domingo, 26 de fevereiro de 2012


Jaci Bezerra: Um pirata sem tapa-olho

Frederico Spencer*


Jaci Bezerra

Na sua forma clássica a poesia é constituída por três características básicas: o lirismo, que trata do seu ambiente na condução da palavra e sua expressão, a métrica e a rima que formam seu ritmo e que constitui sua forma de sedução para a leitura. Esta é a fórmula básica para aqueles que se aventuram no exercício da poesia. Para alguns poetas, no entanto, com o passar do tempo e o fazer constante de versos, esta fórmula transmuta-se para uma simples referência que marcou sua caminhada para o achado de sua poética verdadeira, quando chega ao domínio total da linguagem.

A poética de Jaci Bezerra obedece ao rigor do clássico, mas, escapa dele transformando-se em algo novo. Seus versos não se privam da aspiração da liberdade que o domínio vigoroso da linguagem propõe fugindo, desta maneira, das fronteiras do classicismo, para lançar-se aos sentidos do espírito humano. Dialeticamente, transgride as regras, mas, elege-as como forma de expressão do seu pensamento sem, no entanto, submeter sua linguagem aos modismos literários: “até onde Deus for irei com Deus/e o amor de nós dois irá comigo/e tanto serei tu e serás eu/que o amor de Deus/inventará um novo paraíso”. Segundo o sociólogo e poeta Sebastião Vila Nova: “Alguns de seus poemas já figuram entre aqueles que quem os lê jamais esquece, os poemas de permanência definitiva nas letras do Brasil. É o caso, entre tantos exemplos possíveis, dos “Sonetos de Arlequim a Colombina”, expressão virtuosística da coroa de sonetos”.

Ícone da Geração 65, homenagem feita pelo historiador Tadeu Rocha ao grupo poético, nascido na cidade de Jaboatão dos Guararapes, no qual foi um dos fundadores e, ladeado pelo poeta e crítico César Leal, editor do suplemento literário do Diário de Pernambuco, fez parte desta geração de poetas que foi reconhecido como um dos movimentos literários mais importantes do país. Atuou também como editor quando fundou a Edições Pirata, que produzia os livros aproveitando os horários de descanso das impressoras da Editora Massangana, com recursos próprios para a compra de material, produção esta que servia para atender à demanda crescente de jovens poetas que queriam ver seus livros publicados. A Edições Pirata foi responsável pelo lançamento de vários nomes da literatura pernambucana que hoje permeiam o cenário da poesia nacional.

*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo








TRÊS POEMAS DE JACI BEZERRA


Linha d’água

Em Alagoas me achei, achando o mar,
desde então o conservo em mim, aberto,

porém nunca aprendi a soletrar
a insone cadência dos seus metros.

Talvez porque o mar, nervoso e inquieto,
no pacífico silêncio onde Deus viça,

não escreve nem repete o mesmo verso
no seu caderno de águas movediças.

Achando o mar me fiz cúmplice da beleza,
mas ao me consumir em suas chamas

soube que a alma é uma onda de incertezas
presa na cela da nossa areia humana.

Aprendi com o mar a ser constante
e a aceitar, sem pudor, as coisas frágeis:

a fazer da inconstância dos instantes
lembranças o mais possível perduráveis.

Entregue ao mar, pago ao mar meu tributo,
e ao escutá-lo na minha humana cela,

sinto que o mar, fremindo longe e oculto,
me conta coisas que a ninguém revela.



Postal pernambucano
(com informações de Pereira da Costa)

O tempo era de caju e manga,
do azul do céu lavado da manhã,
também do Cristo que ainda hoje sangra
na agonia de luz do flamboyant.
O dia entrava pela telha vã
e a prima, em chama, se ofertava nua.
O holandês, com o cachecol de lã,
assombrava o chalé, a alma e a rua.
A cada coisa Deus dava o seu nome
e os meninos, sentados na calçada,
temiam o cabeleira e o lobisomem.
A tia queria o moço dos seus sonhos,
e enquanto ele não vinha, suspirava,
rezando diariamente a Santo Antônio.



Neste canto finquei meus alicerces

Este livro é o livro dos remorsos,
inventário de um tempo hoje disperso:

nele sou luz e cor e me despeço,
sou também treva e sonho e, nele, endosso

a sede de ternura e a minha fome
de ser só o que sou, nele me expurgo:

eu, neste livro, não me evado ou fujo
e aceito a cinza hostil que me consome.

Há muito quis fazer este inventário,
mas me  faltou o ócio da manhã,

além do ócio, o sal, a palha, a lã
e o alfabeto manchado dos diários.

Ao escrevê-lo eu sou pedra e chama,
memória de um tempo conturbado:

nele me oferto inteiro e tatuado
rendido à solidão que me reclama.

Escrevo uma canção para quem ama
e entre extremos se perde e se procura:

a vida que se busca e se tortura,
insônia que me invade e que me inflama.

Aqui contabilizo o dever e o haver,
o momento fraterno e a omissão:

aqui, serenamente, o coração
deixa o que fui e sou acontecer.





POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, TEREZA SOARES, ANTONINO OLIVEIRA JÚNIOR, ANDERSON PAES BARRETO E JAIRO LIMA




Meu poema não faz silêncio*
Natanael Lima Jr 

meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo
trago-o como herança
que pulsa e sangra
nos ombros do mundo 

meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo
trago-o como navalha que corta
o curso provinciano das horas 

meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo
trago-o de corpo e alma
pujante, visceral 

meu poema não faz silêncio
e a ninguém cabe calá-lo
trago-o aceso
em cada amanhecer


junho/2010

*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”




Voo
Tereza Soares*

Banhada pelas estrelas estou...
No meio do mar firmamento
De um profundo escuro que não se vê
Cada momento começa agora e agora sempre
E eu penetro no Universo dentro e fora
Chego e não sei, voo sem descanso, longe do aqui e sou
Mais que um risco no espaço sem demora
À espera de um sim que me permita o seu inteiro

Dezembro /2011

*Tereza Soares é jornalista, poetisa e da Academia Cabense de Letras

E eu me fiz Deus
Antonino Oliveira Júnior*

Aninhado em teus braços,
ocupei o espaço entre a noite e o dia
no leito imaculado que guardavas,
na esperança febril
de entregar-se aos primeiros suspiros,
oferecendo os sonhos
sonhados num leito ainda vazio,
repleto de esperas, de ânsias e de amor...
tanto amor que não cabia em ti.

Em leves e suaves toques
penetrei como o sol que invade a noite
e no cerne de tuas emoções
fiz derramar em ti
vibrações que se eternizam
em sementes que brotam de nós...

E me fiz Deus,
reinventando a criação
e me refazendo no amor.

*Antonino Oliveira Júnior é poeta e membro da Academia Cabense de Letras



Sempre depois disso
Anderson Paes Barreto* 

Depois disso, eu vou
Depois disso, eu falo
Depois disso, eu dou
Depois disso, eu calo
Depois disso, eu compro
Depois disso, eu pago
Depois disso, eu chego
Depois disso, eu viajo
Depois disso, eu entro
Depois disso, eu saio
Depois disso, eu pergunto
Depois disso, eu respondo
Depois disso, eu como
Depois disso, eu durmo
Depois disso, eu abraço
Enquanto houver um depois disso, eu nada faço. 

*Anderson Paes Barreto é Jornalista e edita o blog multipersonalismo


A lupa
Jairo Lima*


Dera fosse invertida,
A lupa que espreitamos a vida.
Sobre as vidas alheias, o lado que mais distancia
E sobre as nossas próprias, o que mais aproxima.
E eis que a humanidade, invertidamente,
Certo se descobriria como humanizar-se.


*Jairo Lima é poeta e membro da Academia Cabense de Letras




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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima