domingo, 1 de abril de 2012


Ser Poeta Ser

Frederico Spencer*






Trova
Mário Quintana

“Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer”.





A poesia tem a capacidade de causar espanto em quem a lê. De repente, frente a um texto, vez por outra, poucas palavras, formando versos diminutos, ou não, vamos sendo levados a uma viagem e ao final da leitura descobrimos que se abre um novo mundo a nossa frente, as perspectivas, as possibilidades são outras a partir dai.  Qual o mistério? Por que de repente essas palavras tão conhecidas se transformam e nos mostram coisas que antes não víamos?  Como se forma esta imagem, como no poema acima? Qual a mágica?

“A arte existe porque a vida não basta” nas palavras do poeta Ferreira Gullar, esta afirmativa dá legitimidade à necessidade da arte como forma de suplementação de significados para a vida cotidiana, elevando a um nível elementar o entendimento filosófico do viver, da existência humana. A arte, neste contexto, é tão importante à manutenção da vida quanto à ingestão de alimentos.

A prosa, linguagem que utilizamos no nosso cotidiano, tem a função de dar funcionalidade à realidade material, reduzindo a diversidade das coisas e dos sentidos, ela simplifica e esquematiza o mundo como forma de padronizar o pensamento humano, tem a função política de transmitir o discurso ideológico, fazendo que todos pensem como uma unidade. 

A poesia está integrada às questões subjetivas do homem como também à sua história, seja em sua relação com os meios de produção como também sua relação com os demais, isto é, integra-se na materialidade da vida, se não for desta forma, perde sua condição básica que é de desmistificar a vida dando a esta uma nova dimensão; levar o ser humano a uma nova plataforma de pensamento que lhe garante a condição humana. Inserida no contexto social, responde a este como meio de comunicação entre o mundo físico e o cognoscitivo, ajustando o indivíduo para o entendimento de suas questões mais subjetivas.

O fazer literário, principalmente o poético neste contexto, assume um papel preponderante no sentido de conduzir o homem à sua condição humana. Trabalhando aspectos subjetivos, extraídos das imagens que o poeta traz em seu espírito, transporta para o papel imagens carregadas de subjetivismo vivenciado no seu cotidiano através do uso de palavras usadas no dia-a-dia.
No seu exercício o poeta transforma a palavra em signo, a palavra tratada como signo se enriquece através da mutabilidade de sentido que lhe é inerente, se multifaceta agregando novos valores para sua significação, agregando valor também ao objeto, já que este perde sua condição estanque, trazendo desta forma à superfície uma nova significação do objeto mediatizado pelos sentimentos do poeta, por aquilo que quer exprimir e pelo exercício da linguagem.

É através da linguagem simbólica que a poesia se forma buscando sempre através da realidade objetiva, desenhar não outra realidade, mas requalifica-la através das imagens que se formam na mente do leitor, circunscritas aos conteúdos que a humanizam, formando assim uma nova maneira de ver e pensar o mundo.
                                                                                  
 * Poeta, sociólogo e psicopedagogo




POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, ANTONIO DE CAMPOS, PABLO NERUDA E FERNANDO PESSOA



                           
Nacos de universo*
Natanael Lima Jr

Um sonho,
uma realidade,
nacos de universo,
constelações aos ombros,
infinito.

Um sonho,
um campo,
uma rocha,
pés que sangram,
andrajos de gente,
sombra amorfa.

Um sonho,
uma canção,
um poema,
nacos de universo,
imortalidade à venda
por dívida.

Todo o (meu) universo
é voz e palavra,
nenhum astro me dirige,
sou eterno.

junho/2010

*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”




Balada pra John Lennon
Antonio de Campos
                                                                                               
As luzes de Nova Iorque, ao apagar
de teu coração, perderam a cor do filamento.
Manhattan, uma terra de lágrimas, agora.
Mas o pássaro canta: He’s only sleeping!*

Muitas são as maneiras de se matar um homem,
a morte é que é uma só. Se difícil
madeira e cravos, fácil um buquê de balas.
Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

Quatro balas quentes como a rosa
acesa de Hiroshima, quatro cordas partidas,
quatro punhaladas de chumbo.
Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

O inverno chegou mais frio
e a neve sobre o teu corpo é negra
como a pele dos que no Harlem te pranteiam.
Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

Não mais verão teus olhos puros de criança,
parados num pedaço qualquer do céu da cidade
e com a infinita impossibilidade de chorar outra vez.
Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

Por mim irias com aquele terno branco
e um punhado de vento em teus cabelos,
mas isso nada vale pra ressuscitar canções em tua boca.
E o pássaro canta mais alto que nunca: He’s only sleeping!



* Ele apenas dorme!




Se cada dia cai*
Pablo Neruda

Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

*do livro “Últimos Poemas (O mar e os sinos)”. Tradução de Luiz de Miranda – Porto Alegre: L&PM, 1997.

“A grande voz de Neruda se levanta pela última vez, cheia de nostalgia e melancolia, mas como querendo condensar nestes últimos poemas o sentido de toda a sua obra. Na sua leitura, poderíamos dizer, como o poeta à sua amada Matilde: “Foi tão belo viver enquanto vivias”.




Ah, um soneto
Fernando Pessoa

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e os braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas – está é boa! – era do coração
que eu falava... e onde diabo eu estou agora
com almirante em vez de sensação?...



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima