domingo, 12 de fevereiro de 2012


90 anos da Semana de Arte Moderna

Momento que redefiniu a concepção contemporânea de “cultura brasileira”, quando foram propostas pela primeira vez muitas das ideias ainda correntes sobre a relação do país com a tradição nacional e as influências estrangeiras, o movimento modernista completa este mês nove décadas de seu marco inicial. Realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro no elegante Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de 1922 reuniu um grupo de jovens artistas contestadores que, com o tempo, se tornaram, eles próprios, clássicos, como os escritores Oswald e Mário de Andrade, os artistas plásticos Anita Malfatti e Di Cavalcanti, o músico Heitor Villa Lobos e o escultor Victor Brecheret, entre outros.


Abaporu, de Tarsila do Amaral, a tela brasileira mais valorizada no mundo, hoje encontra-se exposta no Museu de arte latino-americana de Buenos Aires (MALBA). Com influência modernista, foi pintado em 1928 por Tarsila do Amaral para dar de presente de aniversário ao escritor Oswald de Andrade, seu marido na época.




A NECESSIDADE DA ARTE
*Frederico Spencer



“É da própria natureza da arte romper os limites da solidão,
ainda que seja abismando-se nela,
transcendendo-a por baixo” (Ferreira Gullar)


Desde o começo da história, o homem se empenha em deixar suas marcas através dos tempos. Na sua intencionalidade, essas marcas foram gravadas como forma de expressão de seus sentimentos, medos e anseios, frente aos desafios da natureza e que também serviram, com o passar do tempo, como meio de garantir às gerações futuras informações importantes para a preservação da espécie.

Através dos desenhos rupestres, que podemos definir, como os primeiros ensaios artísticos do homem, fazemos hoje uma avaliação dos fatos ocorridos num passado distante. Desta forma, o homem foi formando ao longo dos tempos sua história cultural.

Em seu legado, os desejos de sobrevivência arrastaram o homem para os grandes desafios de controle da natureza para garantir a sobrevivência de sua espécie. Neste contexto o pensamento humano, como condição estratégica, torna-se matéria orgânica para a construção de uma nova realidade, buscando a forma mais adequada para sua fixação no meio circundante.

A linguagem humana dá forma ao pensamento, transformando a imaginação em matéria viva, trazendo à realidade o produto do pensamento. Os códigos de comunicação dão forma à fala e à escrita como meio de fixar na natureza as vontades humanas. Desta maneira o homem forja seu universo cultural, esculpido por um mundo subjetivo, codificado por sons e imagens.

Nos tempos atuais os desejos humanos, aportados pela economia de mercado, são construídos pelas campanhas de marketing baseadas no mercado de consumo de massa. O homem atual, distante do seu eu interior, perde seu vigor humanitário, num processo de desconstrução cultural, que o projeta num vazio identitário. Longe de sua essência lança-se na solidão com seus medos e angústias, ateadas pelas ilusões de um mundo sem relações sociais permanentes, onde só ponderam as relações de troca pecuniárias.

Na realidade contemporânea a racionalidade funciona como meio de definição das ações lógicas, imprescindíveis para o trato com o trabalho e das relações que se fazem através dele.

O atual desenvolvimento tecnológico, lastreado pela troca on-line de informações impõe ao homem um modo de vida tecnocrático, que o afasta das relações pessoais e do contato subjetivo com a vida. A linearidade do pensamento lógico-formal subtrai do homem a essência de divinização do seu ser, embrutecendo-o e transformando-o.

As artes em geral têm a função de reinterpretar a realidade que nos circunda, elevando a sensibilidade humana a um extremo de sublimação e de novas descobertas cognoscitivas, impondo ao espírito um olhar para além das fronteiras do pensamento, para um pensamento livre.

É neste contexto que as artes podem assumir um papel preponderante na recondução deste homem tecnológico ao seu habitat primordial; para a copa das árvores, observando a natureza através do seu notebook, conectado com o universo.

* Poeta, sociólogo e psicopedagogo





Certo sertão*
Alberto da Cunha Melo

 












 
Quando a chuva vier, verás repleto
Os buracos que tens nas tuas mãos,
E só assim, não mais, os teus insetos
Se enforcam nas roseiras do sertão.

Esconde no teu corpo os indiscretos,
Os caprinos anelos de evasão:
Quando a chuva vier, verás quieto
Se inúteis todos eles na estação.

Limpa dos homens, da semente, a cova
Que um deus menor cavou disposta em cruz,
E aproveita da terra à lua nova,

Seus olhinhos de mato, seus umbus:
- Que não demora o espaço que renova
Seu orvalho, seu pan, seus urubus.


*Poema inédito do poeta Alberto da Cunha Melo, enviado pelo fraterno amigo José Luiz Mélo, cujo e-mail transcrevo na íntegra abaixo:



Meu caro poeta e amigo Natanael Lima Jr.

Mês passado, conheci o Blog “Cenas e Coisas da Vida”, publicado por um contemporâneo nosso, no tempo do “Dia Virá”, de nossas andanças nas madrugadas de Jaboatão, e que conviveu estreitamente comigo, com o Alberto, o Jaci, o Domingos Alexandre e outros mais que conosco nadavam e se afogavam nas noites profundas de nossa juventude.

Seu autor, Pedro Vicente da Costa Sobrinho, hoje escritor e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na época, idos de 64, talvez com 16/17 anos, era um militante do PCB, tinha uma formação ideológica já formada, e compartilhava conosco as aventuras nas nossas madrugadas.

Entretanto, foi como Pedro Virgulino que o conhecemos na época, e somente muito depois, foragido após o golpe de 66, soubemos seu verdadeiro nome, até para nós, seus amigos diletos, desconhecido.

Na capa do blog, ele publica uma nota chamada “ASSIM ERA O MEU AMIGO E POETA MAIOR ALBERTO DA CUNHA MÉLO” onde narra a convivência com o Poeta nos anos que antecederam sua fuga e o engajamento de Alberto nas lutas políticas que antecederam o 31 de março de 64.

No blog, encontrei publicado um soneto de Alberto, que Pedro Virgulino declara inédito, e que transcrevo para você se possível oferecer aos leitores do seu belo blog.

Um forte abraço do amigo e admirador,
José Luiz Mélo


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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima