domingo, 29 de julho de 2012


Carta Aberta a Gabriel


Marcus Accioly*
marcusaccioly@terra.com.br







Meu caro Gabriel García Márquez, a intimidade que tenho com seus livros criou-me a falsa intimidade que sinto com você. Para mim é tão impossível dizer que não o conheço, quanto é impossível para você dizer que me conhece. Eu costumo chamá-lo de Gabo, pois a minha enganosa intimidade já reduziu seu nome ao apelido. Certos estavam os gregos que só tinham um nome e evitavam esse tipo de forçada intimidade. Quem já ouviu alguém chamar Homero de outro jeito? A única abreviação do seu nome foi a queda do H (no grego moderno). Daí o Omeros de Derek Walkott.

Em setembro de 2000, o jornal publicou sua falsa despedida. Tratava-se de algo que me remeteu, de imediato, a um texto anterior, atribuído a Borges – Momentos -, cuja autoria por ele foi negada. Não obstante, na antemanhã seguinte, escrevi uma carta ao seu nome – Pseudocarta a Gabriel García Márquez – que não cheguei a publicar, pois, como esperava, tal “despedida” foi considerada apócrifa por você. Evidente que – ao contrário das traças e das mulheres – tendo o hábito de guardar papel, guardei a carta. Doze anos depois, chega-me outra notícia e, desta vez, através de uma crônica de Joca Souza Leão, com o título de “Vida é a que se recorda” – (publicada neste JC em 7 de julho de 2012) que assim começa: “Plínio Mendonza da Colômbia para o velho amigo e compadre que mora em Cuba para parabenizá-lo pelos seus 85 anos, no último dia 6 de março. Não falou com ele, mas com a mulher, Mercedes, ‘Gracias compadre, pero Gabito no recuerda de más nadie; se olvido del mundo”.

Ora-ora – digo feito o pois-pois dos portugueses – pergunto a você: como é possível uma coisa dessa? Será que Mercedes e Plínio e Joca não estão equivocados? Que pior coisa pode acontecer a um escritor, principalmente a um escritor genial, do que perder a memória – cegar essa visão interna dos sentidos e sentimentos dentro? O Mal de Alzheimer não foi feito para escritores (menos ainda para os poetas, pois a musa é filha da memória, Mnemósina, e – à Sören Kierkegaard – “o poeta é o gênio da lembrança”). Eu próprio costumo dizer – “lembrar é fácil, difícil é esquecer” – mas a minha perplexidade, diante da notícia inesperada, abre um postigo que fica entre o lembrar e o imaginar , ou entre o caranguejo e entre o pássaro. Lembrar é para trás e para a frente. Recordar é somente para trás. Imaginar é sempre para frente. Mas, se só se imagina com a cabeça, só se recorda pelo coração. Aliás, recordar é passar de novo pelo coração. Mas que espécie de rio, Gabo, você tem feito passar novamente pelo coração: o Letes da completa desmemoria? Sem dúvida que você, nos seus livros, muito mais imaginou do que lembrou. Não conheço nenhum outro escritor com imaginação – real – e mágica – tão prodigiosa. Será que, de tanto imaginar, você se deslembrou de recordar, ou que de tanto recordar o futuro deixou de imaginar o seu passado? Não, Gabo, você também lembrou e recordou, também contou e recontou a vida: a vida que viveu para contá-la.

Ao receber o Nobel de Literatura, em 1982, olhando as fotografias dos que passaram por ali, você proferiu a seguinte frase: “Daqui a 50 anos ninguém se lembrará de mim”. Enganou-se, Gabo. Você deixa de lembrar para ser lembrado. Se “se olvidó del mundo”, o mundo não se olvidará do seu nome, tampouco da sua memória. Talvez você fique como o seu Coronel, sem receber nenhuma carta, em compensação também não esperará. A sua solidão será eterna, pois não será mais sua, será minha e de Joca e de Plínio e de Mercedes, também do seu irmão chamado Jaime, além dos seus leitores e seus pósteros. A sua solidão será o tempo – será do tempo a sua solidão. Como no seu conto O afagado mais bonito do mundo, você já está, Gabo, “onde o sol é tão intenso que os girassóis não sabem para onde girar”.

Só uma coisa, a última talvez – uma lembrança ao seu esquecimento – principalmente para um escritor: esquecer-se do mundo é bem melhor do que lembrar que nele é esquecido.

Marcus Accioly é poeta

(este artigo foi publicado no JC em 26/07/2012 e autorizado pelo autor a sua postagem neste blog)





FESTEJANDO A POESIA



“Grande Natanael, parabéns pelo aniversário de 1 ano do seu blog! Espero que o “Domingo com Poesia” continue nos edificando todos os dias e (principalmente) aos domingos. Que ele continue nos mostrando o melhor da poesia e da prosa brasileira, estrangeira e em especial, a pernambucana.”

José Terra é poeta



“Natanael, ser poeta para mim é função/tarefa estratégica traduzir sentimentos, dores, amores, alegrias, ausências... como se falasse por nós é algo mágico. Parabéns Poeta pela iniciativa do Blog, pelos poemas pela sua bela militância!”

Ana Selma, cientista social, mestra em educação e atual secretária de promoção da cidadania da prefeitura do Jaboatão dos Guararapes.






POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER E LULA CÔRTES





Quem vai conter a vida*
Natanael Lima Jr


Quem vai conter a vida
se é sutilíssimo
o seu poema
em cada amanhecer?

Aqui ninguém é dor
ninguém passa a limpo o tempo
e o excesso é a conta da vida.

Em nós há primaveras
e manhãs insuladas.

Ninguém há de conter
a vida transitória.


*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”





Carta aos amigos*
Frederico Spencer


Nasci poeta
na pele das palavras, teci-me
tecido de sonhos e imagens
do mundo, lancei
minha rede sem haver mar
nem terra
nas páginas dos dias, amealhar
no fiel o imponderável pesar.
Nasci poeta
a palavra exata:
vivo.


*do livro “Abril sitiado”




Segundo poema para os “cabelos de fogo”*
Lula Côrtes



A lua brilha sobre o mar tão calmo
Minha ansiedade é sem tamanho


Será que hoje eu vou poder tocar
Com minhas mãos de sal
Seu coração de sonho?


*do livro “Amor em preto & branco”


3 comentários:

  1. Que bonito espaço! Um brinde a poesia!
    Parabéns.

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  2. Obrigado amigo Rê. Saudações poéticas!

    Natan

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  3. Obrigado amigo Rê. Saudações poéticas!

    Natan

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima