domingo, 25 de março de 2012


Da Alma à Metalinguagem

Douglas Menezes*










Há trinta anos ouvi, encantado, pela primeira vez, a música “As Vitrines” de Chico Buarque. Algo me dizia que por trás da aparente simplicidade, da melodia fácil de ouvir e de tocar ao violão, e dos versos com palavras simples, havia um estranhamento típico de uma obra literária e musical de valor.

Pois é verdade ser o banal, o comum elemento básico a ser transformado num texto de qualidade. E a história de um homem acompanhando uma mulher pelas ruas da cidade, seguindo-a como a persegui-la não seria nada que chamasse a atenção como um acontecimento diferente. Mas Chico é gênio, e gênio é aquele que faz do trivial alguma coisa singular.

Música tema de uma novela da rede Globo, “As Vitrines” passou, pelo menos, seis meses na mídia nacional e, embora popular, não chamou a curiosidade do público para os seus aspectos mais criativos.

Comecei, então, a sentir uma atração crescente sobre a melodia e a letra dessa música, um dos belos momentos da obra de Chico – difícil é encontrar um que não seja belo. Na verdade, o primeiro aspecto curioso da obra diz respeito ao distúrbio psicológico do eu lírico: um voyeur. Um obsessivo perseguidor da amada. Tara recheada de imagens poéticas belíssimas, como ao final da música, quando o perseguidor, quase vencido declara: “Passas em exposição/ Passas sem ver teu vigia/ Catando a poesia / Que entornas no chão”. E toda a música é um jogo de espelhos pela cidade, num constante ir e vir obsessivo. O mundo conturbado do personagem narrador é exposto por expressões que mostram o desequilíbrio existencial, a confusão de sua mente expressa por imagem textual que liga conteúdo e forma: “Na galeria, cada clarão/ É como um dia depois de outro dia/ Abrindo um salão...”. E esse descompasso fica claro em verso anterior ao citado, quando a forma, de novo, serve ao conteúdo confuso do comportamento do voyeur: “Nos teus olhos também posso ver/ As vitrines te vendo passar”. As vitrines adquirem comportamento humano, personificação confirmando a visão distorcida da personagem, a mente embotada, sem comando razoável, numa imagem colorida e poeticamente perfeita.  Interessante notar que, a todo o momento, o eu-lírico busca um diálogo com o objeto do desejo, sem conseguir, no entanto: “Olha pra mim,/ Não faz assim,/ Não vai lá não...”. Ao tentar a interlocutora,  sem conseguir, ele  acentua  seu  monólogo, sua solidão total, que de resto é a soledade do homem da cidade grande.

Mas não para por aí, a genialidade de Chico. Ao colocarmos o poema à frente de um espelho uma parte dele se transforma numa outra poesia. Texto projetando outro texto, metalinguagem pura. Observe que o reflexo do poema original se transfigura

Em outro: “Ler os letreiros aí troco/ Embaçam a visão marinha/ Na alegria”, indo aí até o final, como se dentro do espelho houvesse uma outra realidade, distinta da concreta.

Por fim, na gravação original, ao ouvirmos o último verso, o arranjo expressa sons que nos remetem a palavras despencando, diluindo-se, como um brinquedo infantil formado por letras jogadas ao chão. Tudo, pura obra de arte.


*Douglas Menezes é escritor, professor de Língua Portuguesa, pós-graduado em Literatura Brasileira e em Leitura, Compreensão e Produção Textual pela UFPE, membro da Academia Cabense de Letras.




Araras e o amor
Affonso Romano de Sant’Anna*


Liberta-me
de minha liberdade
diz a arara Canindé
ao seu amado
                       preso

na gaiola do zoológico.
Aprisiona-me contigo
pois enclausurada

                           ao teu lado
enfim
          -serei livre.

O amor aprisiona?
O amor liberta?
O melhor amor é aquele
em que a gaiola

                -está aberta.


*Postado em 14 de março/2012, numa reportagem (Band) sobre uma solitária arara Canindé, que todos os dias sai  da Floresta da Tijuca, voa 5 km e pousa numa gaiola de araras no Zoo para namorar.




Encontro de Safo com as musas em Lesbos
Antonio de Campos


Safo aguarda as Musas
pra um encontro

Que palavras não se dirão?

Os versos subirão
do mais íntimo,
existirão tão visíveis, claros,
que Safo os apalpará

Vinde a mim,
remota feminista
e inspiradoras de gregos,
como o tempo de amar:

em silêncio

E nossos dias serão iguais
a um poema –
pra sempre!





Onírico
Antonino de Oliveira Júnior


Desejos emanam com ímpeto e furor,
rimas descem ao papel
como lágrimas que umedecem a face.
A liberdade é como o mênstruo,
certeza viva,
que alimenta a própria razão de ser.

Estradas e ruas de flores,
sentimentos derramados como lava,
a mente mais forte que o físico,
mãos de todas as cores
formando correntes...

e a certeza de vitória
nos sonhos concretos do poeta.




A vida
Wilson Lyra*

A vida é sonho é amor é tristeza
Na alma da gente que ama fascinada
É o sol que ilumina a natureza
E a noite que desperta embriagada.

A vida é alegria deslumbrada
É remorso é angústia e é beleza;
É um mar que se alteia em correnteza
A vida é tudo, é vida, e não é nada!

A vida é lágrima e também sorriso;
O coração humano alegre ou triste
É o calvário e é o paraíso

A vida é pranto de eterna saudade
Enquanto estiver a humanidade
Sentindo, a própria saudade que existe.

*Wilson Lyra, pernambucano do Cabo de Santo Agostinho, professor, advogado e poeta; nasceu em 23/10/1944 e faleceu em 03/05/2003




A mala
Cícero Melo

Para Ângelo Monteiro


Joguei a mala ao mar,
mas, o mar me a devolveu.

Joguei-a, de novo, ao mar
mas, o mar me a devolveu.

Joguei-me com a mala ao mar.

O mar devolveu a mala,
porém, não me devolveu.




La melle
Cícero Melo

Pour Ângelo Monteiro

J’ai jeté la malle à la mer
mais, la mer me l’a renvoyée.

Je l’ai jetée, de nouveau, à la mer
mais, la mer me l’a renvoyée.

J’ai jeté, moi et la malle, à la mer.

La mer a renvoyé la malle,
mais elle ne m’a pas renvoyé.




Fragmento do acaso*
Ivan Marinho

Sem gravidade flutuam
Estilhaços de um espelho
E cada parte reflete
Um fragmento do acaso.

Giram dando a impressão
De serem um universo
E são, de certo, mil vezes,

A expressão original

De uma parte perdida
A se olhar eternamente
Ali, imagem pra sempre,
Como se fosse real.

E menos se vê no mundo

E no mundo só se vê.
Entérica alegria
Buscando a rima vazia
De não ser, só parecer.

*Poema selecionado para antologia do SINTEPE em 2009, para a antologia Amigos do Livro da Editora Scortecci (2010) e para a antologia Pernambuco: Terra da Poesia da editora Carpe Dien (2010).




Salvador Allende*
Natanael Lima Jr

                    a Glória Wormald Ochoa

A tarde silenciou a voz
da liberdade e da justiça.

O canto não resistiu à tristeza
e partiu sem glórias e honras.

O golpe infame tingiu de sangue
a pátria e a resistência de um povo.

Salva-nos dessa dor,
Salvador Allende!

*do livro “À espera do último girassol & outros poemas"



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima