e crítico literário, Pedro Lyra, quem mais ame Maiakovski. Amor, suponho – à primeira vista – talvez pela coincidência do nome Vlademir (com V e com W): Vlademir Maiakovski e Pedro Wlademir do Vale Lyra. Shakespeare indagaria – “O que há, pois, em um nome?” – mas a resposta foi a poesia – esse amor à primeira vista e à última vista, ou à primeira e à última leitura. Pedro Lyra possui o maior número de edições, traduções e fotos do poeta russo, por isso, na sua biblioteca não há a estante, mas o instante, o canto (nos dois sentidos) de Maiakovski. Nisso ele descumpriu o ensinamento do mestre: “Quem não esquecer o seu primeiro amor, jamais conhecerá o último”. Pedro Lyra jamais esqueceu o seu amor por Maiakovski, jamais o relegou a um segundo plano, jamais o substituiu por o de outro poeta. Mesmo nas nossas infindáveis discussões sobre poetas russos – Óssip Mandelstam, Ana Akhmátova, Marina Tzvietáieva, Sierguéi Iessiênin, inclusive Evtuchenko e Brodsky (que estiveram no Brasil) para ele Maiakovski prevalecia como um combatente invicto, uma espécie de Aquiles que, em vez de ser cantado, cantasse. Quanto à fragilidade dos calcâneos, a flexa de Cupido e/ou de Páris, estava na paixão por Lília Brik (a quem escrevia cartas com o desenho de um cachorrinho chorando). Daí, entre tantos, o poema – Lílitchka – em lugar de uma carta – desesperado: “E não me lançarei no abismo, /e não beberei veneno, /e não poderei apertar na têmpora o gatilho”. Do seu triângulo amoroso – Maiakovski-Lília Brik-Ossip Brik – Lília Brik convence de uma coisa, não de outra, ao dizer: “já há um ano não era mulher de Brik, quando comecei a viver com Maiakovski. Não houve, pois, nenhum ménage à trois”.
 
A Poética de Maiakovski – traduzida por Boris Schnaiderman – começa com o tema: “Sou poeta. É justamente por isto que sou interessante”. Quantas vezes – pergunto a Pedro Lyra – não repetimos esta frase às musas? Se nós achávamos, elas também que achassem, pois, Maiakovski achou e disse, por ele e por todos nós, poetas. Mas não ficava aí a contundência poética. Havia a de “pôr o pé na garganta da canção”, a de “apertar a garganta de ferro da campainha”, a da “bofetada no gosto público”, de “a soco combater o gênio lírico”, a de “revolver a merda fóssil de agora”, etc. Além de imagens como a do céu feito “uma grande orelha, cheia de carrapatos de estrelas”. O verso de Maiakovski mais usado por Pedro Lyra foi, sem dúvida: “Melhor / morrer de vodca / que de tédio”. Aliás, para Pedro Lyra, até hoje: melhor morrer de chope que de vodca. Porém nada ficava só aí: havia a declaração sobre gente, ou sobre a gente: “Brilhar para sempre,/ brilhar como um farol,/ brilhar com brilho eterno,/ gente é para brilhar,/ que tudo o mais vá para o inferno,/ este é o meu slogan e o do sol”. O verso do célebre poema – A plenos pulmões – “Professor,/ jogue fora/ as lentes-bicicleta!” – parece antecipar a frase do – Manual de instruções – de Júlio Cortázar: “Que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos”. Já a história do homem sem camisa – ou do homem feliz – é do Brasil: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”.
 
Maiakovski censurou o suicídio de Iessiênin, principalmente a despedida do poeta – “Se morrer, nesta vida, não é novo. / Tampouco há novidade em estar vivo” – ao levantar a vida contra a morte: “Nesta vida/ morrer não é difícil./ O difícil/ é a vida e seu ofício”. Cinco anos depois, em 1930, aos 36 anos, conforme disse no poema-carta – “Seria melhor talvez/ pôr-me o ponto final de um balaço” – ele seguiu a dor do censurado. Lília Brik recebeu a bala-falha da primeira tentativa de suicídio. Porém havia uma segunda bala, única e última bala no tambor. Maiakovski ergue o revólver na mão esquerda e, em vez de apontar para o futuro (ao Futurismo ou Cubo-Futurismo) com a vírgula do dedo indicador adaptada à curva do gatilho, qual se para si mesmo ele apontasse – com uma estrela de pólvora no peito – põe fim à poesia da existência.
 
 
*Marcus Accioly é poeta
 
Nota: Esta crônica foi publicada no JC em 06/09/2012 e autorizado pelo autor sua postagem neste blog)





POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER, ANTONIO DE CAMPOS, DORALICE SANTANA E JUAREIZ CORREYA
 
 

Espelho dos teus olhos*
Natanael Lima Jr
 

Vejo no brilho dos teus olhos
o reflexo do universo
que há em mim.
 
Vejo no brilho dos teus olhos
a singularidade das cores da natureza,
a conexão do real e do abstrato.
 
Vejo no brilho dos teus olhos
o lirismo exagerado e compulsivo
das manhas e manhãs inumeráveis.
 
Vejo no brilho dos teus olhos
o reflexo do (meu) universo
submerso.
 
*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas” (2011)



Portal do tempo*
Frederico Spencer
 
 
A roda da vida
tecendo nervuras na pele
da maça, o fio da seda desenhando
manhãs, o impune ritmo do pêndulo
descortinando o tempo
impregnado nas faces:
o suor, a terra, a pedra, o barro.
As vestes do homem raro:
o paletó, sua gravata, - uma cadeira muda
o nó na garganta, o grito domado:
- o leão, a hiena, o porco, devaneios
tecidos, no orvalho da manhã.

*do Livro “Quadrantes Urbanos” (2006)



Quando me soar o derradeiro sino
Antonio de Campos
 
Mas quando me soar o derradeiro sino
e ao chão comigo se juntarem os frutos,
me acharão tranquilo porque menino,
pois longe de mim se guardam os lutos.
 
Ao sol poente eu lhe direi: “Boa tarde!”
e, as costas voltadas, me vestirei de terra.
O mundo que esteve em mim, agora me aguarde
como se eu fosse um Anjo que já não erra.
 
Os versos calados, irei sem dizê-los –
tudo o que me importa é ser canteiro pobre
e ao fundo dum horta com nada de zelos,
brotar verde ao abrir a terra que me cobre.



Para o rio Jaboatão, após um dia de chuva*
Doralice Santana
 
 
Olha,
Mira profundamente
A superfície revolta
Que te encanta e hipnotiza
Vem,
Pula do alto da ponte!
Cruza a fronteira da razão
E mergulha...
Flutua em mim
Entre ondas e a correnteza
E faz real o sonho
A água, que tudo limpa
Lavará tua alma sem ter fim
Mergulha dentro de mim
Eu sou rio
O rio
E rio...

*do Livro “Do amar... e outros versos” (2011)
 


Sem amanhecer*
Juareiz Correya
 
 
amanhece.
mas eu sinto que não amanheço
 
sombras amadurecem em meu rosto
e um cansaço eterno mora neste corpo
que eu pensei guardar
revivido para hoje.
 
amanhece agora
- a cidade está pronta para o dia que nasce
limpa e clara se instala a manhã
no coração dos homens que despertam,
sem sombras no rosto
e sem cansaço,
renascidos também.
 
amanhece.
só eu não vejo a luz e os caminhos.
 
*do Livro “Americanto Amar América e Outros Poemas do Século 20” (2010)



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