domingo, 27 de maio de 2012


Observatório da Literatura Portuguesa do Século XX




Natanael Lima Jr*


 


Em 1900 dá-se o desaparecimento do maior romancista luso, Eça de Queirós. Entretanto, despontava já para as letras uma grande figura, Fernando Pessoa, considerado o maior poeta português depois de Camões.

Foi no Porto, com o grupo da “Renascença Portuguesa”, que surgiu a primeira tentativa de renovação literária. Deve-se a Teixeira de Pascoaes e a Leonardo Coimbra, dentre outros, a criação da revista “Águia”, que conseguiu reunir muitos escritores responsáveis pelo renascimento literário luso. Alguns deles participaram depois em movimentos diferenciados, como é o caso de Antônio Sérgio, o mais importante pensador do seu tempo e Jaime Cortesão ensaísta e historiador. A estes dois notáveis se deve muito especialmente o papel que a revista “Seara Nova” (1924) desempenhou como órgão de oposição ao Estado Novo.

O modernismo, movimento estético em que a literatura surge associada às artes, caracteriza-se pela alteração formal de vários gêneros literários e artísticos e tem nos movimentos “Orpheu e Presença” a sua melhor expressão.

Almada Negreiros (1883-1970) - mais conhecido pela sua vastíssima e importante obra no campo da pintura, foi também poeta e escreveu um dos romances mais significativos da nossa ficção “Judith ou Nome de Guerra”, além de “Invenção do Dia Claro”.

Fernando Pessoa (1888-1935), um dos maiores poetas portugueses, mundialmente conhecido e admirado. Os heterônimos de que se serviu (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares), projeções de si próprio, a que deu biografias, características e estilos diferenciados, conferem à sua obra grande originalidade. A sua produção poética vai da poesia lírica subjetiva aos poemas breves e concentrados, como a “Mensagem”, até à Poesia de Álvaro Campos, Poemas de Alberto Caeiro e Odes de Ricardo Reis.

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) que, com Fernando Pessoa publicou o primeiro número do “Orpheu” (1915), foi poeta de grande originalidade de motivos e imagens nos seus livros “Dispersão” e “Poesias”.

A revista “Presença” surgiu em Coimbra, em 1927, e marcou uma nova era para as letras em Portugal. Foram seus principais fundadores José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, tendo mais tarde participado na sua direção Adolfo Casais Monteiro e Miguel Torga. Os defensores deste segundo modernismo estão empenhados em criar uma literatura viva e original, valorizando, acima de tudo, o individual, o psicológico e a intuição.

Cultivando vários gêneros literários, José Régio destaca-se na poesia com coletâneas como “Poemas de Deus e do Diabo” e “Encruzilhadas de Deus” tendo-se destacado também no drama com “Benilde ou a Virgem Mãe” e “Jacob e o Anjo” e na ficção com “História de Mulheres” e “A Velha Casa”.

A produção literária feminina portuguesa surge nos anos 50, tendo se destacado Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1925), dramaturga e autora de livros infantis; Irene Lisboa (1892-1958), cuja obra reflete a observação direta do quotidiano e Florbela Espanca (1895-1930), conhecida pelos seus sonetos repassados de sensibilidade, “Livro de Mágoas” e “Charneca em Flor”.

Pesquisa: diversas fontes

*Natanael Lima Jr é poeta, pedagogo e editor do blog domingo com poesia




POEMAS DE FERNANDO PESSOA, JOSÉ RÉGIO, FLORBELA ESPANCA E MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO



Não só vinho
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)*


Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não ‘spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.

*Ricardo Reis, in "Odes”, heterônimo de Fernando Pessoa.




Cântico negro
José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



Ser poeta
Florbela Espanca


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Orfeu rebelde
Mário de Sá-Carneiro


Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.




2 comentários:

  1. Maravilha de artigo sobre a literatura portuguesa do século XX, Natanael. E os poemas escolhidos são pérolas. Leitura deliciosa para uma tarde de domingo.

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  2. Bom demais começar a semana com leitura tão prazerosa, Natanael.

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima