domingo, 20 de maio de 2012


Arte e Educação


Frederico Spencer*



Recentemente numa aula em uma turma de pós-graduação em psicopedagogia foi exibido um vídeo. Este vídeo apresentava, em forma de ilustração, o belíssimo poema “Tecendo a manhã” de João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, considerado como um dos maiores poetas da língua portuguesa. O vídeo servia para ilustrar uma aula onde o tema tratado era a afetividade, tema este defendido a unhas e dentes pelos maiores estudiosos da área de educação e desenvolvimento humano, tais como, Jean Piaget, Vigostsky e Henri Wallon, para falar de alguns.

A turma, composta por professores - não vai aqui nenhuma crítica aos diletos, até porque somos obrigados a reproduzir em certa medida aquilo que o sistema nos manda - em sua maioria, não percebeu a mensagem do poema: sua beleza estética nem a sua riqueza simbólica, tratando a peça como “o vídeo”, pura e simplesmente. A pergunta é: Como podemos dissociar arte de educação? Que tipo de educação estamos plantando para o nosso futuro? A educação serve apenas ao mercado de trabalho, ou à qualificação do ser para postulação de suas humanidades? Por que os professores não utilizam a poesia como ferramenta didática?

No estágio atual de nossa sociedade, caracterizado pelo desenvolvimento tecnológico, onde a informação é disseminada na velocidade da luz, parece que a arte caminha a passos de tartaruga, isto é, quando esta arte não atende aos chamados vorazes do mercado. Aquilo que é produto comercial é velozmente consumido por tudo e por todos e de repente nos vemos de barriga vazia de novo. Na fome nos valemos de qualquer coisa, que venha o que a mídia nos diz para consumir.

O problema se apresenta quando pessoas qualificadas, formadoras de opinião com a tarefa de desempenhar o papel de educador, o mais sublime de todos, que é à base do desenvolvimento da sociedade, não atentam para a importância da arte na educação e para o desenvolvimento humano, pois não há sociedade sem cultura. O homem que desconhece sua história, sua cultura, não é capaz de escrever seu futuro.

A poesia, rompendo a cortina de fumaça da linguagem prosaica, impõe a quem a lê uma nova visão perante a realidade.  Fugindo da linearidade de um mundo cartesiano, submete o seu leitor a novos padrões de pensamento, devido ao simbolismo que carrega em seu conteúdo, remontando desta forma o mundo-objeto. Sendo a linguagem-pensamento, corpo e mente da realidade, pois sem a mesma, não existiria sociedade nem o mundo físico, devemos requalificá-la, tornando-a mais rica de símbolos e de sentidos, multiplicando o homem, desta forma, em suas humanidades, através das representações que carrega em seu espírito.

*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo






POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, JUAREIZ CORREYA E ANTONIO DE CAMPOS




Poema a céu aberto*
Natanael Lima Jr

As noites passam ávidas.
Por vezes,
levianas, desregradas.

Algumas revelam
sombrias angústias
algemadas por paixões dissolventes.

Noutras se revelam
pálidas, tímidas.

Por vezes as desejo
obscenas, insanas,
dominadoras, cruéis.

E quando a noite cessa,
o poema se revela
a céu aberto.

*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas”
 

Para Solange
Juareiz Correya

Para Solange Crasto,
mãe de José Terra e João Guarani


Não interessam
Os tempos e distâncias
Os adeuses e esquecimentos
Revezes e alegrias
Dos dias e dos anos
Nem mesmo se está certo
O que Deus escreveu
E te segredou como destino.
Ou as peças sem cabeça
Das montagens absurdas
do Incriado, o Sem Nome.

Só? Longe?
Em festa? Sempre perto?
Não interessa...
Teu nome é mais
Que uma lembrança de mulher
Um sacrifício de mãe
Uma cidade de afetos
Nos corações que te amam.

Teu nome é a tua criação
Como toda mulher de verdade.
E criaste mais
Do que a Natureza criou:
Criaste não só
Duas crianças
Dois meninos
Duas vidas...
Criaste dois homens.

(Olinda, 17/maio/2005)



Flor de luz
Antonio de Campos

Se acordo a te ver
ao banho de ouro,
cumpro os passos apenas
de ti mais perto estar.

Que amadureças o íntimo
dos seres que não indicam
amadurar no que devem.

A cada manhã retornas
com o fulgurante sal dos espaços
e quanto mais te repartes,
mais de volta recebes
louvores por saúde.

Como ao melhor amigo
o vinho melhor se oferta
e junto com ele o peito
que o saúda, te brindo, flor de luz.

Enquanto sigo-te a rota
entrar noutra casa sem portas,
as da minha fecho
e mais silêncio há em mim
que à noite onde a lua brilha. 




2 comentários:

  1. Bom dia, Natanael. Belos poemas. Para a semana inteira. Não conhecia teu blog. Gostei demais. Um abraço no gosto pela poesia e pelo vinho. Brindemos à arte e à vida.

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  2. Ola Grande Natanael estou passando em seu Blog para pegar um pouco do néctar que e nosso alimento. e gostei muito do seu trabalho.
    Fiquei muito feliz por ter participado do Encontro Blogs Literários do Nordeste.

    Conte comigo e se puder me convide para os eventos espero que você vá no meu blog.

    sidneymramos.blogspot.com

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima